1990–1999
Mil vezes
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Mil vezes

Muitos de vós, que sois pais, tivestes um dia uma experiência semelhante a esta; Ao descansardes um pouco, após um dia afanoso, subitamente a tranqüilidade é quebrada pelo grito angustioso de um de vossos filhos. Levantando-vos depressa da cadeira o encontrais subindo desesperadamente os degraus da frente. E fácil ver que ele tem um ferimento, que exigirá pontos cirúrgicos. Numa fração de segundo, imaginais o que aconteceu e, as primeiras palavras que vos ocorrem, em vez de serem de simpatia e consolo, são: “Meu filho, por que não tomou cuidado? Quando vai aprender a fazer o que digo? Já lhe disse mil vezes que não brincasse no telhado da garagem!” Nossos filhos testificarão que nenhum de nós jamais disse ter-lhes avisado uma, duas, três ou quinze vezes. Sempre afirmamos que lhes dissemos mil vezes.

Assim como os pais terrenos fazem admoestações, também o Senhor tem prevenido seus filhos. “E a voz de advertência irá a todos os povos pela boca de meus discípulos, os quais escolhi nestes últimos dias” (D&C 1:4).

E depois do testemunho deles “virá o testemunho dos terremotos, que farão gemer a terra no seu âmago…

E virá também o testemunho da voz dos trovões… relâmpagos… tempestades, e… das ondas do mar arremessando-se além de seus limites” (D&C 88:89–90).

“E naqueles dias se ouvirá falar de guerras e rumores de guerras…

E o amor dos homens esfriará, e a iniqüidade abundará.” (D&C 45:26–27).

“E pragas virão” (D&C 84:97).

“E toda a terra estará em agitação”. (D&C 45:26).

Não seria atenuar a verdade dizer que as advertências do Senhor já começaram. De que maneira reagimos aos pedidos de auxílio dos filhos de Deus? Perguntamos a eles: “Por que não tivestes cuidado?” “Por que não atendestes ao Senhor?” “Os líderes da Igreja disseram milhares de vezes que mudásseis de atitude.”

Antes de discutir o que nos cabe fazer, gostaria de sugerir, na linguagem moderna, dois ajustamentos de atitude. Primeiro, precisamos evitar o fatalismo. Conhecemos as profecias concernentes ao futuro e em que consiste o resultado final. Sabemos que o mundo, coletivamente falando, não se arrependerá, e por isso os últimos dias serão cheios de muita dor e sofrimento. Assim sendo, poderíamos cruzar os braços e simplesmente orar para que viesse logo o fim e reinasse o milênio. Semelhante atitude tolheria o nosso direito de participar do extraordinário evento que todos aguardamos. Todos nós precisamos ser pessoas atuantes na última cena, e não meros espectadores. Precisamos fazer todo o possível para prevenir as calamidades, depois esforçar-nos ao máximo para ajudar a consolar as vítimas das tragédias que ocorrerem.

Léhi nos deu um excelente exemplo de como aplicou seu conhecimento relativo ao futuro de Lamã e Lemuel. Ele tivera uma visão, mostrando que Lamã e Lemuel não participariam do fruto da árvore da vida. Após a visão, entretanto, continuou “exortando- os então, com todo o amor de um terno pai, a que seguissem seus conselhos, pelo que talvez o Senhor tivesse misericórdia deles” (I Néfi 8:37). No restante de seus dias, Léhi pouca esperança teve, pelas atitudes de Lamã e Lemuel, de que se arrependessem, mas nunca desistiu, e trabalhou com eles e os amou até o seu derradeiro alento. (Vide 2 Néfi 1:21).

O grande profeta Mórmon nos deu outro exemplo digno de ser imitado. Ele viveu em uma época de desalento. Imaginai isto: “E não houve mais dons do Senhor, e o Espírito Santo a mais ninguém foi concedido, em virtude da maldade e descrença” (Mórmon 1:14).

Apesar desta situação desesperadora, Mórmon conduziu seus exércitos pois, conforme suas palavras, “Apesar de suas perversidades… amava-o segundo o amor de Deus que se achava em mim, com todo o meu coração; e todos os dias elevava minha- alma a Deus em oração, em favor deles” (Mórmon 3:12).

