2017
O Fiel Sumo Conselheiro
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O Fiel Sumo Conselheiro

Aprendi uma lição valiosa sobre “magnificar o chamado que temos” com um sumo sacerdote fiel na Alemanha.

The  Faithful High Councilor

Em outubro de 2008, enquanto eu assistia à transmissão da sessão do sacerdócio da conferência geral, o Presidente Dieter F. Uchtdorf, Segundo Conselheiro na Primeira Presidência, começou a falar sobre servir na Igreja. Contou uma história sobre como ele e outros irmãos haviam tentado carregar um piano pesado. Quando todos os esforços falharam, um homem incentivou-os para que se aproximassem juntos e “cada um carregasse a sua parte”.1

O Presidente Uchtdorf continuou a falar sobre o serviço na Igreja, onde quer que sejamos chamados para servir. Algumas pessoas sentem que poderiam servir melhor se fossem chamadas para fazer algo de acordo com seus grandes talentos. Ele disse: “Nenhum chamado está abaixo de nossa capacidade. Todo chamado proporciona uma oportunidade de servir e crescer”.2

À medida que o Presidente Uchtdorf discursava, minha mente voltou-se para uma época em que conheci um membro modesto da Igreja que desejava carregar a sua parte, onde quer que estivesse.

Em 1985, eu estava destacado como oficial do Exército dos EUA numa pequena cidade da Alemanha. Eu servira dez anos antes em uma missão na Alemanha. Quando cheguei em 1985 na condição de soldado, em companhia de minha esposa Debra e duas filhas pequenas, passamos a frequentar um ramo de militares com uns cem membros. Após dois anos, decidimos fazer uma imersão total na cultura alemã e começamos a frequentar o pequeno Ramo de Bad Kreuznach, que contava com aproximadamente 12 membros.

A partir da segunda semana de nossa participação, notamos lá a presença de um novo homem. Estava na casa dos 40 anos, e ficamos sabendo que era o sumo conselheiro designado para o nosso ramo. Ele não ia lá para tratar dos assuntos da estaca, mas apenas para estar reunido conosco. Após a reunião, conversamos um pouco e, quando nos despedimos, imaginei que só voltaríamos a vê-lo dali a uns seis meses.

Na semana seguinte, lá estava novamente o sumo conselheiro. Fiquei sabendo que ele morava a uma hora de distância da nossa cidadezinha. Durante o restante de seu chamado como sumo conselheiro, ele veio ao nosso ramo duas ou três vezes por mês. Era cordial, modesto e sempre tinha palavras de incentivo. Sempre conversava com cada membro do ramo. E, por se tratar de um ramo tão pequeno, era frequentemente convidado a usar o púlpito para falar. Impressionado com essa dedicação, passei a me referir em pensamento a ele como o “Fiel Sumo Conselheiro”.

Houve um domingo em que ele compareceu de manhã às reuniões do ramo e então retornou às 18 horas para assistir a um batismo. No intervalo, ele havia visitado outro ramo. Tenho que admitir que pensei por um momento: “Será que ele fez alguma coisa para aborrecer o presidente da estaca? Será que foi por isso que ele foi designado para o ramo menor e mais distante da estaca?” Talvez não fosse mesmo o homem inteligente, humilde e simpático que eu imaginava. Ou provavelmente não gostava de sua própria ala e usava sua designação para escapar. Como não consegui chegar a uma conclusão definitiva, acabei por aceitá-lo.

Várias semanas após aquele batismo, voltei para casa após a meia-noite, numa madrugada de domingo. Estivera em treinamento próximo à fronteira entre as Alemanhas Ocidental e Oriental e levei três horas e meia para voltar para casa. Estava exausto quando entrei pela porta. Minha esposa Debra ainda estava de pé. Contou-me que o “Fiel Sumo Conselheiro” havia ligado. Ele queria me ver. Perguntei “Antes ou depois da Igreja?” As reuniões começavam às 10 horas. Contava que fosse após as reuniões, assim eu poderia dormir até as 8 horas e 30 minutos.

“Antes”, disse ela.

“Nove horas e 30 minutos?”

“Não. Ele vai precisar estar em outro lugar cumprindo designações da estaca. Pediu que você fosse falar com ele no escritório dele em Frankfurt. Disse que fosse ao Portão 5.”

“A que horas?”, perguntei.

“Seis”, respondeu ela.

Foi aí que fiquei aborrecido. Já era meia-noite e meia. Para poder estar no compromisso às 6 horas da manhã, precisaria acordar às 4 horas e 30 minutos. Isso significava menos de quatro horas de sono. O que deveria fazer? Nem mesmo tinha um número de telefone para ligar, informando que não poderia reunir-me com ele. Larguei minhas roupas perto da cama e deitei-me sem ligar o despertador. Ao deitar-me, alguns pensamentos me passaram pela cabeça:

Se eu não me reunisse com o “Fiel Sumo Conselheiro”, o que poderia acontecer? Se não comparecesse ao seu escritório, tinha certeza de que ele poderia fazer uso produtivo de seu tempo. Na próxima vez que eu me encontrasse com ele e explicasse por que não havia comparecido, ele responderia: “Naturalmente você tomou a decisão correta. Eu nunca teria pedido que você viesse se soubesse que chegou tão tarde em casa. Podemos tratar desse assunto agora”. E além de tudo, eu nem era mesmo membro do ramo. Certamente nossas fichas estavam lá e frequentávamos todas as semanas, mas éramos estrangeiros, falávamos um alemão precário e iríamos embora em cinco ou seis meses.

