2000–2009
Guia-o para Casa
Notas de rodapé
Tema

Guia-o para Casa

Podemos, com a ajuda do Senhor, estender nossa mão e resgatar os que estão sob nossa responsabilidade.

Meus queridos irmãos, é com humildade que me coloco diante de vocês nesta noite, sabendo que, além da imponente congregação presente neste Centro de Conferências, muitas centenas de milhares de portadores do sacerdócio acham-se também reunidos por todo o mundo.

Ao refletir sobre a responsabilidade de falar a vocês, recordei-me da definição de autoridade do sacerdócio dada pelo Presidente Stephen L. Richards. Disse ele: “Normalmente, o sacerdócio é definido simplesmente como o ‘poder de Deus delegado ao homem’. Creio que essa definição é precisa, mas para propósitos práticos, gosto de definir o sacerdócio em termos de serviço e, freqüentemente chamo-o de ‘o plano perfeito de serviço’”.1

Quer tenhamos o ofício de diácono no Sacerdócio Aarônico ou o de élder no Sacerdócio de Melquisedeque, estamos presos ao nosso dever, conforme a revelação do Senhor encontrada na seção 107 de Doutrina e Convênios, versículo 99: “Portanto agora todo homem aprenda seu dever e a agir no ofício para o qual for designado com toda diligência”.

Quando Clark, nosso filho mais novo, estava para fazer 12 anos, eu e ele saíamos do Edifício de Administração da Igreja quando o Presidente Harold B. Lee se aproximou e cumprimentou-nos. Mencionei que o Clark ia completar 12 anos, ao que o Presidente Lee voltou-se para ele e perguntou: “O que acontece quando se faz 12 anos?”

Essa foi uma daquelas vezes em que um pai ora para que o filho seja inspirado a dar a resposta adequada. Clark, sem hesitação, disse ao Presidente Lee: “Serei ordenado diácono!”

Era a resposta que o Presidente Lee esperava. Ele então deu um conselho ao nosso filho: “Lembre-se, é uma grande bênção possuir o sacerdócio”.

Quando eu era pequeno, ansiava por distribuir o sacramento aos membros da ala. Nós, diáconos, fôramos treinados quanto aos nossos deveres. Louis, um dos homens de nossa ala, sofria de paralisia agitante. Sua cabeça e mãos tremiam com tanta violência que ele não conseguia tomar o sacramento sozinho. Cada diácono sabia que seu dever ao servir o sacramento para o Louis, era de levar o pão aos lábios dele para que pudesse partilhar dele e, da mesma forma, colocar o copinho de água em sua boca com uma das mãos e segurar a cabeça dele com a outra, enquanto outro diácono segurava a bandeja. Louis sempre dizia: “Obrigado”.

Há quarenta anos, nesta época de conferência, o Presidente David O. McKay chamou-me para servir como membro do Quórum dos Doze Apóstolos. Na primeira reunião da Presidência e dos Doze de que participei em que o sacramento era servido, o Presidente McKay anunciou: “antes de tomarmos o sacramento, gostaria de pedir ao mais novo membro deste grupo, o irmão Monson, que instrua a Primeira Presidência e os Doze quanto ao sacrifício de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo”. Foi naquele momento que entendi o significado real do velho adágio: “Quando o momento da decisão chega, o momento da preparação passou”. Foi também a ocasião para lembrar do conselho encontrado em I Pedro: “Estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”.2

Comecei meus comentários mencionando uma carta que recebera de um dos militares de nossa ala, que servia na linha de frente na Coréia, durante aquela guerra por vezes esquecida. O escritor contou como, em meio ao bombardeio no domingo de manhã, vários soldados de seu pelotão partilharam do pão e depois da água, ambos servidos em um capacete. Cada um deles recordou-se do significado da bênção pronunciada sobre os emblemas sagrados e sobre a responsabilidade individual de guardar os mandamentos do Senhor e de seguir o exemplo do Senhor no serviço ao próximo.

A recordação daquela experiência, em particular, com a Primeira Presidência e com o Quórum dos Doze não se turvou, apesar de passados quarenta anos.

Para aqueles que estão longe de casa e da família, quer nas forças armadas, quer em missão, quer por outros motivos, a época de Natal traz consigo um desejo — uma saudade — de estar com os entes queridos. Ouvir o riso das crianças, testemunhar a demonstração de amor dos pais e sentir o abraço de irmãos e irmãs, é um trailer de como será o céu e a alegria eterna a ser encontrada lá.

Certa noite de dezembro, enquanto aguardávamos para embarcar para os Estados Unidos, a irmã Monson e eu enfrentávamos o calor e a umidade sufocante de Cingapura quando ouvimos, pelo sistema de auto-falantes do aeroporto, a voz de Bing Crosby cantando uma melodia familiar, alegre e cadenciada:

Estarei em casa no Natal,

Podem me aguardar,

Espero que tenham neve e pinhas

E presentes sob a árvore enfeitada

A noite de Natal irá me encontrar

Onde a luz do amor brilhar.