Este profeta nutria amor cristão a um povo decaído. Podemos satisfazer-nos em ter um amor menor? Devemos prosseguir, tendo o puro amor de Cristo, e propagar as boas-novas do evangelho. Assim fazendo e participando do combate do bem contra o mal, da luz contra as trevas, da verdade contra a mentira, não podemos ser negligentes em nossa responsabilidade de cuidar dos ferimentos dos que caíram em batalha. No reino não há lugar para fatalismo.

O segundo ajustamento de atitude é não nos permitirmos sentir prazer nas calamidades dos últimos dias. Às vezes nos alegramos ao presenciar as conseqüências naturais do pecado. Talvez nos sintamos vingados por termos sido ignorados pela maior parte do mundo, e perseguidos e desprezados pelos outros. Ao presenciarmos terremotos, guerras, fomes, enfermidades, pobreza e desalento, talvez sejamos tentados a dizer: “Bem que os avisamos.” “Dissemos milhares de vezes que modificassem seus caminhos.”

Gravemos no coração estes provérbios:

“O que se alegra da calamidade não ficará impune” (Provérbios 17:5).

“Quando cair o teu inimigo, não te alegres, nem quando tropeçar se regozije o teu coração” (Provérbios 24:17).

Falando a este respeito, disse Jó: “Pois assim negaria a Deus que está em cima.

Se me alegrei na desgraça do que me tem ódio, e se eu exultei quando o mal o achou” (Jó 31:28–29).

O Rei Benjamim falou claramente, referindo-se ao pecado de julgar os necessitados:

“Talvez digais: O homem trouxe sobre si sua miséria; portanto, não estenderei a minha mão, não lhe darei do meu sustento, nem fá-lo-ei participar de meus bens para evitar que padeça, pois seus castigos são justos.

Mas digo-te eu, ó homem, que quem assim agir tem grande necessidade de arrepender-se” (Mosiah 4:17–18).

Sabemos que muitos sofrimentos acontecem pela culpa do próprio indivíduo, e poderiam ser evitados simplesmente pela obediência aos princípios do evangelho. Escusarmos, porém, de ajudar a pessoa, porque “é problema dela”, não é aceitável aos olhos do Senhor, pois ele disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). para receber o pecador arrependido. Em uma revelação moderna o Senhor nos pediu que fizéssemos ainda mais: “Eu, o Senhor, perdoo a quem quero perdoar, mas de vós se requer que perdoeis a todos os homens” (D&C 64:10).

Devemos demonstrar o perdão estendendo a mão para ajudar a curar feridas, mesmo sendo provenientes de transgressão. Qualquer outra medida seria o mesmo que estabelecer uma clínica de câncer pulmonar para não fumantes. Quer a dor tenha sobrevindo a alguém que seja inocente, ou por sua própria culpa, pouco importa. Quando uma pessoa é atropelada por um caminhão, não deixamos de acudida, mesmo sabendo que o acidente aconteceu por negligência própria.

Embora boa parte do sofrimento do mundo possa ser relacionado à desobediência ou falta de juízo de alguém, há infortúnios que não acontecem por culpa da pessoa. Milhões de habitantes do mundo vão dormir com fome e, ao despertar, são oprimidos por enfermidades e outras aflições. São muitas as causas, as mais diversas e complexas. Assim também, as calamidades naturais sobrevêm tanto aos justos como aos perversos.

Agora que tratamos de alguns ajustamentos de atitude relativos ao fatalismo, e a não sentirmos prazer na calamidade, que devemos fazer? Que devemos fazer como Igreja e indivíduos, para minorar a profunda carência em que o mundo vive?

Os santos são poucos em número. Existem aproximadamente mil não-membros para cada um de nós. Nossos recursos são limitados, e grandes as necessidades do mundo. Não podemos fazer tudo, mas é mister que façamos tudo o que pudermos.

As Autoridades Gerais estão observando as enormes crises no mundo inteiro, e prestando auxílio em inúmeros países. A assistência é prestada onde parece maior a necessidade, sem considerar as ideologias políticas ou religiosas existentes em cada país.

