2000-2009
    O Que Eu Ganho com Isso?
    Notas de rodapé
    Theme

    O Que Eu Ganho com Isso?

    Pegar sua cruz e seguir o Salvador significa superar o egoísmo; é um compromisso para servir outras pessoas.

    Oro humildemente para que o mesmo Espírito que acompanhou os demais oradores esta manhã esteja comigo enquanto falo a vocês.

    Há muitos anos, trabalhei ao lado de dois homens mais velhos e mais experientes. Éramos amigos há muitos anos e considerávamos ser benéfico o auxílio que prestávamos uns aos outros. Certo dia, um colega procurou nossa ajuda em um assunto complexo. Assim que o assunto foi explicado, a primeira coisa que o outro colega disse foi: “O que eu ganho com isso?” Quando esse velho amigo reagiu de forma tão egoísta, vi o olhar de dor e desapontamento no rosto do que havia pedido nossa ajuda. O relacionamento entre os dois nunca mais foi o mesmo. Nosso amigo interesseiro não prosperou porque seu egoísmo rapidamente eclipsou seus dons, talentos e qualidades notáveis. Infelizmente, uma das maldições do mundo de hoje acha-se resumida nesta reação egoísta: “O que eu ganho com isso?”

    Durante os anos em que desempenhei minha profissão, ajudei os herdeiros de um nobre casal a dividir seus bens. A herança não era enorme, mas era o fruto de muitos anos de trabalho árduo e de sacrifício. Os filhos eram todos pessoas decentes e tementes a Deus, que haviam aprendido a viver os princípios salvadores do Salvador. Mas quando chegou a hora de dividir a propriedade, iniciou-se uma disputa sobre quem deveria herdá-la. Muito embora não fosse algo que fizesse aquela briga valer a pena, sentimentos de egoísmo e cobiça provocaram um rompimento entre alguns dos familiares que jamais cicatrizou e que prosseguiu na geração seguinte. Que tragédia ver que o legado deixado por esses pais maravilhosos se transformasse em algo tão destrutivo à unidade familiar e ao amor de seus filhos. Aprendi com isso que orgulho e cobiça causam rancor e contenda; por outro lado sacrifício e doação causam paz e satisfação.

    No Grande Conselho do Céu, quando o grande plano de salvação para os filhos de Deus foi apresentado, Jesus respondeu: “Eis-me aqui, envia-me”1, e “Pai, faça-se a tua vontade e seja tua a glória para sempre”2. E assim Ele Se tornou o nosso Salvador. Em contraste, Satanás, que havia sido considerado “um filho da manhã”3, opôs-se dizendo que viria e “[redimiria] a humanidade toda, de modo que nenhuma alma se [perderia]”4. Satanás impôs duas condições: a primeira era a rejeição do arbítrio e a segunda, de que receberia toda a honra. Em outras palavras, ele teria que receber algo em troca. E assim se tornou o pai de todas as mentiras e de todo o egoísmo.

    Pegar sua cruz e seguir o Salvador significa superar o egoísmo; é um compromisso para servir outras pessoas. O egoísmo é uma das características humanas mais desprezíveis, que precisa ser subjugada e superada. Torturamos nossa alma quando nos concentramos no obter em lugar de dar. Com freqüência, a primeira palavra que muitas criancinhas aprendem a dizer é meu. Eles precisam aprender a respeito da alegria de se compartilhar. Certamente, um dos grandes mestres para superar o orgulho é a maternidade e a paternidade. As mães descem ao vale da sombra da morte para dar à luz os filhos. Os pais trabalham arduamente e desistem de muitas coisas para poderem abrigar, alimentar, vestir, proteger e educar os filhos.

    Aprendi que o egoísmo tem mais a ver com a forma como nos sentimos a respeito do que possuímos do que com o quanto possuímos. O poeta Wordsworth disse: “Passamos todo nosso tempo envolvidos com as coisas do mundo / Comprando e gastando, destruímos o poder que possuímos”5. Um homem pobre pode ser egoísta6 e um rico, generoso, mas uma pessoa obcecada apenas em obter coisas, terá muita dificuldade para encontrar paz nesta vida.

