1990–1999
Escolhas
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Escolhas

Há pouco tempo, uma jovem e bela mãe pediu-me que a aconselhasse quanto a uma decisão muito difícil que devia tomar. Dizia respeito a uma importante cirurgia a que ela estava pensando em se submeter. As conseqüências de sua escolha afetariam seu marido e também a família. Disse-me ela: “Sinto dificuldade em tomar decisões, até mesmo em escolher o que vou vestir cada manhã.”

“A irmã não é muito diferente das outras pessoas em geral”, repliquei. “Todos nós temos de fazer escolhas. Este é um dos grandes privilégios da vida.”

Contei àquela encantadora senhora que aos médicos meus colegas, regularmente são feitas perguntas sobre o corpo humano. Algumas delas são relacionadas a intervenções cirúrgicas para salvar a vida ou uma parte do corpo. Outras a procedimentos facultativos para alterar a sua estrutura ou função. Mais recentemente, muitas delas são sobre a “escolha” de abortar a vida de um novo ser humano que se está formando. Ironicamente, tais “escolhas” negariam ao ser em desenvolvimento tanto a vida como a própria escolha.

Fiz ver à minha interlocutora que perguntas relacionadas ao nosso corpo representam somente uma fração das escolhas mais desafiadoras da vida. Outras incluem “Onde viverei?”, “O que farei com minha vida?”, “Qual a causa merecedora de meus esforços e bom nome?” Estas são apenas algumas das muitas escolhas que temos de fazer diariamente.

Não vou revelar o nome da irmã, nem especificar o tipo de operação a que ela pensava submeter-se. Se eu o fizesse chamaria a vossa atenção para um tópico específico, e me distanciaria daqueles princípios fundamentais que regem a tomada de decisões geralmente importantes.

Como nós todos temos de enfrentar escolhas difíceis de tempos em tempos, estendo um convite a outros, para que se juntem a nós na continuação de minha conversa com a jovem mãe.

Sugiro que, antes de qualquer escolha, façais a vós mesmos três perguntas. Quer vossas decisões sejam diárias e rotineiras ou única na vida, uma reflexão séria sobre estas três perguntas ajudar-nos-á a esclarecer nossas idéias.

“Talvez queira analisar estas perguntas primeiro sozinha, e depois com o marido. São as seguintes:

  1. “Quem sou eu?”

  2. “Por que estou aqui?”

  3. “Para onde vou?”

Respostas sinceras para as três perguntas farão com que nos lembremos de âncoras importantes e de princípios imutáveis.

Ao levar em consideração estas perguntas fundamentais, vereis claramente que as decisões que pensais de início serem puramente pessoais, quase sempre exercem impacto sobre a vida alheia. Ao responder a elas, portanto, deveis estar conscientes de um círculo mais amplo, de familiares e amigos, que serão afetados pelas conseqüências da escolha. Esta auto-análise será um exame íntimo. Ninguém mais ouvirá as respostas. Embora eu sugira algumas, as respostas finais devem ser exclusivamente vossas.

“Quem Sou Eu?”

“Lembra-te de que és filha de Deus, da mesma forma que o é teu marido. O Pai Celestial te ama. Ele te criou para seres bem sucedida e teres alegria.”

“Ele criou o homem, macho e fêmea, à sua própria imagem, e em sua própria semelhança os criou.” (D&C 20:18; vide também Gênesis 1:26–27; Mosiah 7:27; Alma 18:34; Alma 22:12; Eter 3:15; Moisés 2:27.)

Estes corpos, criados à imagem de Deus, devem ser preservados, protegidos e bem cuidados. Concordo com o Apóstolo Paulo, que assemelhou o corpo humano a um templo:

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?

Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.” (I Coríntios 3:16–17.)

“Es um dos grandes e nobres espíritos de Deus, reservados para vir à terra nesta época. (Vide D&C 86:8–11.) Na vida pré-mortal foste apontada para ajudar a preparar o mundo para o grande ajuntamento de almas que precederá a segunda vinda do Salvador. Pertences a um povo de convênio. Es herdeira da promessa de que toda a terra será abençoada pela semente de Abraão, e de que o convênio de Deus com este profeta será cumprido por meio de sua linhagem nestes últimos dias. (Vide 1 Néfi 15:18; 3 Néfi 20:25.)

Como membro da Igreja, fizeste convênios sagrados com o Senhor e tomaste sobre ti mesma o nome de Cristo. (Vide D&C 18:28; D&C 20:29, 37.) Prometeste lembrar sempre dele e guardar seus mandamentos. Ele, por sua vez, concordou em conceder-te o seu espírito.” (Vide Morôni 4:3; Morôni 5:2; D&C 20:77.)

Depois de termos pensado rapidamente em algumas respostas para a pergunta número um, voltemos a atenção para a questão número dois.

