2016
Amor Versus Concupiscência

Amor Versus Concupiscência

Se pudermos entender melhor o que significa a concupiscência, poderemos aprender a evitá-la e fazer escolhas que nos aproximem do Santo Espírito.

Courtship and marriage

Concupiscência.

Com certeza é uma palavra feia. A maioria de nós não quer nem pensar nisso, muito menos aprender a respeito. O termo evoca um sentimento sórdido, algo sombrio — sedutor, porém errado.

Há um bom motivo para isso. Se “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6:10), então sem dúvida a concupiscência é sua aliada secreta. É algo vulgar e degradante. A concupiscência transforma pessoas, coisas e até ideias em objetos para possuir ou adquirir a fim de satisfazer um desejo. Mas, se já sabemos disso, por que precisamos conhecer mais a esse respeito?

Porque se entendermos realmente o que é a concupiscência, poderemos aprender a moldar nossos pensamentos, sentimentos e nossas ações para evitar manifestações da concupiscência. Isso vai nos levar a uma associação mais próxima com o Santo Espírito, que purifica nossos pensamentos e intentos e nos fortalece. E isso nos conduz a uma vida muito mais feliz e cheia de paz e alegria.

Definição de Concupiscência

Tendemos a achar que concupiscência é basicamente ter sentimentos impróprios e intensos de atração física por outra pessoa, mas é possível sentirmos concupiscência ou cobiça por praticamente qualquer coisa: dinheiro, propriedades, objetos e, é claro, outras pessoas (ver Guia para Estudo das Escrituras, “Concupiscência”).

A concupiscência compele a pessoa a procurar adquirir algo que é contrário à vontade de Deus. Engloba todos os sentimentos ou desejos que fazem com que uma pessoa se concentre em posses mundanas ou práticas egoístas — interesses pessoais, desejos, paixões e apetites — e não no cumprimento dos mandamentos de Deus.

Em outras palavras, desejar coisas contrárias à vontade de Deus ou desejar possuir coisas de modo contrário à Sua vontade é concupiscência, e isso resulta em infelicidade.1

Automobiles

O Perigo da Concupiscência Sexual

Embora tenhamos sido alertados contra a concupiscência como uma forma de cobiça em geral, em seu contexto sexual, a concupiscência é particularmente perigosa. O Salvador advertiu: “Qualquer que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela” (Mateus 5:28).

Os apóstolos antigos fizeram muitas admoestações contra a concupiscência nesse sentido. Como um único exemplo, o Apóstolo João disse: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida, não é do Pai, mas é do mundo” (1 João 2:16; ver também versículo 17; Romanos 13:14; 1 Pedro 2:11).

E as advertências continuam em nossos dias.2 O Élder Jeffrey R. Holland, do Quórum dos Doze Apóstolos, explicou: “Por que a [concupiscência] é um pecado tão ‘mortal’? Além do impacto espiritualmente destrutivo que tem sobre a alma, acho que é um pecado porque macula o mais elevado e santo relacionamento que Deus nos concede na mortalidade: o amor que um homem e uma mulher sentem um pelo outro e o desejo que o casal tem de gerar filhos em uma família planejada para ser eterna”.3

Permitir que um desejo concupiscente germine tem sido a raiz de muitos atos pecaminosos. O que começa com uma olhada aparentemente inocente pode crescer até se tornar uma sórdida infidelidade, com todas as suas desastrosas consequências. Isso acontece porque a concupiscência afasta o Espírito Santo e nos deixa vulneráveis a outras tentações e vícios e à vontade do adversário.

As trágicas escolhas do rei Davi são um triste exemplo de como essa emoção pode ser poderosa e mortal. Davi viu por acaso Bate-Seba se banhando e a cobiçou. A concupiscência cedeu à ação, e ele mandou que ela fosse trazida até ele, e deitou-se com ela. Depois, numa tentativa equivocada de ocultar seu pecado, Davi ordenou que o marido de Bate-Seba fosse posicionado em batalha num lugar em que seria certamente morto (ver 2 Samuel 11). Como resultado, Davi perdeu sua exaltação (ver D&C 132:38–39).

