Conferência Geral
Pobrezinhos
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Pobrezinhos

Em cada ala e ramo, precisamos de todas as pessoas, tanto as que estão fortes quanto as que talvez estejam passando por dificuldades. Todas são necessárias.

Quando eu era criança, lembro-me de passear de carro com meu pai e ver pessoas morando nas ruas, pessoas que passavam por dificuldades ou que precisavam de ajuda. Meu pai sempre dizia “Pobrecito”, que significa “pobrezinho”.

De tempos em tempos, eu observava com curiosidade meu pai ajudar muitas daquelas pessoas, especialmente quando viajávamos para o México para visitar meus avós. Ele geralmente procurava alguém que precisava de ajuda, conversava em particular com a pessoa e provia o necessário. Tempos depois, descobri que meu pai ajudava aquelas pessoas a se matricular na escola, a comprar comida e a estabelecer o bem-estar delas de alguma forma. Ele ministrava aos “pobrezinhos” que cruzavam seu caminho. Na verdade, durante toda a minha infância e adolescência, lembro-me de sempre termos alguém morando em nossa casa, que precisava de um lugar para ficar até se tornar autossuficiente. Passar por essas experiências criou em mim um espírito de compaixão por meu próximo e pelas pessoas que passam por necessidades.

Lemos no manual Pregar Meu Evangelho: “Você está cercado por pessoas. Você passa por elas nas ruas, visita a casa delas e viaja com elas. Todas são filhos e filhas de Deus, seus irmãos e suas irmãs. (…) Muitas dessas pessoas estão procurando um propósito na vida. Estão preocupadas com o futuro e com a família” (Pregar Meu Evangelho: Guia para o Serviço Missionário, 2018, capítulo 1).

Ao longo de muitos anos de serviço na Igreja, tenho tentado auxiliar as pessoas que passam por necessidades tanto materiais quanto espirituais. Sempre ouço a voz de meu pai dizendo “Pobrecito”, ou pobrezinho.

Na Bíblia encontramos um exemplo maravilhoso de se cuidar dos necessitados:

“E Pedro e João subiam juntos ao templo à hora da oração, a nona.

E foi trazido um homem que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual cada dia punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam no templo;

O qual, vendo Pedro e João, que iam entrando no templo, pediu que lhe dessem uma esmola.

E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para nós.

E olhou para eles, esperando receber deles alguma coisa.

E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda.

E tomando-o pela mão direita, o levantou, e logo os seus pés e artelhos se firmaram” (Atos 3:1–7; grifo do autor).

Quando li esse relato, fiquei intrigado com o uso da palavra fitando. O verbo fitar significa olhar fixamente ou concentrar a atenção em algo (ver “fitar”, Aulete.com.br). Quando olhou para aquele homem, Pedro o enxergou de maneira diferente das outras pessoas. Ele olhou para além de suas fraquezas e de sua incapacidade de andar e, então, foi capaz de discernir que a fé daquele homem era suficiente para que ele fosse curado e entrasse no templo para receber as bênçãos pelas quais ansiava.

Percebi que Pedro o tomou pela mão direita e o levantou. Ao ajudar aquele homem daquela maneira, o Senhor o curou milagrosamente e “os seus pés e artelhos se firmaram” (Atos 3:7). O amor que Pedro sentiu por ele e seu desejo de ajudá-lo aumentaram a capacidade e a habilidade do homem, mesmo com suas fraquezas.

Enquanto servia como setenta de área, eu costumava reservar as noites de terça-feira para fazer visitas de ministração com os presidentes de estaca em minha área de responsabilidade. Eu os convidava a marcar uma visita com pessoas que precisassem receber alguma ordenança do evangelho de Jesus Cristo, ou que, no momento, não estavam guardando os convênios que haviam feito. Por meio de nossa ministração intencional e consistente, o Senhor magnificava nossos esforços e conseguíamos encontrar pessoas e famílias que precisavam de ajuda. Eles eram os “pobrezinhos” que moravam nas diferentes estacas em que servíamos.

Certa vez, acompanhei o presidente Bill Whitworth, o presidente da Estaca Sandy Utah Canyon View, em algumas visitas de ministração. Ele estava orando sobre quem deveríamos visitar, buscando uma experiência como a de Néfi, que “[foi] conduzido pelo Espírito, não sabendo de antemão o que deveria fazer” (1 Néfi 4:6). Ele demonstrou que, ao ministrarmos, devemos ser guiados por revelação às pessoas que mais precisam de ajuda, em vez de apenas seguir de maneira metódica uma lista de pessoas a serem visitadas. Devemos ser guiados pelo poder da inspiração.

Lembro-me de visitar o lar de um jovem casal, Jeff e Heather, e seu filhinho, Kai. Jeff cresceu como membro ativo da Igreja. Ele era um atleta muito talentoso e tinha uma carreira promissora. Durante sua adolescência, no entanto, ele começou a se afastar da Igreja. Algum tempo depois, ele sofreu um acidente de carro que alterou o curso de sua vida. Após entrarmos em sua casa e nos conhecermos um pouco, Jeff nos perguntou o motivo de visitarmos sua família. Respondemos que havia cerca de 3 mil membros que viviam na região daquela estaca. Então perguntei: “Jeff, de todos as casas que poderíamos visitar nesta noite, por que você acha que o Senhor nos mandou aqui?”