    O Élder William R. Bradford disse certa vez: “Dentre todas as influências que fazem com que o homem escolha o errado, o egoísmo é certamente a mais forte. O Espírito do Senhor está ausente onde existe o orgulho. Os talentos não são compartilhados, as necessidades dos pobres não são atendidas, o fraco não é fortalecido, o ignorante não é ensinado e o que foi perdido não é recuperado”.7

    Conversei, recentemente, com uma das pessoas mais generosas que conheço. Pedi-lhe que descrevesse os sentimentos de realização que surgiram devido à sua generosidade. Ele falou a respeito do sentimento de alegria e felicidade que vem ao coração por compartilhar as coisas com outras pessoas menos afortunadas. Disse-me que nada pertencia realmente a ele — tudo provinha do Senhor — somos meros guardiães do que Ele nos deu. Como o Senhor disse ao Profeta Joseph Smith: “ (…) todas essas coisas são minhas e vós sois meus mordomos”8.

    Algumas vezes é fácil nos esquecermos de que “Do Senhor é a terra e a sua plenitude (…)”9. O Salvador advertiu-nos conforme registrado no Livro de Lucas: “(…) Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste da abundância do que possui.

    E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância;

    E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos.

    E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens;

    E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga.

    Mas Deus lhe disse: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?

    Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus.”10

    “Há alguns anos, o Élder ElRay L. Christiansen fez um relato a respeito de um de seus parentes escandinavos que se afiliou à Igreja. Ele estava bem de vida e vendeu suas terras e gado na Dinamarca antes de vir para Utah com a família. Durante algum tempo ele teve sucesso no que se referia à Igreja e às suas atividades, e prosperou financeiramente. Ficou, contudo, tão apegado às posses materiais que esqueceu de seu propósito de vir para a América. O bispo conversou com ele para que se tornasse ativo da forma como era antes. Os anos se passaram e alguns irmãos ao visitarem-no, disseram: “Bem, Lars, o Senhor foi bom para você enquanto estava na Dinamarca. Ele tem sido bom para você desde que chegou aqui (…). Achamos que agora, uma vez que está um pouco mais velho, deveria gastar parte de seu tempo com os interesses da Igreja. Afinal, você não poderá levar essas coisas com você quando se for”.

    Chocado com esse comentário, o homem replicou: “Bem, enton, eu não vai!”. Mas ele foi!11 Assim como todos nós iremos!

    É tão fácil para algumas pessoas ficarem obcecadas com o que possuem e perderem a perspectiva eterna. Quando Abraão foi para o Egito, seu sobrinho Ló acompanhou-o até Betel. Tanto Abraão como Ló tinham rebanhos, manadas e tendas: “E não tinha capacidade a terra para poderem habitar juntos; porque os seus bens eram muitos; de maneira que não podiam habitar juntos”12. Depois de alguns atritos entre os pastores de Abraão e Ló, Abraão fez uma proposta a Ló: “(…) Ora, não haja contenda entre mim e ti, e entre os meus pastores e os teus pastores, porque somos irmãos.

    “(…) se escolheres a esquerda, irei para a direita. E se a direita escolheres, eu irei para a esquerda.”13

    Ló viu “o que poderia ganhar com aquilo” ao vislumbrar a fértil planície do Jordão e escolheu a terra que ficava próxima a cidade mundana de Sodoma14. Abraão satisfez-se em levar seus rebanhos para viver na terra mais árida de Canaã, apesar disso acumulou ainda mais riquezas lá.

    Abraão é, contudo, lembrado mais como o grande patriarca do povo do convênio do Senhor. Uma das primeiras referências que temos quanto ao pagamento do dízimo, foi quando Abraão pagou o dízimo de tudo o que possuía para Melquisedeque15. Abraão tinha a confiança do Senhor, que mostrou-lhe as inteligências do mundo pré-mortal, a escolha de um Redentor e a Criação16. Abraão ficou também conhecido por sua disposição de sacrificar o filho, Isaque. Este tremendo ato de fé simboliza o sacrifício mais altruísta de toda a história, quando o Salvador deu Sua vida por todos nós para expiar por nossos pecados.

    Há alguns anos, um “menino coreano pegou sua mesada semanal e comprou jornais. Então ele e alguns amigos venderam os jornais nas ruas de Seul, Coréia, para conseguir dinheiro para ajudar um colega de escola que não tinha dinheiro suficiente para continuar os estudos. Esse jovem também dividia seu almoço com o menino, todos os dias, para que ele não passasse fome. Por que fez essas coisas? Porque ele havia estudado a história do bom samaritano17 e não queria apenas aprender a respeito do bom samaritano, mas queria conhecer o sentimento dele, fazendo o que um bom samaritano faria (…). Somente depois de ter sido cuidadosamente questionado pelo pai a respeito de suas atividades”18 é que ele admitiu: “Mas papai, todas as vezes que eu ajudo meu amigo, sinto que estou-me tornando mais semelhante ao bom samaritano. Além disso, quero ajudar meus colegas que não são tão afortunados como eu. Não estou fazendo nada de mais. Li a esse respeito no meu manual do seminário e senti que era o que deveria fazer”19. O menino não perguntou: “O que eu ganho com isso?”, antes de realizar esse ato de bondade. De fato, ele o fez sem pensar em recompensa ou reconhecimento.