A situação de Davi pode ser extrema, mas sem dúvida comprova um fato: a concupiscência é uma tentação poderosa. Quando cedemos a ela, isso pode fazer com que nos envolvamos em coisas que ninguém em sã consciência faria. O fato de ser tão insidiosa, tão facilmente suscitada e tão eficaz em tentar-nos a afastar-nos do Espírito Santo e fazer nossa vontade sucumbir a algo proibido a torna ainda mais perigosa. Ela pode ser desencadeada ao vermos pornografia, ouvirmos letras de música inadequadas ou nos envolvermos em intimidades impróprias. Ao mesmo tempo, os sentimentos concupiscentes podem induzir uma pessoa a procurar pornografia. Essa relação cíclica é extremamente poderosa e perigosa.4

A concupiscência de natureza sexual degrada e enfraquece todos os relacionamentos, incluindo o relacionamento pessoal com Deus. “E em verdade vos digo, como disse antes: Aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, ou se alguém em seu coração cometer adultério, não terá o Espírito, mas negará a fé e temerá” (D&C 63:16).

Como ensinou o Élder Richard G. Scott (1928–2015), do Quórum dos Doze Apóstolos: “A imoralidade sexual cria uma barreira à influência do Espírito Santo e toda Sua capacidade de edificar, esclarecer e dar poder. Ela causa forte estímulo físico e emocional. Com o tempo, cria um apetite inextinguível que leva o transgressor a cometer pecados cada vez mais graves”.5

O Que Não É Concupiscência

Couple with son walking along the beach

Agora que vimos o que é concupiscência, também é importante entender o que não é concupiscência, tomando cuidado para não rotular pensamentos, sentimentos e desejos adequados como se fossem concupiscência. A concupiscência é um tipo de desejo, mas existem também desejos justos. Podemos, por exemplo, desejar coisas boas e adequadas que ajudarão a realizar o trabalho do Senhor.

Pense nisto:

  • O desejo de ter dinheiro. Em si e por si mesmo, o desejo de ter dinheiro não é algo maligno. Paulo não disse que o dinheiro é a raiz de todos os males. Afirmou que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6:10; grifo do autor). Os ensinamentos de Jacó acrescentam mais esclarecimentos: “Antes de buscardes riquezas, buscai o reino de Deus. E depois de haverdes obtido uma esperança em Cristo, conseguireis riquezas, se as procurardes; e procurá-las-eis com o fito de praticar o bem — de vestir os nus e alimentar os famintos e libertar os cativos e confortar os doentes e aflitos” (Jacó 2:18–19).

  • Ter sentimentos sexuais adequados pelo próprio cônjuge. Esses sentimentos concedidos por Deus podem fortalecer e unir um casamento. Mas é possível ter sentimentos impróprios pelo cônjuge. Se buscamos somente satisfação pessoal, visando apenas a saciar nossos próprios desejos ou sentimentos, podemos estar decaindo para desejos concupiscentes, e isso pode ser prejudicial ao relacionamento conjugal. A chave para se buscar e manter a devida intimidade física no casamento é a intenção pura e amorosa.

O princípio importante é buscar as coisas pelo propósito certo: edificar o reino de Deus e aumentar a virtude no mundo. Em contrapartida, a concupiscência nos incentiva a sair dos limites apropriados, fora dos quais nossos desejos podem desonrar a Deus, podem nos fazer ver as pessoas como objetos e transformar objetos, riquezas e até poder em monstruosidades que nos distorcem a sensibilidade e deterioram nossos relacionamentos.