“Por Que Estou Aqui?”

Esta é uma pergunta que freqüentemente faço a mim mesmo. Lembro tê-la feito muitas vezes há anos, quando estava no serviço militar, separado da família e dos amigos, cercado pela horrível devastação da guerra. Noutra ocasião inesquecível, fiquei retido numa área remota e fria, longe de transportes, alimento ou abrigo. Sem dúvida também passastes por momentos de ansiedade semelhantes a estes, mas tais experiências foram exceções em minha vida. Eu gostaria de discutir a pergunta mais importante:

Por que estamos aqui, no planeta terra?

Receber um corpo mortal é uma das razões mais importantes. Outra é sermos testados — na mortalidade — para determinar o que faremos com as oportunidades que a vida nos oferece. Essas oportunidades exigem que façamos escolhas, que dependem do livre-arbítrio. A razão principal da existência mortal, portanto, é testar a maneira como haveremos de exercer o livre-arbítrio. (Vide 2 Néfi 2:15, 25.)

O livre-arbítrio é um dom divino. Somos livres para escolher o que seremos e o que faremos. Não estamos, porém, sozinhos. O aconselhamento com os pais é um privilégio, em qualquer idade. A oração nos permite comunicação com o Pai Celestial e abre as portas para o recebimento de revelação pessoal. E, em certas circunstâncias, pode ser altamente recomendável consultar conselheiros profissionais e líderes locais da Igreja, especialmente quando for muito difícil tomar decisões.

Foi este, precisamente, o procedimento escolhido pelo Presidente Spencer W. Kimball. Em 1972, Élder Kimball, do Conselho dos Doze, sabia que sua vida mortal estava se extingüindo, devido a uma doença do coração. Ele obteve conselho médico competente e consultou fervorosamente o Senhor e outros líderes da Igreja. Elder e irmã Kimball, com a Primeira Presidência, avaliaram cuidadosamente as alternativas, depois do que, o Presidente Harold B. Lee, falando em nome da Primeira Presidência, aconselhou-o com grande convicção, dizendo: “Spencer, você foi chamado! Você não vai morrer! Você deve fazer tudo o que for preciso para se restabelecer e continuar a viver.”

O Presidente Kimball decidiu submeter-se a uma operação muito arriscada e foi abençoado com ótimos resultados. Viveu mais treze anos, tendo sucedido ao Presidente Lee na presidência da Igreja.

O precioso privilégio de escolha — o livre-arbítrio do homem — foi decretado antes da criação do mundo. (Vide D&C 93:29–31.) É uma escolha moral. (Vide D&C 101:78.) Conseqüentemente, Satanás ofereceu-lhe oposição (vide Moisés 4:3), que foi confirmada pelo Senhor (vide Moisés 4:2) e reafirmada por meio dos profetas antigos e modernos. (Vide D&C 58:26–28; Moisés 6:56; Moisés 7:32).

O exercício apropriado da escolha moral requer fé. A fé no Senhor Jesus Cristo é o primeiro princípio do evangelho. (Vide Quarta Regra de Fé.) Graças ao Salvador, possuímos o livre-arbítrio. Ele deve ser o alicerce de nossa fé, e o teste dessa fé é a razão fundamental para a liberdade de escolha.

Somos livres para desenvolver e exercer fé em Deus e em seu divino Filho, fé em sua palavra, fé em sua Igreja, fé em seus servos, e nos seus mandamentos.

Enfrentar desafios difíceis não é algo novo nem único. Há séculos, Josué e sua família tiveram de fazer uma escolha importante. Ele nos diz:

“Escolhei hoje a quem sirvais: …porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor.” (Josué 24:15; vide também Moisés 6:33.)

Cultivando essa fé, nos habilitamos a receber a companhia do Espírito Santo, que nos ajudará a tomar decisões sábias. (Vide 2 Néfi 2:27–28; D&C 14:8.)

Muitos podem professar certo grau de fé em Deus, mas sem um arrependimento sincero, essa fé não pode ser completamente operante. Tal conceito foi ensinado aos nefitas:

“Tantos deles quantos são conduzidos ao conhecimento da verdade …e são encaminhados à crença das santas escrituras, …e passam a crer no Senhor e se arrependem, sendo que essa fé e arrependimento lhes transformam o coração.” (Helamã 15:7.)

A fé, o arrependimento e a obediência vos qualificarão para os dons sublimes da justiça e da misericórdia, concedidos aos que são dignos das bênçãos da expiação. (Vide Alma 34:16–17.)

Sim, cada teste, cada dificuldade, cada desafio e provação que suportais é uma oportunidade para um maior desenvolvimento da fé. (Vide D&C 63:11; D&C 101:4.)