Estarei em casa no Natal,

Nem que seja só em meus sonhos.3

Há muito que a Primeira Presidência enfatiza a declaração: “O lar é o alicerce de uma vida digna e nenhum outro instrumento pode ocupar o seu lugar nem desempenhar suas funções essenciais”.4

Existem famílias com mãe e pai, filhos e filhas que, devido a um comentário impensado, afastaram-se uns dos outros. Uma história de como tal tragédia foi evitada por pouco ocorreu há muitos anos, na vida de um jovem que, para manter o sigilo, chamarei de Jack.

Durante toda a vida de Jack, ele e o pai tiveram muitas brigas sérias. Certo dia, quando tinha 17 anos de idade, eles tiveram uma briga particularmente violenta. Jack disse ao pai: “Essa foi a gota d´água. Vou embora de casa e não voltarei nunca mais”. Assim dizendo, entrou em casa e arrumou a mala. A mãe implorou-lhe que ficasse, mas ele estava zangado demais para escutar o que ela dizia. Deixou-a aos prantos na soleira da porta.

Ao atravessar o quintal e prestes a sair pelo portão, ouviu o pai chamá-lo: “Jack, sei que grande parte da culpa por você ir embora é minha. Sinto muito mesmo por isso. Saiba que se algum dia quiser voltar para casa, você será sempre bem-vindo. E eu tentarei ser um pai melhor para você. Quero que saiba que sempre o amarei”.

Jack não disse nada, mas foi até a rodoviária e comprou uma passagem para um lugar distante. Sentado no ônibus e percebendo que a distância de casa aumentava, ele passou a pensar nas palavras do pai. Começou a dar-se conta de quanto amor o pai sentia por ele para fazer o que fez. O pai lhe pedira desculpas. Convidara-o para voltar para casa e deixara as palavras ecoando na brisa do verão: “Eu amo você”.

Foi então que Jack percebeu que o próximo passo seria o dele. Sabia que a única maneira de ter paz consigo mesmo, seria demonstrando ao pai o mesmo tipo de maturidade, bondade e amor que este lhe mostrara. Jack desceu do ônibus. Comprou outra passagem e voltou para casa.

Ele chegou pouco depois da meia-noite, entrou em casa e acendeu a luz. Lá estava o pai, sentado na cadeira de balanço com a cabeça entre as mãos. Quando ergueu os olhos e viu Jack, levantou-se da cadeira e aí caíram nos braços um do outro. Jack dizia com freqüência: “Aqueles últimos anos que passei em casa foram alguns dos mais felizes de toda a minha vida”.

Podemos dizer que lá estava um menino que se tornou homem da noite para o dia. Que lá estava um pai que, ao suprimir a ira e dominar o orgulho, salvou o filho antes que ele se tornasse mais um, no vasto “batalhão perdido” em conseqüência de famílias dilaceradas e lares destruídos. O amor foi o bálsamo que os uniu, o bálsamo que os curou. Amor tantas vezes sentido, mas tão poucas vezes expressado.

Do monte Sinai, ressoa em nossos ouvidos: “Honra a teu pai e a tua mãe”.5 E depois, a injunção do Senhor: “Juntos vivereis em amor”.6

Irmãos, é nossa a responsabilidade, sim, nosso dever solene, estender a mão aos que se tornaram inativos ou que se extraviaram do círculo familiar.

Recordem-se comigo das lindas palavras contidas na revelação do Senhor na seção 18 de Doutrina e Convênios: “Lembrai-vos de que o valor das almas é grande à vista de Deus; (…) E, se trabalhardes todos os vossos dias clamando arrependimento a este povo e trouxerdes a mim mesmo que seja uma só alma, quão grande será vossa alegria com ela no reino de meu Pai! E agora, se vossa alegria é grande com uma só alma que tiverdes trazido a mim no reino de meu Pai, quão grande será vossa alegria se me trouxerdes muitas almas!”7

Como presidências de quóruns do Sacerdócio Aarônico e como consultores desses quóruns podemos, com a ajuda do Senhor, estender nossa mão e resgatar os que estão sob nossa responsabilidade. Rapazes, com um sorriso no rosto e determinação no coração, vocês poderão, lado a lado, levar um rapaz menos ativo à reunião do sacerdócio para aprender com o Senhor e saber o que Ele preparou para vocês realizarem. Vocês têm o direito de receber Sua ajuda divina, pois Ele prometeu: “Estarei à vossa direita e à vossa esquerda e meu Espírito estará em vosso coração e meus anjos ao vosso redor para vos suster”.8

Irmãos do Sacerdócio de Melquisedeque, vocês possuem o mesmo encargo e obrigação no que se refere a seus deveres quanto a outros homens e quanto à família de cada um deles. E vocês têm a mesma promessa do Senhor para ajudá-los em seus esforços.

