2000-2009
    Uma Questão de Poucos Graus
    Notas de rodapé
    Theme

    Uma Questão de Poucos Graus

    A diferença entre a felicidade e a infelicidade (…) muitas vezes se resume a um erro — de cálculo — de poucos graus.

    Meus queridos irmãos, sinto sua força e virtude nesta reunião do sacerdócio de Deus. Eu os estimo e admiro. Agradecemos sua fé, devoção e seu desejo de servir ao Senhor.

    Faz dois meses que o Presidente Thomas S. Monson me chamou para servir como Segundo Conselheiro na Primeira Presidência da Igreja. Sei que isso foi uma surpresa para muitos e sem dúvida me pegou desprevenido também. Na verdade, eu diria que fui a segunda pessoa mais surpresa do mundo, a primeira foi minha mulher.

    No dia em que o Quórum dos Doze se reuniu no templo para apoiar o Presidente Monson e ordená-lo e designá-lo profeta, vidente, revelador e Presidente d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, senti-me imensamente feliz por ter a oportunidade de erguer a mão em apoio a meu amado amigo e líder.

    Depois que o Presidente Monson foi apoiado, anunciou seus conselheiros.

    A escolha do Presidente Eyring não foi surpresa. Ele é um grande homem e um homem de caráter, uma excelente escolha para Primeiro Conselheiro. Tenho imenso afeto e admiração por ele.

    Então, o Presidente Monson anunciou seu Segundo Conselheiro e o nome me soou estranhamente familiar… Era o meu nome.

    Olhei a meu redor, sem saber se tinha ouvido direito, mas o sorriso de meus irmãos e o olhar de compaixão do Presidente Monson me asseguraram que minha vida novamente estava prestes a mudar.

    Todos nós sentimos muita falta do Presidente Hinckley. Ele continua a ser uma bênção para nós.

    O Presidente Monson é o profeta de Deus para nossos dias. Eu o honro e prometo dedicar-me de todo o coração, poder, mente e força a esta grande obra.

    Em 1979, um grande avião de passageiros com 257 pessoas a bordo partiu da Nova Zelândia para um vôo turístico para a Antártida. Sem que os pilotos soubessem, porém, alguém havia modificado as coordenadas do vôo em apenas dois graus. Esse erro colocou a aeronave 45 quilômetros a leste de onde os pilotos achavam estar. Ao se aproximarem da Antártida, os pilotos desceram para uma altitude menor a fim de que os passageiros pudessem apreciar melhor a paisagem. Embora fossem pilotos experientes, nenhum dos dois havia feito aquele vôo antes, e não havia como saber que as coordenadas incorretas os colocaram diretamente no rumo do monte Erebus, um vulcão ativo que se eleva da paisagem gelada até uma altitude de mais de 3.700 metros.

    Naquele vôo, o branco da neve e do gelo que cobriam o vulcão se mesclou ao das nuvens, dando-lhes a impressão de que voavam sobre terra plana. Quando os instrumentos soaram o alarme de que o solo estava erguendo-se rapidamente em sua direção, era tarde demais. O avião se chocou contra a encosta do vulcão, matando todos a bordo.

    Foi uma tragédia terrível provocada por um pequeno erro: uma questão — de cálculo — de poucos graus.1

    Ao longo dos anos em que servi ao Senhor e em inúmeras entrevistas, aprendi que a diferença entre a felicidade e a infelicidade para pessoas, casamentos e famílias muitas vezes se resume a um erro — de cálculo — de poucos graus.

    Saul, o Rei de Israel

    A história de Saul, o rei de Israel, ilustra esse conceito. A vida de Saul, no início, era muito promissora, mas teve um final trágico e infeliz. No início, Saul era “moço, e tão belo que entre os filhos de Israel não havia outro homem mais belo do que ele”.2 Saul foi pessoalmente escolhido por Deus para ser rei.3 Ele tinha todas as vantagens: tinha um físico imponente4 e vinha de uma família influente.5

    É claro que Saul tinha fraquezas, mas o Senhor prometeu abençoá-lo, sustê-lo e fazê-lo prosperar. As escrituras dizem que Deus prometeu estar sempre a seu lado,6 dar-lhe um novo coração,7 e torná-lo outro homem.8

    Enquanto teve a ajuda do Senhor, Saul foi um rei magnífico. Uniu Israel e derrotou os amonitas, que tinham invadido suas terras.9 Pouco depois, teve de enfrentar um problema ainda maior: os filisteus, que tinham um terrível exército com carros e cavaleiros “e povo em multidão como a areia que está à beira do mar”.10 Os israelitas ficaram tão aterrorizados com os filisteus que se esconderam “pelas cavernas, e pelos espinhais, e pelos penhascos”.11

    O jovem rei precisava de ajuda. O profeta Samuel enviou-lhe uma mensagem dizendo que o esperasse pois ele, o profeta, iria até lá, ofereceria um sacrifício e buscaria o conselho do Senhor. Saul esperou sete dias, mas o profeta Samuel não chegava. Por fim, Saul achou que não poderia esperar mais. Reuniu o povo e realizou algo sem ter a autoridade do sacerdócio para fazê-lo: ofereceu ele mesmo o sacrifício.