Por Que com Frequência Cedemos à Concupiscência

Tendo em vista o quanto a concupiscência é prejudicial e perigosa, por que é tão tentadora e difundida? Por que com tanta frequência ela nos domina? Superficialmente, pode parecer que o egoísmo ou a falta de autocontrole estão no cerne da concupiscência. Esses são fatores que contribuem, mas a raiz profunda da concupiscência com frequência é o vazio. As pessoas podem sucumbir à concupiscência numa vã tentativa de preencher um vazio em sua vida. A concupiscência é uma emoção falsa, um reles substituto para o amor genuíno, o valor verdadeiro e o discipulado duradouro.

O devido controle emocional, em certo sentido, é uma condição do coração. “Porque, como imagina no seu coração, assim ele é” (Provérbios 23:7). Onde quer que coloquemos nosso enfoque mental e espiritual, essa se tornará com o tempo a força motivadora por trás de nossos pensamentos, nossos sentimentos e nossas ações. Sempre que nos sentirmos tentados pela concupiscência, precisamos substituir essa tentação por algo mais adequado.

O ócio também pode causar pensamentos concupiscentes. Quando temos poucas coisas acontecendo em nossa vida, tendemos a ser mais suscetíveis às influências malignas. Se buscarmos ativamente envolver-nos em boas causas (ver D&C 58:27) e esforçar-nos para usar nosso tempo produtivamente, menor será a tendência de termos pensamentos concupiscentes ou de sujeitar-nos a outras influências negativas.

Como explicou o Élder Dallin H. Oaks, do Quórum dos Doze Apóstolos, os desejos aos quais decidimos nos apegar afetam não apenas nossas ações, mas também quem nos tornaremos no final: “Os desejos determinam nossas prioridades, as prioridades moldam nossas decisões, e as decisões determinam nossas ações. Os desejos que são colocados em prática determinam como mudamos, o que realizamos e em que nos tornamos”.6

Em outras palavras, precisamos guardar-nos não apenas contra as emoções nas quais nos permitimos envolver-nos, mas também contra os pensamentos que precipitam esses sentimentos ou são por eles causados. Como ensinou Alma, se nossos pensamentos forem impuros, “nossos pensamentos também nos condenarão” (Alma 12:14).

O Antídoto: Amor Semelhante ao de Cristo

Courtship and marriage

A concupiscência não é inevitável. Como o Pai Celestial nos deu o arbítrio, temos poder sobre nossos pensamentos, nossos sentimentos e nossas ações. Não temos que buscar pensamentos e sentimentos concupiscentes. Quando surgirem tentações, podemos decidir não seguir esse caminho.

Como vencemos a tentação da concupiscência? Começamos desenvolvendo um relacionamento adequado com nosso Pai Celestial e decidindo servir ao próximo. E envolvemo-nos em condutas religiosas diárias, incluindo a oração e o estudo das escrituras, o que propicia a companhia do Espírito Santo em nossa vida. No final, o ingrediente secreto é o amor semelhante ao de Cristo — um amor puro, sincero e honesto, com o desejo de edificar o reino de Deus e manter os olhos fitos em Sua glória. Esse amor somente é possível quando temos a companhia do Espírito Santo.

A eliminação da concupiscência exige oração sincera na qual pedimos a Deus que remova esses sentimentos e nos conceda, em lugar deles, um amor caridoso (ver Morôni 7:48). Isso se torna possível, assim como todo arrependimento é possível, por meio da graça da Expiação de Jesus Cristo.7 Graças a Ele, podemos aprender a amar da maneira que Ele e nosso Pai Celestial nos amam.

Se continuamente focarmos em nosso Pai Celestial, se vivermos de acordo com o primeiro e o segundo grandes mandamentos — amar a Deus e amar o próximo como a nós mesmos (ver Mateus 22:36–39) — e se fizermos tudo a nosso alcance para viver como Ele nos ensinou, as intenções puras e sinceras vão influenciar nossa vida com intensidade cada vez maior. Ao unirmos nossa vontade à do Pai, as tentações e os efeitos da concupiscência diminuirão e serão substituídos pelo puro amor de Cristo. Então, vamos encher-nos de um amor divino que substitui os desejos degradantes deste mundo pela beleza da edificação do reino de Deus.