2000–2009
Ver as Promessas Distantes
Notas de rodapé
Tema

Ver as Promessas Distantes

Fé, a capacidade espiritual de acreditar nas promessas que são consideradas “distantes” (…) é sem dúvida uma forma de avaliar quem são aqueles que realmente acreditam.

Nunca me esquecerei de um dia extremamente quente na luxuriante floresta tropical do sul da Nigéria. Meu marido e eu tínhamos viajado para um dos lugares mais distantes de nossa missão, para que ele realizasse entrevistas para a recomendação para o templo para os membros do Distrito Ikot Eyo. Algumas das pessoas daquele distrito que crescia rapidamente eram membros a menos de dois anos. Todos os membros viviam a cerca de 4.800 km do templo mais próximo, que ficava em Johannesburg, na África do Sul. Nenhum deles tinha recebido sua investidura no templo.

Aqueles membros sabiam qual o dia designado de cada mês no qual visitaríamos seu distrito, mas nem mesmo nós sabíamos exatamente a que hora conseguiríamos chegar lá. Tampouco podíamos telefonar para eles, porque havia bem poucos telefones naquela parte da África Ocidental. Portanto, aqueles dedicados santos africanos reuniam-se bem cedo pela manhã para esperar o dia inteiro, se fosse necessário, para realizarem sua entrevista para a recomendação para o templo. Quando chegamos, notei entre as pessoas que esperavam a entrevista, naquele calor insuportável, duas irmãs da Sociedade de Socorro, que usavam saias vistosas, blusa branca e o arranjo tradicional africano no cabelo.

Muitas horas depois, depois de todas as entrevistas terem sido realizadas, quando meu marido e eu voltávamos de carro pela trilha de terra no meio da floresta, ficamos admirados ao vermos aquelas duas irmãs ainda caminhando. Demo-nos conta de que elas tinham ido de sua vila, percorrendo um total de quase 30 quilômetros a pé, para receber uma recomendação para o templo que elas sabiam que jamais teriam o privilégio de usar.

Aquelas irmãs nigerianas acreditavam no conselho do Presidente Howard W. Hunter: “O Senhor ficaria contente se todos os membros adultos da Igreja fossem dignos e tivessem uma recomendação atualizada para o templo — mesmo que a distância não os permitisse fazer uso imediato ou freqüente dessa recomendação”.1 As duas levavam consigo, embrulhada num lenço muito limpo, a sua preciosa recomendação para o templo. Carrego comigo em meu coração o seu exemplo de fé.

Aquelas duas irmãs da Sociedade de Socorro são um exemplo do que Alma ensinou “com referência à fé—fé não é ter um perfeito conhecimento das coisas; portanto, se tendes fé, tendes esperança nas coisas que se não vêem e que são verdadeiras”.2

A fé é a mais pessoal expressão de adoração e devoção a nosso Pai Celestial e Seu Filho Unigênito Jesus Cristo. Ancorados nesse primeiro e extremamente importante princípio do evangelho, olhamos para o nosso Salvador, sabendo que “Jesus [é] o autor e consumador da fé”.3

Minha tia avó, Laura Clark Phelps, foi o primeiro membro da família Clark a filiar-se à Igreja. Ela foi uma mulher que demonstrou de modo muito especial a sua fé inabalável e firme no Senhor. 4

O legado de Laura ensina muito a respeito da doutrina da fé como “o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem”.5 Ela recebeu sua bênção patriarcal de Joseph Smith Sênior. Na bênção, ela foi aconselhada a ser fiel e foi-lhe dito que teria “uma herança em Sião”. Foi-lhe dito também: “Clama a Deus com fé, e se assim o desejares, ser-te-ão concedidos todos os desejos de teu coração”.6

Laura e seu marido conheceram o Profeta Joseph Smith. Em certa ocasião, o Profeta e seu irmão Hyrum entraram correndo em sua fazenda, nos arredores de Far West, Missouri, onde Laura os escondeu atrás da cortina. Ela encarou calmamente os líderes do populacho que entraram correndo pouco depois, a procura do Profeta.