    Quando Samuel chegou, ficou consternado. “Procedeste nesciamente”, disse ele. Se o novo rei tivesse simplesmente esperado um pouco mais e não se houvesse desviado do caminho do Senhor, se tivesse seguido a ordem revelada pelo sacerdócio, o Senhor teria confirmado seu reino para sempre. “Porém agora”, disse Samuel, “não subsistirá o teu reino”.12

    Naquele dia, o profeta Samuel percebeu uma grave fraqueza no caráter de Saul. Quando pressionado por influências externas, Saul não tinha a autodisciplina necessária para permanecer no curso, confiar no Senhor e em Seu profeta e seguir o padrão estabelecido por Deus.

    Os Pequenos Erros Podem Ter Grande Repercussão em Nossa Vida

    Uma diferença de uns poucos graus, como aconteceu naquele vôo para a Antártida, ou quando Saul deixou de seguir o conselho do profeta de esperar só mais um pouquinho, pode parecer insignificante, mas até os pequenos erros, com o tempo, podem fazer uma drástica diferença em nossa vida.

    Deixem-me contar como eu ensinava esse mesmo princípio aos jovens pilotos:

    Suponham que vocês tivessem que decolar de um aeroporto localizado sobre a linha do Equador, com a intenção de dar a volta ao mundo, mas fossem desviados do curso em apenas um grau. Quando voltassem para a mesma longitude, a que distância estariam do curso certo? Alguns quilômetros? Cem quilômetros? A resposta talvez os surpreenda. Um erro de apenas um grau iria desviá-los quase 800 quilômetros do curso, ou seja, uma hora de vôo para um avião a jato.

    Ninguém quer terminar a vida em tragédia. Muitas vezes, porém, tal como os pilotos e passageiros daquele vôo turístico, saímos para o que supomos ser uma viagem emocionante, para perceber, já tarde demais, que um erro — de cálculo —de uns poucos graus nos colocou no rumo de um desastre espiritual.

    Há uma Lição para Nós Nesses Exemplos?

    Os pequenos erros e desvios mínimos da doutrina do evangelho de Jesus Cristo podem trazer tristes conseqüências para nossa vida. Portanto, é de fundamental importância que nos disciplinemos o suficiente para fazer correções imediatas e decisivas a fim de voltar para o caminho certo e não esperar que os erros de alguma forma se corrijam sozinhos.

    Quanto mais demorarmos para tomar medidas corretivas, maiores serão as mudanças e o tempo necessários para voltarmos ao caminho certo, até o ponto de o desastre se tornar iminente.

    A vocês, homens do sacerdócio, foi confiada uma grande responsabilidade. Pensem nisto: nosso Pai Celestial confiou a vocês, jovens diáconos, mestres e sacerdotes, a “chave do ministério de anjos e do evangelho preparatório”.13 Vocês, homens do Sacerdócio de Melquisedeque, receberam um juramento e um convênio nos quais lhes foi prometido tudo o que o Pai possui, se magnificarem seu sacerdócio.14

    O Senhor nos relembra que daquele “a quem muito é dado, muito é exigido”.15 Aqueles que possuem o sacerdócio de Deus têm a grande responsabilidade de ser um exemplo de virtude para o mundo. Vivemos à altura dessas expectativas quando rapidamente reconhecemos os perigos e as influências que nos tentam a afastar-nos do caminho do Senhor e quando corajosamente seguimos os sussurros do Espírito Santo para tomar medidas corretivas decisivas que nos levarão de volta para o curso certo.

    Esta conferência está sendo traduzida para 92 idiomas e transmitida para 96 países graças ao milagre da tecnologia moderna. Muitos de vocês, irmãos, assistem à conferência geral por meio da Internet. Essas novas tecnologias permitem que a mensagem do evangelho seja divulgada em todo o mundo. Os websites da Igreja são um bom exemplo de como a tecnologia pode ser usada como um maravilhoso recurso de inspiração, auxílio e aprendizado, ela pode ser uma bênção para vocês, portadores do sacerdócio, para sua família e para a Igreja.

    Mas tomem cuidado. Essas mesmas tecnologias podem permitir que influências malignas entrem em seu lar. Essas perigosas armadilhas estão à distância de um clique do mouse. A pornografia, a violência, a intolerância e a iniqüidade destroem famílias, casamentos e vidas. Esses perigos são divulgados por muitos meios de comunicação, incluindo revistas, livros, televisão, filmes e música, bem como a Internet. O Senhor os ajudará a reconhecer esses males e fugir deles. O pronto reconhecimento do perigo e um claro curso de correção os manterão na luz do evangelho. As pequenas decisões podem ter sérias conseqüências.

