2010–2019
Lamentações de Jeremias: Cuidado com o Cativeiro
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Lamentações de Jeremias: Cuidado com o Cativeiro

Nosso desafio é evitar todo tipo de cativeiro, ajudar o Senhor a reunir Seus eleitos e sacrificar-nos pela nova geração

No início de nosso casamento, minha mulher, Mary, e eu decidimos que, na medida do possível, escolheríamos atividades das quais poderíamos participar juntos. Também quisemos ser prudentes em nosso orçamento. Mary adora música e ficou bem preocupada com a ideia de que eu pudesse valorizar demais os eventos esportivos, por isso combinou que para cada jogo de futebol pago haveria dois musicais, óperas ou atividades culturais.

A princípio, eu estava meio resistente em relação à ópera, mas com o tempo mudei meu ponto de vista. Passei a gostar muito das óperas de Giuseppe Verdi.1 Nesta semana comemoramos o bicentenário de seu nascimento.

Em sua juventude, Verdi ficou muito interessado no profeta Jeremias, e em 1842, aos 28 anos de idade, conquistou a fama com a ópera Nabuco, abreviação italiana do nome Nabucodonosor, rei da Babilônia. Essa ópera contém conceitos tirados dos livros de Jeremias, Lamentações e Salmos, no Velho Testamento. A ópera inclui a conquista de Jerusalém e o cativeiro e aprisionamento dos judeus. O salmo 137 foi a inspiração para o comovente e inspirador “Coro dos Escravos Hebreus”, de Verdi. O cabeçalho desse salmo em nossas escrituras é bem dramático: “Quando estavam no cativeiro, os judeus choraram junto aos rios da Babilônia — Devido à tristeza, não conseguiam cantar os hinos de Sião.”

Meu propósito é analisar as muitas formas de cativeiro e subjugação. Vou comparar algumas circunstâncias de nossos dias com as da época de Jeremias antes da queda de Jerusalém. Ao apresentar esta voz de advertência, sinto-me grato pelo fato de que muitos membros da Igreja estão se abstendo, em retidão, das condutas tão ofensivas ao Senhor que havia na época de Jeremias.

As profecias e lamentações de Jeremias são importantes para os santos dos últimos dias. Jeremias e a Jerusalém de seus dias são o pano de fundo dos capítulos iniciais do Livro de Mórmon. Jeremias era contemporâneo do profeta Leí.2 De modo dramático, o Senhor informou a Jeremias a sua preordenação: “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta”.3

Leí recebeu do Senhor um chamado, missão e designação diferentes. Não foi chamado em sua juventude, mas na idade madura. Inicialmente, ergueu a voz de advertência, mas após declarar fielmente a mesma mensagem de Jeremias, Leí foi ordenado pelo Senhor a pegar sua família e a levar para o deserto.4 Fazendo isso, Leí abençoou não apenas sua família, mas todas as pessoas.

Nos anos que antecederam a destruição de Jerusalém,5 as mensagens que o Senhor transmitiu a Jeremias foram apavorantes. Ele disse:

“Meu povo trocou a sua glória por aquilo que é de nenhum proveito. 

(…) A mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram (…) cisternas rotas, que não retêm águas”.6

Falando das calamidades que adviriam aos habitantes de Jerusalém, o Senhor lamentou: “[Para eles,] passou a sega, findou o verão, e [não estão] salvos”.7

Deus queria que os homens e as mulheres fossem livres e fizessem escolhas entre o bem e o mal. Quando as escolhas más se tornavam a característica dominante de uma cultura ou nação, havia sérias consequências tanto nesta vida quanto na vida futura. As pessoas podem ficar escravizadas ou colocar-se em cativeiro não apenas em relação a substâncias prejudiciais que viciam, mas também a filosofias prejudiciais que criam dependência e nos afastam do viver reto.

O afastamento da adoração do Deus verdadeiro e vivo para adorar deuses falsos como a riqueza e a fama e a conduta imoral e iníqua resulta em cativeiro, com todas as suas manifestações insidiosas. Isso inclui o cativeiro espiritual, físico e intelectual e às vezes resulta em destruição. Jeremias e Leí também ensinaram que as pessoas justas precisam ajudar o Senhor a estabelecer Sua Igreja e Seu reino e a reunir a Israel dispersa.8

Essas mensagens ecoaram e foram repetidas ao longo dos séculos, em todas as dispensações. Elas são um dos pontos centrais da Restauração do evangelho de Jesus Cristo nesta que é a dispensação final.

