1990–1999
Mudando De Canal
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Mudando De Canal

Há dias, enfrentei o desafio de dirigir a palavra a um numeroso grupo de adolescentes. Em seguida, recebi uma carta de uma maravilhosa mãe que, com seu marido bispo, havia acompanhado o filho de quatorze anos, e alguns de seus amigos, à reunião. Eis as últimas palavras dessa carta:

“Aceite meus agradecimentos… O senhor falou seriamente a um grupo de jovens que estão acostumados a ouvir como são maravilhosos. Eles são maravilhosos, mas precisavam refletir seriamente, para variar. O senhor os ajudou a fazer isso. Muito obrigada!”

Fiquei satisfeito por ter a reunião levado pelo menos alguns dos presentes a uma séria reflexão. No início, referimo-nos ao hábito de mudar a esmo de canal ou estação, quando estamos diante da televisão ou do rádio, e disse que, ao preparar-me, fizera uma busca semelhante em minha memória e anotações. Procurara escolher, dentre as muitas observações, experiências e pensamentos, alguns capazes de tocar aqueles que estivessem ouvindo atentamente, para que posteriormente pudessem refletir sobre o que tinham ouvido. Eu gostaria de fazer o mesmo convosco neste momento.

No meu monitor forma-se a imagem de um pai, a bordo de um avião, empreendendo uma curta viagem de negócios. Ele está acompanhado do filho de cinco anos e quase deseja que o menino não estivesse com ele, pois o vôo está sendo bastante turbulento. Passam por correntes de ar ascendentes e descendentes, com ventos de frente alternando-se com ventos de ré, e alguns dos passageiros já passam mal. O pai lança um olhar apreensivo ao filho e vê que exibe um largo sorriso. “Pai”, pergunta o menino, “eles fazem isso só para divertir as crianças?”

Bons pais, familiares, líderes e amigos sempre se empenham em divertir as crianças, mas a diversão em que pensam é uma diversão sadia que não machuca ninguém, eleva o espírito e será uma boa lembrança amanhã e pela vida afora. Nunca prejudica a alegria real e duradoura, que devemos experimentar neste mundo.

A próxima cena do monitor ilustra isto claramente — é o testemunho de um nobre e amoroso pai a seus filhos, pouco antes da morte. Diz Léhi: “Eu falei estas poucas palavras a todos vós… nos últimos dias de minha provação; e escolhi a parte boa, de acordo com as palavras do profeta. E não tenho nenhum outro objetivo que não seja o eterno bem- estar de vossas almas.” (2 Néfi 2:30.)

Este é também o objetivo de todo bom pai, avô, professor, líder do sacerdócio, amigo e de toda mãe.

Mudando rapidamente para outra cena, buscai os princípios de amor e arbítrio que se refletem nos pensamentos e ilustrações. São princípios centrais do evangelho, que abrangem “toda a lei e os profetas” (Mateus 22:40), conforme disse Jesus dos mandamentos de amar a Deus e ao próximo; e eles ressaltam a responsabilidade individual, em nossas escolhas, com respeito a todas as outras virtudes e valores. (Vide Mateus 22:36–40).

A Bíblia nos ensina que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito”. (João 3:16.) Doutrina e Convênios ensina que “Jesus Cristo, (vosso) Redentor… de tal modo amou o mundo, que deu a sua própria vida”. (D&C 34:1, 3.)

Deus amou de tal maneira que deu.

Cristo amou de tal modo que deu.

Estamos nesta terra para aprender, segundo o exemplo do Pai e do Filho, a amar o bastante para dar — a usar nosso arbítrio abnegadamente. Estamos aqui para aprender a fazer a vontade do Pai.

O amor de que falamos não se resume a uma palavra ou sentimento. Diz João: “Meus filhinhos não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (1 João 3:18.)

Assim, pois, estamos falando da escolha do caminho, da benevolência, da bondade, não como elementos optativos do evangelho, mas como seu próprio âmago. Espera-se que tenhamos decência, honra, abnegação, boas maneiras e bom gosto. O que realmente importa, afinal, é que tipo de pessoa somos e o que nós somos diariamente, a toda hora, em nossas decisões e manifestações. Jesus disse: “Eis que eu sou a luz que levantareis: aquilo que me vistes fazer.” (3 Néfi 18:24.)