Falando sobre o assunto, Joseph Smith, ao responder à pergunta: “Que é preciso fazer para ser um bom membro da Igreja?”, afirmou entre outras coisas, que “ele deve alimentar os famintos, vestir os nus, atender às necessidades das viúvas, enxugar as lágrimas dos órfãos, consolar os aflitos, sejam desta ou de qualquer outra igreja, ou não pertençam a denominação alguma, onde quer que os encontre.” (Times and Seasons, 15 de março de 1842, p. 732.)

More recently President Hinckley said, “Where there is stark hunger, regardless of the cause, I will not let political considerations dull my sense of mercy or thwart my responsibility to the sons and daughters of God, wherever they may be or whatever their circumstances.” (Ensign, May 1985, p. 54.)

Mais recentemente, o Presidente Hinckley declarou: “Sempre que surgir o fantasma da fome, não importa qual seja a causa, não permitirei que as considerações políticas me tolham o sentimento de misericórdia ou me impeçam de cumprir minha responsabilidade para com os filhos de Deus, onde quer que se encontrem ou quaisquer que sejam as circunstâncias.” (Conferência geral, abril de 1985.)

Quando os membros da Igreja lêem relatos, ou vêem retratado o sofrimento humano, ficam sensibilizados e perguntam: “Que posso fazer?” Muitos de nós não estaremos em condição de ajudar pessoalmente, quando a situação está a quilômetros de distância, mas todo membro da Igreja pode orar para que haja paz no mundo e pelo bem-estar de todos os habitantes da terra. Além disso, os santos podem jejuar e ser mais generosos nas ofertas de jejum, quando possível, possibilitando à Igreja prestar mais auxílio.

No que concerne à ajuda, numa base pessoal, o melhor serviço de solidariedade que podemos oferecer, pode ser em nossos próprios bairros e comunidades. Em qualquer parte do mundo em que vivamos, existe muita dor ao nosso redor. Devemos tomar mais iniciativas, individualmente, e decidir como podemos melhor servir.

Se um determinado programa de assistência não é patrocinado pela Igreja, não significa que os membros não o devem apoiar. Individualmente, devemos estar atentos às oportunidades de servir que existem ao nosso redor. Acho que alguns membros simplesmente ficam paralisados, esperando que a Igreja ponha o selo de aprovação em uma organização ou outra. A Igreja ensina princípios. Utilizai-os com a ajuda do Espírito para decidir quais as organizações que gostaria de apoiar.

O Senhor disse: “Na verdade digo que os homens devem se ocupar zelozamente numa boa causa, e fazer muito de sua própria e livre vontade” (D&C 58:27). Podemos realizar muitas coisas extraordinárias, por meio das organizações da Igreja, entidades comunitárias e, muitas vezes, sem depender de organização nenhuma.

Nossa influência deve ir muito além das paredes da Igreja. Em obras humanitárias, bem como em outras áreas do evangelho, não podemos ser o sal da terra, se permanecermos isolados nos salões culturais de nossas lindas capelas. Não precisamos esperar um chamado ou designação de um líder da Igreja para nos envolvermos em atividades que seriam melhor desenvolvidas em base comunitária ou individual.

Quando nos envolvemos emocional e espiritualmente na ajuda aos aflitos, a misericórdia penetra nosso coração. Isso nos faz sofrer, mas o processo alivia o sofrimento de outras pessoas. Vivemos em pequeno grau a dor que sentiu o Salvador ao realizar a expiação infinita. Por intermédio do Espírito Santo ocorre uma santificação em nossa alma, e nos tornamos mais semelhantes ao Salvador. Compreendemos melhor, então, o que ele quis dizer, quando afirmou: “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:40.)

Conforme se descortinam os últimos dias, veremos todas as profecias serem cumpridas, e os problemas atuais se avolumarem.

Presenciaremos desafios, agora dificilmente imagináveis.

Precisamos ajudar os que estão sofrendo, em virtude de tais acontecimentos. Não podemos ser fatalistas nem julgar, mesmo que tenhamos avisado as pessoas do mundo milhares de vezes, e elas não nos tenham atendido. Em nome de Jesus Cristo. Amém.