O cativeiro dos judeus e a dispersão das tribos de Israel, incluindo as dez tribos, são fatores doutrinários importantes na Restauração do evangelho. As dez tribos perdidas formaram o Reino de Israel do Norte e foram levadas cativas para a Assíria em 721 a.C. Foram para os países do Norte.9 Nossa décima regra de fé declara: “Cremos na coligação literal de Israel e na restauração das Dez Tribos”.10 Também cremos que, como parte do convênio que o Senhor fez com Abraão, não apenas a linhagem de Abraão seria abençoada, mas também todas as pessoas da Terra o seriam. Como declarou o Élder Russell M. Nelson, a coligação “não é uma questão de localização física. ‘É uma questão de comprometimento individual. As pessoas podem ser levadas ao conhecimento do Senhor [3 Néfi 20:13] sem sair de sua terra natal’”.11

Nossa doutrina é clara: “O Senhor dispersou e fez padecer as doze tribos de Israel, em virtude de sua iniquidade e rebeldia. Entretanto o Senhor também usou esta dispersão do povo escolhido entre as nações de todo o mundo para abençoar essas nações”.12

Aprendemos lições inestimáveis com esse período trágico. Devemos fazer tudo a nosso alcance para abster-nos do pecado e da rebelião que conduzem ao cativeiro.13 Também reconhecemos que o viver reto é um pré-requisito para podermos ajudar o Senhor na reunião de Seus eleitos e na coligação literal de Israel.

O cativeiro, a subjugação, os vícios e a servidão vêm de muitas formas. Podem ser uma escravidão literal e física, mas também pode ser a perda total ou parcial do arbítrio moral que pode impedir nosso progresso. Jeremias deixou bem claro que a iniquidade e a rebelião foram os motivos principais da destruição de Jerusalém e do cativeiro na Babilônia.14

Outros tipos de cativeiro são igualmente destrutivos para o espírito humano. O arbítrio moral pode ser prejudicado de muitas maneiras.15 Vou mencionar quatro que são particularmente prejudiciais em nossa cultura moderna:

Primeiro, os vícios que prejudicam o arbítrio, contrariam as crenças morais e destroem a saúde, e causam um cativeiro. O impacto das drogas e das bebidas alcoólicas, da imoralidade, da pornografia, do jogo, da subjugação financeira e de outras aflições impõe aos que estão em cativeiro e à sociedade um fardo tão grande cujo tamanho é quase impossível calcular.

Segundo, alguns vícios ou predileções, embora não sejam inerentemente malignas, podem desperdiçar nosso precioso tempo que, de outra forma, poderia ser usado para alcançar objetivos virtuosos. Isso pode incluir o uso excessivo da mídia social, videogames e jogos digitais, esportes, recreação e muitas outras coisas.16

O modo como reservamos tempo para a família é um dos problemas mais significativos na maioria das culturas. Numa época em que eu era o único membro da Igreja em nosso escritório de advocacia, uma advogada me explicou que às vezes se sentia como se fosse uma malabarista tentando manter três bolas no ar ao mesmo tempo. Uma bola era sua carreira, outra era o casamento e a outra eram seus filhos. Ela quase não dedicava tempo algum a si mesma. Ela estava muito preocupada porque uma das bolas sempre caía no chão. Sugeri que nos reuníssemos em grupo e discutíssemos nossas prioridades. Determinamos que o principal motivo de estarmos trabalhando era sustentar nossa família. Concordamos que ganhar mais dinheiro não era tão importante quanto nossa família, mas reconhecemos que era essencial servir nossos clientes da melhor forma possível. A conversa passou então para o que estávamos fazendo no trabalho, que parecia desnecessário e que era incompatível com o tempo reservado para a família. Será que havia uma pressão para ficarmos mais tempo que o necessário no local de trabalho?17 Decidimos que nossa meta seria um ambiente propício à família, tanto para os homens quanto para as mulheres. Iríamos nos empenhar para reservar mais tempo para a família.

Terceiro, a subjugação mais universal de nossos dias, como tem sido ao longo da história, são as crenças ideológicas ou políticas que não condizem com o evangelho de Jesus Cristo. A substituição das verdades do evangelho pelas filosofias dos homens pode afastar-nos da simplicidade da mensagem do Salvador. Quando o Apóstolo Paulo visitou Atenas, ele tentou ensinar sobre a Ressurreição de Jesus Cristo. A respeito desse trabalho, lemos em Atos: “Todos os atenienses e estrangeiros residentes, de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão de dizer e ouvir alguma novidade”.18 Quando a multidão se deu conta da natureza religiosa simples da mensagem de Paulo, que não era nova, eles a rejeitaram.