Minha consciência estava quase satisfeita. Mais alguns minutos e eu conseguiria dormir. Então me lembrei do apelido que havíamos dado a ele e todas as vezes que o “Fiel Sumo Conselheiro” havia estado em nosso ramo desde que estávamos frequentando. Ele assistiu àquele batismo num domingo à noite. Compareceu a uma atividade do ramo no meio da semana. Sempre conversava com todos os membros do ramo, dando-lhes incentivo e inspiração. Nunca se mostrava crítico ou indiferente. Era sempre respeitoso com o presidente do ramo e reconhecia seus esforços. Se por acaso ele estivesse decepcionado com sua designação para esse ramo minúsculo, certamente nunca o havia demonstrado.

Levantei-me e caminhei até o criado-mudo onde estava meu despertador. Programei-o para as 4 horas e 30 minutos da madrugada. Ao decidir reunir-me com o “Fiel Sumo Conselheiro”, não estava mais preocupado com o que ele poderia pensar ou dizer se eu não comparecesse. Além disso, provavelmente nunca mais o veríamos ou ouviríamos falar dele após nossa mudança. Decidi estar de pé em menos de quatro horas e dirigir por 80 quilômetros até seu escritório porque eu o respeitava verdadeiramente pelo que era, o “Fiel Sumo Conselheiro”. Como poderia deixar de atendê-lo?

Religious Freedom

Parei meu carro no Portão 5 às 6 horas da manhã naquela manhã de domingo para ser recepcionado por um segurança armado. Ele verificou minha placa das forças armadas americanas. Talvez imaginasse que eu estivesse perdido. Será que o “Fiel Sumo Conselheiro” havia decidido não aparecer? No entanto, em menos de dois minutos, seu carro parou ao meu lado. “Bom dia, Don”, disse ele. “Vamos até meu escritório.” O segurança abriu o portão e nos deixou passar.

Depois de conduzir-me ao seu escritório e de uma conversa breve, tocou no assunto da entrevista. Disse-me que eu estava sendo chamado para servir como conselheiro do presidente do ramo. Não o primeiro ou o segundo conselheiro — eu seria o único conselheiro. Antes da nossa chegada, havia apenas dois portadores do sacerdócio no ramo, que se revezavam ao longo dos anos como presidente do ramo e presidente do quórum de élderes.

Aceitei o chamado e servi até partir, três meses depois, para participar de um treinamento nos Estados Unidos.

Durante minha ausência, minha esposa e meu filho pequeno adoeceram. O estado de saúde dele obrigou a remoção para um hospital a quase 100 quilômetros de nossa base. Sendo a valorosa esposa de um militar que é, Debra em momento algum reclamou ou me pediu que voltasse para a Alemanha. De fato, só fiquei sabendo da enfermidade dela quando retornei para casa. Após uma consulta na clínica mais próxima, o médico levou-a para casa por achar que ela não estava em condições de dirigir. O presidente do ramo e a presidente da Sociedade de Socorro ofereceram ajuda, mas ela cortesmente recusou. Além das dificuldades do idioma e da cultura, Debra não desejava atrapalhar ninguém.

Certo dia o “Fiel Sumo Conselheiro” telefonou para ela. Recentemente ele havia sido chamado presidente da estaca. Ele gentilmente perguntou sobre o estado de saúde dela e não aceitou a resposta de que estava “tudo bem”. Todas as explicações de Debra foram recebidas com perguntas gentis, porém diretas, a respeito da situação real da família. Finalmente ele explicou: “Debra, você precisa aceitar o auxílio do ramo. Eles realmente querem ajudar, e isso contribuirá para uma maior união no ramo”. Ela aceitou a ajuda com gratidão.

Depois do meu retorno dos Estados Unidos, permanecemos no ramo por mais dois meses, até finalmente nos mudarmos para uma cidade maior.

Minhas lembranças daquela época em minha vida foram desaparecendo, e reclinei-me no meu assento e voltei a atenção para a voz do Presidente Uchtdorf que soava pelo sistema de som. Fiquei verdadeiramente impressionado com as implicações da mensagem. Diferentemente de outras ocasiões, quando me perguntava a respeito do vínculo entre as palavras de um orador e as suas ações pessoais (nos negócios, nas forças armadas e, sim, até mesmo em alguns discursos que ouvi na igreja), não tinha dúvida alguma a respeito da mensagem do Presidente Uchtdorf. Não foi apenas o fato de o sotaque do Presidente Uchtdorf fazer-me recordar a Alemanha e a minha experiência com o “Fiel Sumo Conselheiro”. Foi o fato de que o “Fiel Sumo Conselheiro” era o Presidente Uchtdorf. O complexo industrial onde nos reunimos tão cedo naquela manhã de domingo era o Aeroporto Internacional de Frankfurt, onde ele era piloto-chefe das Linhas Aéreas Lufthansa.

Posso afirmar com honestidade que jamais conheci um homem mais humilde e fiel em praticar o que pregava. Sou grato por ter aprendido uma lição valiosa sobre o que significa “magnificar o chamado que temos”.

Notas

  1. Ver Dieter F. Uchtdorf, “Magnifique o Chamado Que Tem”, A Liahona, novembro de 2008, p. 53.

  2. Dieter F. Uchtdorf, “Magnifique o Chamado Que Tem”, p. 56.