1990–1999
Testemunhas de Cristo
anterior próximo

Testemunhas de Cristo

Há alguns meses, recebi uma carta de um membro da Igreja, com uma pergunta incomum: “Tenho o direito de prestar testemunho do Salvador? Ou isso é uma prerrogativa apenas dos Doze Apóstolos?” Em resposta, transmitirei algumas idéias a respeito da razão pela qual todos os membros desta Igreja devem prestar testemunho de Jesus Cristo.

No início, Deus ordenou a Adão: “Farás tudo o que fazes em nome do Filho e te arrependerás e invocarás a Deus em nome do Filho para todo o sempre.” (Moisés 5:8.) Então o Espírito Santo, “que dá testemunho do Pai e do Filho” desceu sobre Adão e Eva, e eles “abençoaram o nome de Deus e fizeram saber todas as coisas a seus filhos e suas filhas”. (Moisés 5:9, 12.)

Posteriormente, Enoque descreveu como Deus havia ensinado a Adão que todos devem arrepender-se e ser batizados em nome de Jesus Cristo, cujo sacrifício expiatório tornou possível o perdão dos pecados, e que eles deveriam ensinar essas coisas a seus filhos (vide Moisés 6:52–59.)

E assim nossos primeiros pais estabeleceram um padrão, recebendo testemunho do Espírito Santo e prestando testemunho do Pai e do Filho àqueles que os rodeavam.

O profeta Néfi descreveu a ordenança do batismo como uma ocasião em que as pessoas deveriam testemunhar ao Pai que desejavam tomar sobre si o nome de Cristo (vide 2 Néfi 31:13). Da mesma forma, o Senhor especificou que aqueles que desejam ser batizados nesta dispensação devem “(vir) com corações quebrantados e espíritos contritos, testificando diante da igreja que… estão dispostos a tomar sobre si o nome de Jesus Cristo”. (D&.C 20:37; vide também Morôni 6:3.) Renovamos essa promessa quando participamos do sacramento. (Vide D&C 20:77; Morôni 4:3.)

Também testemunhamos de Cristo ao nos filiarmos à Igreja que leva o seu nome. (Vide 3 Néfi 27:7; D&C 115:4.)

Recebemos o mandamento de orar ao Pai em nome do Filho, Jesus Cristo (vide 3 Néfi 18:19, 21, 23; vide também Moisés 5:8), e de fazer “todas as coisas… em nome de Cristo” (D&C 46:31).

Obedecendo a esses mandamentos, servimos de testemunhas de Jesus Cristo, por meio do batismo, condição de membros da sua Igreja, participação no sacramento, orações e outras coisas que fazemos em seu nome.

Nosso dever de ser testemunhas de Jesus Cristo requer mais do que isso, e receio que alguns estejam em falta. Os santos dos últimos dias podem ficar tão preocupados com as próprias agendas que esqueçam de testemunhar e testificar de Cristo.

Cito uma carta recente que recebi de um membro dos Estados Unidos. Ele descreveu o que ouviu numa reunião de jejum e testemunho:

“Ouvi dezessete testemunhos e nenhuma vez foi feita menção ou referência, de qualquer espécie, a Jesus. Achei que talvez estivesse em (alguma outra denominação), mas supus que não, porque também não houve referência a Deus…

No domingo seguinte, voltei à igreja. Assisti a uma aula do sacerdócio, a uma aula de Doutrina do Evangelho, ouvi sete oradores na reunião sacramental e nem uma única vez ouvi o nome de Jesus ou qualquer referência a ele.”

Talvez essa descrição seja exagerada. Com certeza é uma exceção. Cito-a porque é um lembrete vivo para nós.

Em resposta à pergunta: “Quais são os princípios fundamentais de sua religião?” disse o Profeta Joseph Smith: “Os princípios fundamentais de nossa religião se constituem no testemunho dos apóstolos e profetas de que Jesus Cristo morreu, foi sepultado, ressuscitou no terceiro dia e subiu aos céus; e todas as outras coisas que pertencem à nossa religião são meros complementos dessa verdade.” (Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 118.)