Laura sentiu as alegrias e privações enfrentadas pelos primeiros membros da Igreja desta dispensação. Sua fé foi fortalecida ao ser expulsa de seu lar e separada do marido, por diversas vezes. Sendo uma parteira muito eficiente, ela trabalhava e viajava de dia e à noite, em todo tipo de condições climáticas, para ajudar a sustentar a família. O trabalho excessivo e a exposição aos elementos tiveram suas conseqüências. Ela faleceu ainda jovem, com apenas 34 anos de idade, deixando marido e cinco filhos. Ela não viveu para ver os filhos, netos e bisnetos seguirem seus passos com fé. Ela não usufruiu as bênçãos de receber sua própria investidura no templo durante sua vida terrena, as quais acredito que teria apreciado imensamente.

A vida fiel de Laura presta testemunho deste versículo de Hebreus: “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra”.7 Laura tinha fé, e sua fé se manifestava em sua vida.

Amo minha tia avó Laura e levo seu exemplo em meu coração. Assim como aquelas irmãs da Sociedade de Socorro da Nigéria, ela faz-me lembrar que “tudo é possível ao que crê”.8

Fé, a capacidade espiritual de acreditar nas promessas que são consideradas “distantes” mas que talvez não sejam alcançadas nesta vida é sem dúvida uma forma de avaliar quem são aqueles que realmente acreditam. O Élder Bruce R. McConkie expressou essa verdade nas seguintes palavras: “A fé em sua forma plena e pura exige uma certeza inabalável (…) e a absoluta confiança de que [Deus] ouvirá nossas súplicas e atenderá a nossos pedidos”,9 no Seu próprio tempo. Acreditando nisso, nós também poderemos estar “firmes na fé”10 no presente e no futuro.

Não importa onde vivamos ou quais sejam nossas condições individuais. Nossa vida justa pode demonstrar a cada dia a nossa fé em Jesus Cristo que enxerga além dos sofrimentos mortais, desapontamentos e promessas por cumprir. É uma coisa gloriosa possuir uma fé que nos permita aguardar aquele dia “em que receberemos de Deus as promessas”.11

Ao caminharem com “fé a cada passo” ao longo daquela trilha de terra na África Ocidental, aquelas valentes irmãs nigerianas não poderiam imaginar que as paredes de um santo templo de Deus seriam erguidas um dia em sua própria nação. Elas não poderiam ter imaginado que as palavras inspiradas de outro profeta de Deus, o Presidente Gordon B. Hinckley, traria as bênçãos prometidas que elas esperavam e tinham visto ao longe. Elas somente sabiam que o Senhor tinha restaurado Seu evangelho em nossos dias, que um testemunho desse evangelho ardia em seu coração, que sua fé iluminava-lhes o caminho em sua vida. Então, elas seguiram o conselho do profeta de serem dignas e de terem uma recomendação para o templo.

Meu marido e eu ternamente nos lembramos daquelas irmãs e muitos outros santos da África Ocidental naquele dia memorável, em abril de 2000, quando o Presidente Gordon B. Hinckley disse: “Gostaríamos de anunciar nesta conferência que esperamos construir uma casa do Senhor em Aba, Nigéria”.12 Irmãos e irmãs, testifico que às vezes “os milagres (…) confirmam a fé”.13 Os templos da África são uma magnífica prova dos milagres advindos da fé de muitos santos das pequenas vilas e grandes cidades espalhadas por aquele vasto continente.

Sinto-me profundamente grata por ter visto a fé que levou duas pioneiras da África a caminharem tantos quilômetros para realizarem uma entrevista para a recomendação para o templo. Regozijo-me por um templo estar sendo construído na Nigéria, que proporcionará àquelas mulheres, à sua família e a milhares de outros santos a oportunidade de usar suas recomendações como um símbolo e uma expressão de sua fé.

Muitas vezes as bênçãos que ainda iremos receber em nossa vida estão além do alcance de nossos olhos mortais. Testifico que é sempre a fé que nos permite ver ao longe, com uma visão espiritual, tudo aquilo que Deus tem reservado para Seus filhos.

Tão certo quanto aquelas irmãs que caminharam por aquela trilha na floresta sabiam, eu sei que Deus vive. Ele ama todos nós, em todos os continentes, e deseja abençoar-nos, individualmente. Sei que nossa fé em Jesus Cristo pode suster-nos a cada dia ao fazermos “alegremente todas as coisas que estiverem a nosso alcance”, sabendo com “extrema segurança”14 que as promessas que hoje consideramos “distantes” um dia trarão todas as bênção que esperamos. Em nome de Jesus Cristo. Amém.