    Quando entram em uma sala de bate-papo estranha e arriscada na Internet, vocês podem ser levados para o meio de uma tempestade violenta. Colocar o computador em um local isolado, de modo que o restante da família não tenha acesso, pode ser o início de uma jornada enganosa e arriscada.

    Mas o Senhor exige não somente atos aparentes, também requer que nossos sentimentos e pensamentos íntimos sigam de perto o espírito da lei.16 Deus “requer o coração e uma mente solícita”.17

    Nós, do sacerdócio de Deus, temos a responsabilidade e o poder de dirigir a nós mesmos: “Não é conveniente que em todas as coisas eu mande”, disse o Senhor. “Os homens devem ocupar-se zelosamente numa boa causa e fazer muitas coisas de sua livre e espontânea vontade e realizar muita retidão; pois neles está o poder e nisso são seus próprios árbitros”.18

    O Pai Celestial sabia, antes de virmos para esta existência mortal, que forças negativas tentariam afastar-nos do rumo certo, “porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”.19 Foi por isso que Ele preparou um meio para fazermos as correções. Por intermédio do misericordioso processo do arrependimento sincero e da Expiação de Jesus Cristo, nossos pecados podem ser perdoados para que não pereçamos, mas tenhamos a vida eterna.20

    Nossa disposição de arrepender-nos demonstra nossa gratidão por essa dádiva de Deus e pelo amor do Salvador e Seu sacrifício por nós. Os mandamentos e os convênios do sacerdócio são uma prova de nossa fé, obediência e amor a Deus e Jesus Cristo, e o que é ainda mais importante, dão-nos a oportunidade de sentir o amor de Deus e receber a plenitude de alegria tanto nesta vida quanto na eternidade.

    Esses mandamentos e convênios de Deus são como instrumentos de navegação das alturas celestes e nos conduzirão em segurança a nosso destino eterno, que é um lugar de beleza e glória inimagináveis. Vale todo o sacrifício de fazermos correções decisivas agora e permanecermos no curso!

    Lembrem-se: o céu não estará repleto de pessoas que nunca cometeram erros, mas, sim, de pessoas que reconheceram que estavam fora do curso e corrigiram o rumo para voltarem a andar na luz da verdade do evangelho.

    Quanto mais entesourarmos as palavras dos profetas e as aplicarmos, melhor conseguiremos perceber quando nos estivermos afastando do curso, mesmo que seja uma questão — de cálculo — de uns poucos graus.

    O Que Fazer Se Nos Tivermos Afastado Muito do Caminho?

    Agora, irmãos, para aqueles que deixaram de fazer as devidas correções de curso e que acham que já estão longe demais do caminho do Senhor para conseguirem voltar, a esses proclamamos as boas-novas do evangelho da redenção e da salvação. Não importa quão terrivelmente fora do curso vocês estejam, não importa o quanto se tenham desviado, o caminho de volta é claro e certeiro. Venham, aprendam com o Pai, ofereçam o sacrifício de um coração quebrantado e um espírito contrito. Tenham fé e creiam no poder purificador da infinita Expiação de Jesus, o Cristo. Se confessarmos nossos pecados e nos arrependermos deles, Deus é fiel e justo para perdoar-nos e purificar-nos de toda a injustiça.21 “Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve.”22

    O caminho pode não ser fácil, exigindo autodisciplina e determinação, mas o fim será indescritivelmente glorioso. Vocês não estão fadados a um fim trágico. Muitos estão ansiosos por ajudá-los: sua família, o bispo, o presidente da estaca, o presidente do quórum e os mestres familiares. Evidentemente, seu maior amigo é o Todo-Poderoso Criador do universo. É Dele o sacerdócio do qual vocês são portadores. Ele compreende seu sofrimento e conhece sua dor. Ele e nosso Pai Celestial os abençoarão, consolarão e fortalecerão. Eles vão caminhar a seu lado e carregá-los, se vocês se esforçarem para corrigir sua rota.

    Meus queridos irmãos, vocês são realmente filhos especiais e preciosos do Pai Celestial. Ele confiou a vocês o sagrado poder do sacerdócio. Por favor, não se desviem do curso, nem sequer uns poucos graus. Dêem ouvidos ao Senhor seu Deus e Ele fará por vocês o que prometeu a Saul: dará a vocês um novo coração, transformará vocês em novos homens e estará sempre a seu lado.

    Presto testemunho de nosso Pai Celestial e de que Ele os conhece e os ama. Presto testemunho de Jesus Cristo, nosso Salvador, que é o Cabeça desta Igreja. O Presidente Thomas S. Monson é o profeta de Deus hoje. Expresso meu amor e minha gratidão a vocês, meus queridos amigos e irmãos do sacerdócio, em nome de Jesus Cristo. Amém.