Falando a um grupo de futuros membros nas Águas de Mórmon, Alma os instruiu a respeito dos deveres daqueles que desejavam “entrar no rebanho de Deus, e seu povo ser chamado”. (Mosiah 18:8.) Um desses deveres era “servir de testemunhas de Deus em qualquer tempo, em todas as coisas e em qualquer lugar em que vos encontreis, mesmo até a morte” (Mosiah 18:9.)

Como os membros se tornam testemunhas? Os primeiros apóstolos foram testemunhas oculares do ministério e da ressurreição do Salvador (vide Atos 10:39–41.) Ele lhes disse: “E ser-me- eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra.” (Atos 1:8; vide também Atos 10:42–43.) Ele, porém, os advertiu de que testemunhariam depois que tivessem recebido o Espírito Santo. (Vide Atos 1:8; vide também Lucas 24:49.)

Uma testemunha ocular não era suficiente. Mesmo o testemunho de um dos primeiros apóstolos tinha de estar enraizado no testemunho do Espírito Santo. Um profeta nos disse que o testemunho do Espírito Santo causa uma impressão na alma, que é mais significativa do que a “visitação de um anjo”. (Joseph Fielding Smith, Doutrinas de Salvação,vol. I, p. 49. E a Bíblia mostra que quando testificamos com fundamento nesse testemunho, o Espírito Santo testifica àqueles que ouvem nossas palavras (vide Atos 2; Acts 10:44–47.)

Quando Pedro e os outros Apóstolos foram levados à presença das autoridades civis, ele testificou que Jesus era “Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão dos pecados”. (Atos 5:31.) Pedro acrescentou: “E nós somos testemunhas acerca destas palavras, nós e também o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem” (versículo 32). A missão do Espírito Santo é testificar do Pai e do Filho. (versículo 32.) A missão do Espírito Santo é testificar do Pai e do Filho. (Vide 2 Néfi 31:18; 3 Néfi 28:11; D&C 20:27.) Conseqüentemente, todos que receberam o testemunho do Espírito Santo têm o dever de dividir esse testemunho com outras pessoas.

Os apóstolos foram chamados e ordenados como testemunhas especiais do nome de Cristo no mundo todo (vide D&C 107:23), mas o dever de testificar e ser testemunhas de Cristo sempre e em todos os lugares se aplica a todos os membros da Igreja que receberam o testemunho do Espírito Santo.

O livro de Lucas registra dois exemplos disso. Em obediência à lei de Moisés, José e Maria levaram o menino Jesus ao templo, em Jerusalém, quando fez quarenta dias, para apresentá-lo ao Senhor. Lá, dois oficiantes idosos e espirituais receberam testemunho de sua identidade e testificaram dele. Simeão, a quem o Espírito Santo revelara que não morreria antes de ver o Messias, tomou o menino nos braços e testificou de sua missão divina. (Vide Lucas 2:25–35.) Ana, que as escrituras chamaram de “profetisa” (Lucas 2:36), reconheceu o Messias “e falava dele a todos os que esperavam a redenção em Jerusalém”. (Lucas 2:38).

Ana e Simeão foram testemunhas oculares do menino, mas, exatamente como os Apóstolos, o conhecimento que tinham de sua missão divina foi obtido por meio do testemunho do Espírito Santo. “O testemunho de Jesus é o espírito de profecia.” (Apocalipse 19:10.) Portanto, podemos corretamente dizer que, ao receberem esse testemunho, Simeão tornou-se profeta, e Ana, profetisa. Os dois, então, cumpriram o dever profético de testificar aos que estavam próximos deles. Como disse Pedro: “A (Cristo) dão testemunho todos os profetas.” (Atos 10:43.) Foi isso que Moisés quis dizer quando externou o desejo: “Oxalá que todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu espírito. (Números 11:29.)

As escrituras descrevem outras ocasiões em que membros comuns — homens e mulheres — prestaram testemunho de Cristo. O Livro de Mórmon conta a respeito do rei Lamôni e sua mulher, a rainha, que testificaram de seu Redentor (vide Alma 19.) A Bíblia descreve o testemunho do Espírito Santo derramando-se sobre os parentes e amigos de Cornélio que, naquela ocasião, foram ouvidos magnificando a Deus. (Vide Atos 10:24, 46.)