Isso é característico de nossa própria época, na qual as verdades do evangelho são frequentemente rejeitadas ou distorcidas para torná-las intelectualmente mais atraentes ou compatíveis com as tendências culturais e filosofias intelectuais modernas. Se não tomarmos cuidado, podemos ser capturados por essas tendências e nos colocar sob cativeiro intelectual. Há hoje muitas vozes dizendo como as mulheres devem viver.19 Em geral elas se contradizem. Particularmente preocupantes são as filosofias que criticam ou rebaixam a mulher que decide fazer os sacrifícios necessários para tornar-se mãe, professora, cuidadora ou amiga dos filhos.

Há poucos meses, nossas netas mais jovens nos visitaram, uma a cada semana. Eu estava em casa e atendi à porta. Minha mulher, Mary, estava em outro aposento. Nas duas ocasiões, depois de um abraço, elas disseram quase a mesma coisa. Olharam em volta e depois disseram: “Adoro estar na casa da vovó. Onde está ela?” Não soube o que dizer a elas, mas pensei: “Não é a casa do vovô também?” Então me dei conta de que quando era menino, nossa família ia à casa da vovó. As palavras de uma canção conhecida me vieram à mente: “Atravessando o rio e o bosque, vamos à casa da vovó”.

Agora, quero dizer que estou imensamente entusiasmado com as oportunidades educacionais e de outra natureza que estão ao alcance das mulheres. Valorizo muito o fato de que o trabalho árduo e a labuta doméstica exigidos das mulheres foram muito reduzidos no mundo graças às conveniências modernas e que as mulheres estão fazendo contribuições magníficas em todo campo de empreendimento. Mas, se permitirmos que nossa cultura diminua o relacionamento especial que os filhos têm com a mãe e as avós e outras que cuidam deles, viremos a lamentar esse fato.

Quarto, as forças que violam princípios religiosos sinceros podem resultar em cativeiro. Uma das formas mais detestáveis é quando pessoas justas, que sentem que devem prestar contas a Deus por sua conduta, são forçadas a participar de atividades que violam sua consciência, por exemplo: profissionais da saúde que são obrigados a escolher entre auxiliar em abortos contrários a sua consciência ou perder o emprego.

A Igreja é uma minoria relativamente pequena, mesmo quando se une a pessoas que pensam da mesma forma. Será difícil mudar a sociedade como um todo, mas precisamos trabalhar para melhorar a cultura moral que nos cerca. Os santos dos últimos dias de todos os países devem ser bons cidadãos, participar de questões cívicas, instruir-se sobre os problemas e votar.

Nossa principal ênfase, porém, sempre deve ser fazer todo sacrifício necessário para proteger nossa própria família e a nova geração.20 Muitos deles ainda não estão cativos de vícios graves ou ideologias falsas. Precisamos ajudar a vaciná-los contra um mundo que se parece muito com a Jerusalém que Leí e Jeremias vivenciaram. Além disso, precisamos prepará-los para fazer e guardar convênios sagrados e para ser os principais emissários para ajudar o Senhor a estabelecer Sua Igreja e reunir a Israel dispersa e os eleitos do Senhor em todo o mundo.21 Belas são as palavras que lemos em Doutrina e Convênios: “Os justos serão reunidos dentre todas as nações e virão a Sião cantando com cânticos de eterna alegria”.22

Nosso desafio é evitar todo tipo de cativeiro, ajudar o Senhor a reunir Seus eleitos e sacrificar-nos pela nova geração. Precisamos nos lembrar sempre de que não salvamos a nós mesmos. Somos libertados pelo amor, pela graça e pelo Sacrifício Expiatório do Salvador. Quando a família de Leí fugiu, eles foram guiados pela luz do Senhor. Se formos fiéis a Sua luz, seguirmos Seus mandamentos e confiarmos em Seus méritos, evitaremos o cativeiro espiritual, físico e intelectual, bem como as lamentações de ter que vagar pelo nosso próprio deserto, porque Ele é poderoso para salvar.

Evitemos o desespero e o sofrimento daqueles que caem em cativeiro e não podem mais cantar os hinos de Sião. Em nome de Jesus Cristo. Amém.