Jeff ficou emocionado e começou a compartilhar conosco algumas de suas preocupações e algumas dificuldades que eles vinham enfrentando como família. Começamos a compartilhar diversos princípios do evangelho de Jesus Cristo. Nós os convidamos a fazer algumas coisas específicas que, a princípio, poderiam parecer desafiadoras, mas com o tempo trariam muita felicidade e alegria. O presidente Whitworth deu uma bênção do sacerdócio em Jeff para que ele conseguisse superar seus desafios. Jeff e Heather aceitaram nossos convites.

Cerca de um ano depois, tive o privilégio de ver Jeff batizar sua esposa, Heather, como membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Eles agora estão se preparando para entrar no templo e ser selados como família para toda a eternidade. Nossa visita alterou o curso da vida deles tanto material como espiritualmente.

O Senhor disse:

“Portanto, sê fiel; ocupa o cargo para o qual te designei; socorre os fracos, ergue as mãos que pendem e fortalece os joelhos enfraquecidos” (Doutrina e Convênios 81:5).

“Assim agindo, farás o maior dos bens a teus semelhantes e promoverás a glória daquele que é teu Senhor” (Doutrina e Convênios 81:4).

Irmãos e irmãs, o apóstolo Paulo ensinou um elemento fundamental quanto à nossa ministração. Ele ensinou que todos somos “o corpo de Cristo, e membros em particular” (1 Coríntios 12:27) e que cada membro do corpo é necessário para garantir que todo o corpo seja edificado. Ele então ensinou uma verdade poderosa que tocou profundamente meu coração quando a li. Ele disse: “Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; e os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais” (1 Coríntios 12:22–23; grifo do autor).

Portanto, em cada ala e ramo, precisamos de todas as pessoas, tanto as que estão fortes quanto as que talvez estejam passando por dificuldades. Todas são necessárias para a vital edificação completa do “corpo de Cristo”. Sempre me pergunto quem está faltando em nossas diversas congregações que poderia nos fortalecer e nos tornar completos.

O élder D. Todd Christofferson ensinou: “Na Igreja não apenas aprendemos a doutrina divina; vivemos também sua aplicação. Sendo o corpo de Cristo, os membros da Igreja ajudam uns aos outros no dia a dia. Todos somos imperfeitos. (…) No corpo de Cristo, temos de ir além de conceitos e palavras exaltadas e ter uma experiência de envolvimento pessoal ao aprendermos a ‘juntos [viver] em amor’ [Doutrina e Convênios 42:45]” (“Qual a razão da Igreja”, A Liahona, novembro de 2015, p. 109).

Em 1849, Brigham Young teve um sonho no qual ele via o profeta Joseph Smith conduzindo um grande rebanho de ovelhas e cabras. Alguns daqueles animais eram grandes e belos, outros eram pequenos e estavam sujos. Brigham Young relata que olhou nos olhos do profeta Joseph Smith e disse: “Joseph, você tem o rebanho mais incomum (…) que já vi em minha vida; o que você vai fazer com ele?” O profeta, que parecia não estar preocupado com aquele rebanho desregrado, simplesmente respondeu: “[Brigham], eles estão bem onde estão”.

Quando acordou, o presidente Young entendeu que à medida que a Igreja coligasse diversas “ovelhas e cabras”, era responsabilidade dele permitir que cada uma delas compreendesse todo o seu potencial e seu lugar na Igreja. (Adaptado de Ronald W. Walker, “Brigham Young: Student of the Prophet”, Ensign, fevereiro de 1998, pp. 56–57.)

Irmãos e irmãs, meu discurso começou a tomar forma enquanto eu pensava profundamente sobre as pessoas que atualmente não estão ativos na Igreja de Jesus Cristo. Agora, por um momento, gostaria de falar a cada uma delas. O élder Neal A. Maxwell ensinou que essas pessoas “sempre estão próximas da Igreja, mas não participam integralmente dela. Elas não entram na capela, mas também não saem da entrada. São as pessoas que precisam da Igreja e das quais a Igreja precisa, mas que, em parte, ‘vivem sem Deus no mundo’ [Mosias 27:31]” (“Why Not Now?”, Ensign, novembro de 1974, p. 12).

Gostaria de repetir o convite que nosso amado presidente Russell M. Nelson fez ao falar aos membros da Igreja. Ele disse: “Agora, a cada membro da Igreja, eu digo: continue no caminho do convênio. Seu compromisso de seguir o Salvador, fazendo convênios com Ele e depois guardando esses convênios, vai abrir a porta para todos os privilégios e bênçãos espirituais disponíveis a mulheres, homens e crianças de todo o mundo”.

Ele então suplicou: “Agora, se você saiu do caminho, quero convidá-lo, com toda a esperança de meu coração, a por favor, voltar. Sejam quais forem suas preocupações ou seus desafios, há um lugar para você nesta Igreja, a Igreja do Senhor. Você e as gerações que ainda não nasceram serão abençoados [agora] por suas ações de voltar ao caminho do convênio” (“Ao seguirmos adiante juntos”, Liahona, abril de 2018, pp. 6–7; grifo do autor).

Presto testemunho Dele, sim, de Jesus Cristo, o Mestre Ministrador e o Salvador de todos nós. Convido cada um de nós a buscar os “pobrecitos”, os “pobrezinhos” que estão entre nós e que precisam de ajuda. Essa é minha esperança e oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.