As escrituras indicam que temos o dever de testemunhar do Salvador e de sua filiação divina, o que foi ratificado pelos profetas de hoje.

Foi-nos ensinado que os mandamentos são dados e o evangelho é proclamado para que “todo homem fale, em nome de Deus o Senhor, o Salvador do mundo”. (D&C 1:20.)

Os dons espirituais são dados pelo poder do Espírito Santo, para que todos os fiéis sejam beneficiados. Um desses dons é “saber… que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e que foi crucificado pelos pecados do mundo”. (D&C 46:13.) Quem recebe esse dom tem o dever de testificar. Sabemos disso porque, imediatamente após descrever esse dom, o Senhor diz: “A outros é dado crer em suas palavras para que também possam ter a vida eterna se permanecerem fiéis.” (D&C 46:14; vide também 3 Néfi 19:28.) As pessoas que têm o dom de saber têm de prestar testemunho, para que as que têm o dom de acreditar em suas palavras possam receber .benefícios desse dom.

Falando a alguns dos primeiros missionários desta dispensação, o Senhor disse: “Mas com alguns não estou satisfeito, pois não abrem a sua boca, mas, por causa do temor dos homens, escondem o talento que lhes dei. Ai dos tais, pois contra eles está acesa a minha ira.” (D&C 60:2.)

Por outro lado o Senhor prometeu aos valentes em prestar testemunho:. “Pois vos perdoarei os vossos pecados com este mandamento — permanecei firmes… prestando ao mundo todo testemunho das coisas que vos são comunicadas.” (D&C 84:61.)

Essa advertência e essa promessa foram dirigidas especificamente aos missionários, mas outras escrituras sugerem que elas também se aplicam aos outros membros.

Na visão dos espíritos dos mortos, o Presidente Joseph F. Smith descreveu os “espíritos dos justos” como aqueles que “haviam sido fiéis no testemunho de Jesus, enquanto viveram na mortalidade”. (D&C 138:12.)

Ainda na visão dos três graus de glória, o Profeta Joseph Smith descreveu as almas que vão para o reino terrestrial como “os homens honrados da terra” que “não são valentes no testemunho de Jesus”. (D&C 76:75, 79.)

O que significa ser “valentes no testemunho de Jesus”? Certamente, isto inclui guardar os mandamentos e servi-lo. Será que também não inclui prestar testemunho de Jesus Cristo, nosso Salvador e Redentor, tanto aos crentes como aos não crentes? Como ensinou o Apóstolo Paulo aos santos de seu tempo, devemos “(santificar) a Cristo, como Senhor, em (nossos) corações; e (estar) sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que (nos) pedir a razão da esperança que há em (nós)”. (1 Pedro 3:15.)

Todos precisamos ser valentes no testemunho de Jesus. Como crentes em Cristo confirmamos a verdade do testemunho de Pedro, em nome de Jesus Cristo de Nazaré, de que “debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens pelo qual devamos ser salvos”. (Atos 4:12; vide também D&C 109:4.) Sabemos, pelas revelações modernas que só podemos ir ao Pai em seu nome. (Vide D&C 93:19.) Como ensina o Livro de Mórmqn, a salvação é “pela expiação do sangue de Cristo, o Senhor Onipotente”. (Mosiah 3:18; vide também Moisés 6:52, 59.)

Digo aos que são devotados ao Senhor Jesus Cristo, que nunca houve necessidade maior de professarmos nossa fé, em particular e em público.

No início da restauração do evangelho, os púlpitos desta terra ardiam com o testemunho de Jesus, o Filho divino de Deus e Salvador do mundo. E verdade que a plenitude de sua doutrina e o poder do seu sacerdócio haviam sido retirados da terra, mas havia muitos homens bons e honrados, que eram valentes no testemunho de Jesus. Nossos primeiros missionários concentraram sua mensagem na Restauração — o chamado do Profeta Joseph Smith e a restauração da autoridade do sacerdócio — já que podiam presumir que muitos dos que ensinavam tinham uma crença fundamental em Jesus Cristo como nosso Salvador.