Mudando de canal, aparece em nossa tela uma cena triste e pungente. Um jovem pai, acabrunhado, diante da televisão com seus dois filhos, após um jantar improvisado. As crianças ficaram com a avó, enquanto a mãe definhava em insidiosa moléstia; agora estão de volta em casa, com o pai, após o funeral. A menininha adormece e é levada para a cama. O menino luta contra o sono até que, finalmente, pergunta ao pai se hoje, só hoje, pode dormir com ele. Quando os dois estão deitados, lado a lado, em silêncio, o menino indaga:

“Pai, você está olhando para mim?”

“Sim, filho”, replica, “estou olhando para você.”

O menino suspira exausto e adormece. O pai espera um pouco e então, chorando, clama, no escuro, em profunda angústia: “Deus, estás olhando para mim? Se estiveres, talvez eu possa vencer. Sem ti, sei que não posso.”

Nosso Pai Celeste está olhando para nós. Ele nos ama e deseja que escolhamos o caminho que conduz à felicidade aqui, e à vida eterna no mundo vindouro. Em seu plano, ele nos autoriza a agir em nome dele, a ser instrumentos de sua preocupação por seus filhos. Ele, porém, não forçará ninguém a fazer escolhas que conduzam à felicidade. Deu a todos o direito e a responsabilidade de fazer escolhas pessoais, de decidir por si mesmos.

Ele não só afeta nossa vida, mas é afetado pela nossa vida, e às vezes chega a chorar por nós.

O mesmo profeta Léhi a que nos referimos, ensinou estas verdades a seus filhos:

“Porque foram salvos da queda, estarão livres para sempre, distinguindo o bem do mal; para obrarem por si próprios e não serem compelidos…

Portanto, …são livres… para escolher a liberdade e a vida eterna… ou para escolher o cativeiro e a morte.” (2 Néfi 2:26–27.)

Mudai de canal comigo para uma cena de sábado à noite, numa cozinha de fazenda, onde um rapaz, que acaba de atender ao telefone, aproxima-se nervosamente da mãe com uma pergunta:

“Mãe”, diz ele, “Bob está ao telefone. Ele e o pai, e Tom e o pai dele, vão esquiar e caçar amanhã cedo. Ele pergunta se posso ir junto.” A mãe parece atônita com tal pergunta e incerta ao responder. (Mais tarde, ela comenta que foi tentada a responder asperamente ao rapaz, lembrando-lhe que tem obrigações no domingo de manhã, que na família deles costumam ir à igreja juntos e que quando o pai voltasse não concordaria com tal coisa.) Ela, porém, diz ao filho: “Ricardo, você já tem doze anos. E portador do sacerdócio e presidente do quorum dos diáconos. Estou certa de que seu pai gostaria que você mesmo resolvesse esse assunto e desse a resposta ao Bob.”

O rapaz volta ao telefone e a mãe vai para o quarto e ora para que o filho dê a resposta correta. Nada mais é dito sobre o assunto e, no domingo de manhã, o rapaz vai com os pais à igreja, na cidade; estacionam o carro no outro lado da rua e estão atravessando, de braços dados, quando passa uma caminhonete. Dois homens e dois rapazes ocupam a cabina; esquis aparecem na traseira e, pelo vidro de trás, são vistas espingardas. Os rapazes acenam para Ricardo ao passar. Este pára um momento e diz:

“Como eu gostaria…” A mãe respira fundo e Ricardo termina:

“Como eu gostaria de ter convencido o Bob e o Tom a virem à reunião do sacerdócio.”

Contando o caso, a mãe agradece ao Senhor pelo filho que tem, e pela decisão pessoal de fazer o certo. E chora, ao explicar quão importante isso foi para todos eles, pois naquela semana o rapaz morreu num acidente na fazenda.

Acionamos o controle remoto e uma declaração clássica de um grande intelecto e coração se destaca: “Ah, minha alma, olha para o caminho que estás seguindo. Aquele que pega a ponta de um graveto apanha também a outra. Aquele que escolhe o começo de um caminho escolhe o seu destino.” (Harry Emerson Fosdick, em documento eclesiástico.)

Gostaria de relatar-vos, rapazes, uma recordação muito triste de um jovem com um futuro promissor num navio de guerra que escolheu um caminho que o levou a um lugar onde jamais desejara estar. Seus erros iniciais são compreensíveis; era jovem, estava longe de casa e dos amigos, e dos padrões familiares, e queria ser independente. Suas intenções não eram más; sendo, porém, um pouquinho arrogante e orgulhoso, rejeitou os bons conselhos e deixou-se levar por indivíduos, também descritos no Livro de Mórmon, que persuadiram o próximo a seguir caminhos pecaminosos. A respeito deles se disse que “fazem tudo isso como prova de bravura”. (Morôni 9:10.)