A fé pode ser fortalecida pela oração. A oração é uma chave poderosa quando tomamos decisões, não só concernentes ao corpo físico, mas também a outros aspectos importantes da vida. Procurai humildemente ao Senhor em oração, com verdadeira intenção de coração, e ele vos ajudará. (Vide Alma 33:23; Morôni 7:9; Morôni 10:4; D&C 9:7–9.)

Lembrai que a fé e a oração em si raramente são o suficiente. Em geral, para alcançar o desejo de vossos corações, é necessário um esforço pessoal. “A fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” (Tiago 2:17; vide também os versículos 18, 20, 26; Alma 26:22.)

As respostas para a pergunta número dois salientam que estamos aqui para exercer a fé, para orar e trabalhar com afinco.

Agora atentemos para a pergunta número três.

“Para Onde Vou?”

Esta pergunta nos lembra que nós todos morreremos, seremos ressuscitados, julgados e recompensados com um lugar nos reinos eternos. (Vide I Coríntios 15:22; Alma 12:24; Alma 21:9; Helamã 14:16–17; D&C 138:19.) A cada dia que passa, estamos mais próximos do inevitável dia do julgamento. Então devereis prestar conta da fé, das esperanças e das obras. Disse o Senhor:

“Para que todo homem possa agir em doutrina e princípio… de acordo com o arbítrio moral que eu lhe dei, para que todo homem seja responsável por seus próprios pecados no dia do juízo” (D&C 101:78; vide também Mosiah 3:24.)

Como seremos todos ressuscitados, nosso corpo físico será então restaurado à sua própria e perfeita forma. (Vide Alma 11:43; Alma 40:23.) O dia da ressurreição será um dia de julgamento, que determinará o tipo de vida que teremos daí em diante.

Esse julgamento levará em conta não só nossas ações, mas também os mais íntimos desejos e intentos do coração. Nossos pensamentos diários não foram esquecidos. As escrituras nos falam de uma “viva lembrança” (Alma 11:43), de “uma perfeita lembrança” (Alma 5:18) quando chegar o dia do julgamento divino.

O Senhor conhece os desejos de nossos corações. Os anseios das irmãs solteiras e dos casais sem filhos, por exemplo, no dia do julgamento, certamente serão levados em consideração com muito carinho, por aquele que disse:

“Eu, o Senhor, julgarei a todos… segundo suas obras, segundo os desejos de seus corações” (D&C 137:9; vide também Hebreus 4:12; Alma 18:32; D&C 6:16; D&C 33:1; D&C 88:109.)

Ele saberá quais foram vossas aspirações, como esposas e mães que tentaram diligentemente servir à família e à sociedade de maneira apropriada.

Quando escuto o que dizem os que defendem causas contrárias aos mandamentos de Deus e observo pessoas que se comprazem nos prazeres do mundo, com aparente desdém pelo julgamento que virá, penso nesta descrição divina de sua insensatez:

“Porque rejeitaram os meus juízos, e não andaram nos meus estatutos, …o seu coração andava após os seus ídolos.” (Ezequiel 20:16.)

As entrevistas, como as de recomendação para o templo, com o bispo e membros da presidência da estaca, são experiências preciosas. De certa forma, podem ser consideradas significativos “ensaios” para aquele grande colóquio que teremos com o Grande Juiz.

Depois da ressurreição e do julgamento, ser-nos-á designado nosso lar eterno nas alturas. As revelações assemelham a glória de tais lugares de habitação às diferentes luzes dos corpos celestiais. Disse Paulo:

“Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas.” (I Coríntios 15:41.)

O Profeta Joseph Smith recebeu revelações adicionais do Senhor, e escreveu que na glória telestial habitarão “os que não receberam o evangelho de Gristo, nem o testemunho de Jesus” enquanto viveram aqui na terra. (D&C 76:82.)

O Profeta ensinou que na glória terrestre habitarão os “honrados da terra, que foram cegados pelas artimanhas dos homens”, aqueles que rejeitaram o evangelho enquanto viveram aqui na terra. (D&C 76:75.)

Finalmente ele escreveu sobre a glória celeste, “cuja glória é do sol, a glória de Deus, a maior de todas”. (D&C 76:70.) Lá viverão os justos com suas famílias, gozando da exaltação com o Pai Celestial e seu Filho Amado. Com eles estarão todos os que foram obedientes às ordenanças e convênios feitos no santo templo, onde foram selados a seus predecessores e à sua posteridade.

A medida que continuardes a enfrentar tantas escolhas desafiadoras na vida, lembrai-vos que estais bem protegidos, quando sabeis quem sois, por que estais aqui, e para onde ireis. Deixai que toda decisão que tomardes no caminho que conduz ao destino eterno se baseie em vossa individualidade, pois a responsabilidade das escolhas atuais terá muito a ver com tudo o que vos espera pela frente.

Que possamos escolher sabiamente, com fé naquele que nos criou, eu oro em nome de Jesus Cristo, amém.