Hoje, nossos missionários não podem fazer essa suposição. Ainda há muitas pessoas tementes a Deus, que testificam da divindade de Jesus Cristo. Há, porém, muitos mais — mesmo nas fileiras formais da cristandade — que duvidam de sua existência ou negam sua divindade. Ao ver a deterioração da fé religiosa que ocorreu no período de minha própria vida, estou convencido de que nós, membros da Igreja, precisamos ser cada vez mais valentes no testemunho de Jesus.

Falando há quase vinte anos, o Presidente Harold B. Lee disse: “Há cinqüenta anos ou mais, quando eu era missionário, nossa maior responsabilidade era defender a grande verdade de que o Profeta Joseph Smith foi divinamente chamado e inspirado, e que o Livro de Mórmon é realmente a palavra de Deus. Mesmo naquela época, havia evidências inegáveis de que, na verdade, estava surgindo no mundo religioso uma questão a respeito da Bíblia e do chamado divino do próprio Mestre. Agora, cinqüenta anos depois, nossa maior responsabilidade e preocupação é defender a missão divina de nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, pois ao nosso redor, mesmo entre aqueles que se dizem doutores na fé cristã, há os que não desejam colocar-se em defesa da grande verdade de que nosso Senhor e Salvador era na verdade o Filho de Deus” (Discurso no Serão Domingueiro da Associação de Estudantes SUD, Universidade do Estado de Utah, 10 de outubro de 1971).

Nosso conhecimento a respeito da literalidade da divindade, ressurreição e sacrifício expiatório de Jesus Cristo fica mais seguro e mais claro a cada ano que passa. Essa é uma das razões pelas quais o Senhor inspirou o profeta, Ezra Taft Benson, a pedir que déssemos nova ênfase ao estudo e testemunho do Livro de Mórmon, cuja missão é “convencer ao judeu e ao gentio de que Jesus é o Cristo, o Deus Eterno” (Livro de Mórmon, página de rosto).

Hoje, muitos que professam ser importante que Cristo. Por exemplo, uma revista nacional mostrou, recentemente, uma inovação feita por um novo bispo de uma igreja cristã proeminente. Seus ministros sempre consagraram os emblemas da carne e do sangue de Cristo em nome do “Pai, do Filho, e do Espírito Santo”. No entanto, num esforço para usar o que se chama de “palavras isentas de preconceito sexual”, esse novo bispo começou a consagrar a eucaristia em nome do “Criador, Redentor e Confirmador” (“Fretful Murmur in the Cathedral”, Insight, 24 de abril de 1989, p. 47). Essa tendência de modificar convenientemente a fé cristã ilustra até que ponto algumas pessoas evitam testemunhar de Jesus Cristo, o Filho de Deus.

Não é provável que adulterações deliberadas sejam feitas por santos dos últimos dias fiéis, mas precisamos estar prevenidos contra omissões e equívocos incautos no testemunho pessoal, na educação formal, e nos serviços de adoração e funerais.

Além disso, todos nós temos muitas oportunidades de proclamar nosso conhecimento a amigos e vizinhos, companheiros de trabalho, e conhecidos. Espero que aproveitemos essas oportunidades de demonstrar amor ao Mestre, testemunhar de sua missão divina, e de mostrar nossa determinação de servi-lo.

Se fizermos tudo isso, poderemos dizer, como o Apóstolo Paulo: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê.” (Romanos 1:16.)

Podemos também dizer, como o profeta Néfi: “Falamos de Cristo, nos regozijamos em Cristo, pregamos a Cristo, profetizamos de Cristo… para que nossos filhos saibam em que fonte devem procurar o perdão de seus pecados.” (2 Néfi 25:26.)

Testifico de Jesus Cristo, o Senhor Deus de Israel, a luz e a vida do mundo, afirmando a veracidade de seu evangelho, em nome de Jesus Cristo, amém.