A imitação de pseudo-homens, visões “machistas” da vida, tão lamentavelmente vazias, só podem conduzir à tragédia.

Existe o bem e existe o mal, e há uma forma para diferenciá-los.

“Todas as coisas boas vêm de Deus, e as que são más vêm do demônio…

Meus irmãos, dado vos foi julgar, a fim de que possais distinguir o que é bom do que é mau; e a maneira de julgar, para que tenhais um conhecimento perfeito, é tão clara como a luz do dia comparada com as trevas da noite.

Porque eis que o Espírito de Cristo é concedido a todos os homens, para que eles possam conhecer o que é bom e o que é mau.” (Morôni 7:12, 15–16.)

Uma nova cena aparece na tela e prende nossa atenção. Um jovem jogador de futebol é entrevistado por repórteres, a respeito de seu sucesso na carreira, que no início parecera pouco promissora. O que havia provocado tal mudança?

“Sabem”, disse ele, “na escola secundária formamos um mundo próprio, no qual reinamos. No mundo real, convivemos com todas a pessoas, sendo apenas uma parte dele.”

Ele parece estar agora usando sabiamente o livre-arbítrio para seguir um caminho mais construtivo. Antes estava seguindo um caminho que o levava aonde realmente não queria ir, e teve maturidade suficiente para dar meia-volta e escolher outro melhor.

Oh, vimos acontecimentos marcantes, acionando nosso controle remoto da observação e da memória. Um dos mais comoventes envolve uma jovem conversa, que encontrou num colega SUD e na casa dele, à qual fora convidada para uma noite familiar,um espírito e um interesse afetivo, que não conhecera em sua própria vida. Diz ela, desde seu batismo as coisas realmente não mudaram materialmente no próprio lar; continua havendo abusos, discussões, bebidas alcóolicas e linguagem imprópria. “Há, porém, um quarto em minha casa, cuja porta posso fechar e onde posso ler as escrituras, escutar boa música, e orar e sentir o Espírito do Senhor. Em meu quarto posso ter essa bênção. Um dia, com a ajuda do Senhor, casar-me-ei e terei um lar em que reine sempre o Espírito do Senhor.”

Há uma última cena que gostaria de recordar, que consta do meu diário. As tristes realidades de nosso atual envolvimento no Oriente Médio, onde muitos de nosso povo estão em condição ameaçadora, tornam esta lembrança particularmente pertinente e apreciada. Leio o que escrevi em Nha Trang, Vietnam, em maio de 1967:

“Tivemos uma reunião memorável esta manhã, que foi iniciada pelo capelão sênior de outra igreja, chamando-nos calorosamente de ‘meus irmãos em Cristo’. Isto tocou-me profundamente, e a reunião foi consistente com esse gentil início.

Foi uma reunião especial, comovente e com muito Espírito.

Estava muito quente na sala em que nos reunimos. Havia dois velhos condicionadores de ar que não funcionavam. Quando abrimos a porta, descobrimos que a temperatura estava mais amena fora do que dentro. Não obstante, sentiu-se um forte espírito, e tivemos uma doce experiência.

Ao sair, após a reunião, caminhei em silêncio ao longo da sala. Ao passar pela porta dos fundos e olhar para dentro, percebi que se formara como que uma barreira humana, separando os jovens que estavam na parte da frente da sala de outros poucos que estavam nos fundos. Três tinham as mãos sobre a cabeça de um outro homem, sentado. Todos estavam fardados; dois deles haviam chegado de missões aéreas, a tempo de assistir à reunião, e um estava de partida. Os três membros da presidência do distrito davam uma bênção a um oficial, de patente mais alta, designando-o missionário de distrito.”

Essa cena tocou-me mais profundamente que qualquer sermão sacerdotal que já ouvira. Para aqueles homens o sacerdócio significava o direito, o poder de servir e agir em nome e no interesse do Senhor a favor do próximo. Espero nunca esquecer tal cena.

As escrituras nos ensinam:

“Filhçs meus, não sejais negligentes; pois o Senhor vos tem escolhido para estardes diante dele para o servirdes, e para serdes seus ministros.” (II Crônicas 29:11.)

Que possamos sê-lo, fielmente, eu oro em nome de Jesus Cristo, amém.