    Em 11 de setembro de 2001, as torres gêmeas do World Trade Center em Nova York foram atingidas por aviões controlados por terroristas que provocaram o desabamento das duas torres. Milhares de pessoas foram mortas. Devido a essa tragédia, soubemos de centenas de histórias de atos corajosos e altruístas. Um relato muito tocante e heróico encontra-se na história veiculada pelo jornal Washington Post a respeito do coronel do exército aposentado Cyril “Rick” Rescorla, que trabalhava como vice-presidente de segurança empresarial do Morgan Stanley Dean Witter.

    Rick era um ex-militar com muita experiência como líder de combate. Estava no escritório quando “o primeiro avião atingiu a torre norte às 8h48 (…). Ele recebeu um telefonema do 71º andar comunicando uma bola de fogo em uma das torres do World Trade Center e ordenou imediatamente a evacuação de todos os 2.700 funcionários do segundo edifício”, assim como de mais 1.000 do quinto edifício. Utilizando seu megafone, ele subiu os andares, passando por uma área obstruída no 44º andar e chegou até o 72º ajudando a evacuar as pessoas de cada andar. Um amigo contou que viu Rick tranqüilizando pessoas no 10º andar e disse a ele: “Rick, você tem que sair também”.

    “‘Assim que estiver certo de que todos saíram’”, replicou.

    “Ele não estava de forma alguma perturbado. Estava colocando a vida de seus colegas antes da sua própria.” Ele ligou para a sede do banco para avisar que estava voltando para cima para procurar pessoas perdidas.

    A esposa assistira o jato da United Airlines bater contra sua torre. “Depois de algum tempo o telefone tocou. Era Rick.

    ‘Não quero que chore’, disse ele. ‘Tenho que evacuar meu pessoal agora.’”

    “Ela continuou a soluçar.

    ‘Se algo acontecer comigo, quero que saiba que você sempre foi a razão da minha vida.’

    A ligação caiu.” Rick não sobreviveu.

    “Morgan Stanley perdeu apenas seis de seus 2.700 funcionários na torre sul em 11 de setembro, um milagre isolado em meio à carnificina. E os executivos da companhia disseram que Rescorla merece a maior parte do crédito. Ele preparou um plano de evacuação. Ele levou apressadamente seus colegas para um lugar seguro. E então, aparentemente, retornou ao inferno para procurar pessoas que estavam perdidas. Ele foi o último homem a sair da torre sul depois da bomba que fora detonada em 1993 e parece que ninguém duvidava que isso aconteceria novamente no mês passado, caso o edifício não tivesse ruído sobre ele antes.”

    Em meio à grande maldade e carnificina de 11 de setembro de 2001, Rick não procurou saber o que ganharia com o ocorrido; em vez disso pensou desprendidamente nas pessoas e no perigo que enfrentavam. Rick Rescorla era “o homem certo no lugar certo na hora certa”. Rick, “um gigante de 62 anos de idade que friamente [sacrificou] sua vida pelos outros”.20 Como o próprio Salvador disse: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”.21

    A maior parte de nós não demonstra ser altruísta de forma tão dramática, mas para cada um de nós, desprendimento significa ser a pessoa certa na hora certa no lugar certo para prestar um serviço. Quase todo dia traz oportunidades para se realizar pequenos atos altruístas por outros. Tais ações são ilimitadas e podem ser tão simples quanto uma palavra gentil, a mão que ajuda ou um sorriso afável.

    O Salvador nos lembra: “Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á”22. Um dos paradoxos da vida é que uma pessoa que aborda tudo com a atitude o-que-eu-ganho-com-isso, pode conseguir dinheiro, propriedades e terra, mas ao final perderá a satisfação e a felicidade que sente uma pessoa que compartilha seus talentos e dons generosamente com outros.

    Quero testificar que o maior e melhor serviço a ser desempenhado por qualquer um de nós é o realizado a serviço do Mestre. Nas diversas atividades de minha vida nenhuma foi mais recompensadora ou benéfica do que aceitar os chamados de serviço desta Igreja. Cada um deles é diferente. Cada um deles traz uma bênção separada. A maior realização na vida vem de se prestar serviço a outros e não ficar obcecado com “o que eu ganho com isso”. Disto presto testemunho em nome de Jesus Cristo. Amém.