Ao terem êxito, estarão respondendo à oração de uma mãe, aos sentimentos inocentes, embora não manifestados, do coração dos filhos e seu nome será honrado para sempre por aqueles a quem estendeu a mão e ajudou.

Deixem-me contar-lhes um exemplo de certo modo pessoal, mas feliz, extraído de minhas próprias experiências.

Quando eu era bispo, preocupava-me com os membros menos ativos que não freqüentavam as reuniões e não serviam na Igreja. Era nisso que pensava quando entrei na rua em que Ben e Emily Fullmer moravam. Era um casal idoso, no fim da vida. As dores da idade fizeram com que deixassem de ser ativos e procurassem o abrigo do lar. Estavam isolados, separados e desligados das atividades diárias e da convivência com outras pessoas. Ben e Emily não assistiam à nossa reunião sacramental havia muitos anos. Ben, um ex-bispo, sentava-se invariavelmente na sala da frente e lia e decorava o Novo Testamento.

Eu estava indo do meu escritório de vendas no centro da cidade para nossa fábrica na Industrial Road. Por alguma razão desci pela First West, uma rua pela qual nunca passara antes para chegar à fábrica. Senti, então, a inconfundível inspiração de parar o carro e fazer uma visita a Ben e Emily, apesar de estar a caminho de uma reunião. A princípio não dei muita atenção àquele sentimento, e continuei a dirigir por mais dois quarteirões; contudo, quando a sensação voltou novamente, rumei para a casa deles.

Era uma tarde ensolarada de um dia de semana. Cheguei à porta e bati. Ouvi um pequeno fox-terrier latir quando me aproximei. Emily convidou-me a entrar. Ao me ver, exclamou: “Estive esperando o telefone tocar o dia todo. Não tocou. Esperava que o carteiro me entregasse uma carta. Entregou apenas contas. Bispo, como sabia que hoje era meu aniversário?”

Respondi: “Deus sabia, Emily, pois Ele a ama”.

Na tranqüilidade de sua sala de estar, disse a Ben e a Emily: “Não sei por que fui inspirado a visitá-los hoje, mas o fato é que fui. Nosso Pai Celestial sabe o motivo. Vamos nos ajoelhar em oração e perguntar-Lhe a razão”. Assim o fizemos e recebemos a resposta. Ao nos levantarmos, disse ao irmão Fullmer: “Ben, você poderia ir à reunião do sacerdócio, quando teremos a presença de todo o sacerdócio, e narrar aos rapazes do Sacerdócio Aarônico a história que me contou quando eu era jovem, a respeito de como você e um grupo de meninos estavam a caminho do rio Jordão para nadar num domingo, mas você sentiu o Espírito dizendo-lhe que fosse para a Escola Dominical? Você obedeceu. Um dos meninos que não atendeu ao Espírito morreu afogado naquele domingo. Nossos garotos gostariam de ouvir seu testemunho”.

“Irei, sim”, respondeu.

Então disse à irmã Fullmer: “Emily, sei que você tem uma linda voz. Sei disso porque minha mãe contou-me. A conferência de nossa ala será em poucas semanas e nosso coro irá cantar. Você gostaria de se juntar ao coro, participar da conferência da ala e talvez fazer um solo?”

“Qual será o hino?” perguntou-me.

“Não sei”, respondi, “mas gostaria que cantasse.”

Ela cantou. Ele falou ao Sacerdócio Aarônico. O coração das pessoas alegrou-se, pois Ben e Emily voltaram à atividade. Quase nunca faltaram à reunião sacramental desse dia em diante. Falara-se a língua do Espírito. Ele fora ouvido. Fora compreendido. Corações foram tocados e almas salvas. Ben e Emily Fullmer tinham voltado para casa.

Um dos mais antigos musicais da história é Les Miserables. A história passa-se no período da Revolução Francesa. O personagem principal do musical é Jean Valjean. Por sua intensa preocupação com um jovem, Marius, que partira para a guerra, ele profere uma sincera oração em forma de canto:

Deus no céu,

ouve esta prece;

Em minha dor,

sempre cuidaste de mim.

Ele é jovem,

sente medo;

Dá-lhe a paz,

abençoado pelo Céu.

Guia-o para casa

Leva-lhe serenidade,

leva alegria.

Ele é jovem;

apenas um menino.

Tu podes tomar,

tu podes dar;

Dá-lhe alento,

deixa-o viver.

Se eu morrer, que seja assim,

deixa-o viver.

Guia-o para casa.9

Irmãos, ao prosseguirmos, como portadores do sacerdócio de Deus, aprendendo nosso dever e então estendendo a mão aos nossos irmãos que precisam de nosso auxílio, que olhemos para o alto, para o nosso Pai Celestial que é o Pai de todos nós. Talvez não ouçamos Sua voz, mas nos lembraremos de Sua saudação: “Bem está, servo bom e fiel”.10

E dentro de nosso coração reconheceremos Sua prece silenciosa: Guia-o para casa. Em nome de Jesus Cristo. Amém.