1990–1999
Não Sois Estrangeiros Nem Forasteiros
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Não Sois Estrangeiros Nem Forasteiros

Há alguns anos, quando eu era presidente de missão em Portugal, os missionários me apresentaram ao seu engraxate. Seus sapatos estavam sempre tão brilhantes, que eu queria muito conhecer a pessoa que os engraxava. Embora ele nunca tivesse desejado ouvir a mensagem dos missionários, eu considerava o engraxate meu amigo, e conversávamos enquanto ele lustrava meus sapatos. Ele contou-me que sua esposa havia falecido, que não tinha família, e que o único prazer que lhe restava na vida era ver as pessoas saírem contentes com os sapatos que ele engraxava.

Seu ponto era na guia da calçada de uma pequena praça, numa movimentada rua do centro de Lisboa — onde ele parecia ter todo o necessário: um rústico banco de três pernas, onde meu franzino amigo se sentava para lustrar os sapatos, que eram apoiados numa caixa velha e encardida, cheia de latas de graxa e de escovas. No local havia um poste de iluminação (gratuitamente oferecido pela cidade de Lisboa), no qual o freguês se recostava ao engraxar os sapatos.

Ele cuidadosamente passava duas camadas de graxa, polindo com a escova após cada camada, e por último aplicava um produto que dava aos sapatos um brilho todo especial. Após o retoque final com um pedaço de pano, ele se levantava e, tirando o boné, fazia uma mesura e dizia: “Pronto, seus sapatos foram engraxados pelo melhor engraxate do mundo.’’ Eu ficava convencido de que meus sapatos realmente tinham sido engraxados pelo melhor profissional que havia.

Alguns meses depois de minha missão, fui chamado como Representante Regional em Portugal, e tive a oportunidade de retornar inúmeras vezes a Lisboa. Quando a ocasião permitia, eu ia engraxar meus sapatos no “melhor engraxate do mundo”.

Na última vez, porém, não o encontrei em seu lugar costumeiro. Por fim, perguntando por ele nas renomadas lojas da praça, obtive sempre a mesma resposta: “Não sabemos o que houve com ele. Ouvimos dizer que ele morreu.” Lembro-me de pensar: Será que o melhor engraxate do mundo morreu e ninguém sabe, nem parece importar-se? Fiquei imaginando: Será que ele morava com alguém, ou apenas desapareceu sem que ninguém percebesse?

Gostaria de comparar esta circunstância com a do irmão e irmã Joaquim Aires, um casal maravilhoso, que voltou para Portugal em 1974, após a revolução das colônias de Portugal em Angola e Moçambique. Eles haviam retornado sem que ninguém notasse, trazendo seus escassos pertences. Uma grande bênção, porém, aconteceu na vida deles. Eles abriram a porta a dois jovens missionários, que lhes ensinaram sobre a restauração da igreja de Cristo. Eles os acolheram, aceitaram a mensagem, e foram batizados.

Como acontece a todos os homens dignos da Igreja, ele recebeu o sacerdócio — autoridade para agir em nome do Pai Celestial — e tornou-se um líder da Igreja. O irmão Aires se tornou o Presidente Aires, presidente de um dos distritos da missão.

Certo dia recebi um telefonema. O Presidente Aires havia sido hospitalizado em Coimbra, situada a algumas horas de viagem do lugar onde eu me encontrava. Ele sofrera uma hemorragia cerebral muito grave, e seu estado era bastante delicado. Eu e outro líder do sacerdócio viajamos para lá o mais depressa possível. Ao entrarmos silenciosamente no quarto do hospital, encontramo-lo dormindo. Meu primeiro impulso foi o de não o acordar, depois pensei que ele gostaria de saber que estávamos ali e, aproximando-me, toquei-lhe delicadamente a mão. Ele abriu os olhos devagar e fitou-me por um momento. Então seus olhos e os meus se encheram de lágrimas, e ele disse com a voz muito fraca, mas cheia de ternura: “Eu sabia que o senhor viria. Eu sabia que o senhor viria. Por favor, pode abençoar-me?” Com sua preciosa e terna fé ele estava pedindo uma bênção do sacerdócio, a mesma que a Bíblia registra e nos ensina. Lemos em Tiago 5:14–15: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da Igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor;

E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará.”

Como portadores do sacerdócio, tivemos o privilégio de ministrar-lhe uma bênção, pelo poder e autoridade de nosso Pai Celestial.

Quando me reunia com membros da Igreja de outras partes de Portugal, os irmãos perguntavam: “Como vai o irmão Aires? Por favor, diga-lhe que o amamos e que estamos orando por ele.”

Este bom homem e sua esposa, que haviam retornado a Portugal como desconhecidos, agora, como membros da Igreja, tinham, literalmente, milhares de pessoas que os amavam, interessavam-se por eles, e se lembravam deles nas orações.

As orações da fé foram respondidas. Ele se restabeleceu completamente, e juntos o casal cumpriu uma missão de tempo integral.

Tenho pensado muitas vezes no contraste entre os dois — de um lado, meu pequeno engraxate que, como muitos peregrinos desconhecidos, havia desaparecido sem saber o verdadeiro propósito da vida; e de outro lado o irmão Aires, que não somente aprendera o verdadeiro significado do propósito da vida, mas passara a fazer parte de um grande grupo de pessoas que lhe demonstrava amor e apreço.

Quando o Apóstolo Paulo escreveu aos membros da Igreja, ou santos como eram e são chamados hoje, ele lembrou aos membros recém-conversos da Igreja as bênçãos de pertencerem a ela, dizendo: “Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de-Deus” (Efésios 2:19).Que grande bênção é sentir-se aceito, estimado e útil: isso se torna ainda mais evidente nos momentos difíceis da vida.

Todos os que estais fora da família da fé e afastados dos santos, por favor, aceitai o convite, vinde a Cristo todos, “que estais dispostos”, como disse Alma, “a carregar mutuamente o peso de vossas cargas” (Mosiah 18:8). Uni-vos aos santos, para que não mais sejais estrangeiros solitários neste mundo, mas para que sejais amparados, amados e apreciados.

E a todos vós — membros da Igreja, poderia dar-vos um conselho? Conheceis alguém, como aquele pequeno engraxate, que vive sozinho — solitário em meio à multidão — que poderia desfrutar de vosso especial amor, cuidado e interesse? Poderíeis dedicar-lhe um momento que fosse, para fazê-lo saber o quanto o amais?

Que nós, como membros da igreja, façamos nossa parte para tornar esta Igreja um cálido refúgio a todos os filhos do Pai Celestial, humildemente oro, em nome do Senhor e Salvador Jesus Cristo, amém.