2010–2019
Onde Estiver o Vosso Tesouro
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Onde Estiver o Vosso Tesouro

Élder Michael John U. Teh

Se não tomarmos cuidado, começaremos a perseguir mais as coisas materiais do que as espirituais.

Pouco depois da conferência geral de outubro de 2007, um dos meus irmãos me disse que levaria uns sete anos até que eu tivesse aquela tocante experiência de novo. Fiquei aliviado e disse que iria considerá-los “meus sete anos de fartura”. Bem, aqui estou eu. Meus sete anos de fartura chegaram ao fim.

Em janeiro passado, minha querida esposa, Grace, e eu recebemos a designação de visitar os membros nas Filipinas, que sofreram com a devastação causada por um forte terremoto e um supertufão. Regozijamo-nos com isso porque a designação foi uma resposta a nossas orações e um testemunho da misericórdia e da bondade de um amoroso Pai Celestial. Isso concretizou nosso anseio de expressar pessoalmente a eles todo o nosso amor e nossa preocupação.

A maioria dos membros com quem falamos ainda morava em abrigos temporários como tendas, centros comunitários e capelas da Igreja. Os lares que visitamos tinham sido parcial ou totalmente destelhados. As pessoas já não tinham muito para sobreviver, e o pouco que tinham foi levado pela enxurrada. Havia lama e detritos por toda parte. Contudo, estavam cheios de gratidão pela pouca ajuda que recebiam e tinham bom ânimo, apesar de continuarem numa situação muito difícil. Quando lhes perguntávamos como estavam lidando com a situação, todos respondiam com um sonoro: “Estamos bem”. Obviamente, sua fé em Jesus Cristo lhes dava a esperança de que no fim tudo ficaria bem. Lar após lar, tenda após tenda, minha mulher e eu estávamos sendo ensinados por aqueles santos fiéis.

Em momentos de calamidade ou tragédia, o Senhor tem um meio de redirecionar nossa vida e nossas prioridades. De repente, todas as coisas materiais pelas quais trabalhamos tão arduamente deixam de ter importância. Tudo o que importa é nossa família e nosso relacionamento com as pessoas. Uma boa irmã explicou assim: “Depois que as águas baixaram, e era hora de começar a limpeza, olhei em volta na minha casa e pensei: ‘Puxa, acumulei um monte de lixo nestes muitos anos’”.

Suspeito que aquela irmã adquiriu uma perspectiva melhor e que daqui em diante será bem cuidadosa ao decidir quais coisas são necessárias e quais ela pode certamente dispensar.

Ao trabalhar com muitos membros ao longo dos anos, tenho observado com satisfação uma abundância de força espiritual. Também tenho visto uma abundância e uma carência de posses pessoais entre esses membros fiéis.

Por necessidade, a maioria de nós está envolvida no empenho de ganhar dinheiro e de adquirir alguns bens terrenos para poder sustentar a família. Isso exige grande parte de nosso tempo e de nossa atenção. Não tem fim o que o mundo tem a oferecer, por isso é fundamental que aprendamos a reconhecer quando “temos o suficiente”. Se não tomarmos cuidado, começaremos a perseguir mais as coisas materiais do que as espirituais. Nossa busca do que é espiritual e eterno ficará então em segundo plano, em vez de ser o contrário. Infelizmente, parece haver uma forte inclinação de se adquirir cada vez mais e de ter o que há de mais moderno e sofisticado.

Como é que nos certificamos de não ser arrastados para esse caminho? Néfi deu este conselho: “Portanto não despendais dinheiro naquilo que não tem valor, nem vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer. Ouvi-me atentamente e lembrai-vos das palavras que disse; e vinde ao Santo de Israel e fartai-vos daquilo que não perece nem pode ser corrompido; e deixai que vossa alma se deleite na abundância”.1

Espero que nenhum de nós despenda dinheiro naquilo que não tem valor nem nosso trabalho naquilo que não pode satisfazer.

O Salvador ensinou o seguinte tanto aos judeus quanto aos nefitas:

“Não entesoureis para vós tesouros na Terra, onde a traça e a ferrugem consomem e onde os ladrões minam e roubam.

Mas ajuntai tesouros nos céus, onde nem a traça nem a ferrugem consomem e onde os ladrões não minam nem roubam.

Pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”.2

Em outra ocasião, o Salvador contou esta parábola:

“A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância;

E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos.

E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens;

E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga.

Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?

Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus”.3

O Presidente Dieter F. Uchtdorf deu o seguinte conselho há pouco tempo:

“Nosso Pai Celestial vê nosso real potencial. Ele sabe coisas a nosso respeito que nós mesmos não sabemos. Ele nos inspira durante a vida a cumprir a medida de nossa criação, a vivermos uma boa vida e a retornarmos a Sua presença.

Por que, então, dedicamos tanto de nosso tempo e de nossa energia a coisas que são tão fugazes, tão sem importância e tão superficiais? Por que nos recusamos a ver a insensatez de buscar coisas triviais e temporárias?”4

Todos sabemos que nossa lista de tesouros terrenos consiste em orgulho, riqueza, coisas materiais, poder e honras dos homens. Essas coisas não merecem nosso tempo e nossa atenção, por isso vou me concentrar nas coisas que vão consistir de nossos tesouros no céu.

Quais são alguns tesouros no céu que podemos acumular para nós? Para começar, seria bom adquirirmos os atributos cristãos da fé, da esperança, da humildade e da caridade. Foi-nos aconselhado repetidas vezes que precisamos nos despojar do homem natural e nos tornar como uma criança.5 A admoestação do Salvador é a de que nos esforcemos para ser perfeitos como Ele e nosso Pai Celestial são perfeitos.6

Em segundo lugar, precisamos dedicar mais tempo e empenho no fortalecimento dos relacionamentos familiares. Afinal de contas, “a família foi ordenada por Deus [e] é a mais importante unidade nesta vida e na eternidade”.7

Em terceiro lugar, o serviço ao próximo é a marca registrada do verdadeiro seguidor de Cristo. Ele disse: “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”.8

Em quarto lugar, o empenho de compreender a doutrina de Cristo e de fortalecer nosso testemunho é algo que proporciona verdadeira alegria e satisfação. Precisamos estudar constantemente as palavras de Cristo que se encontram nas escrituras e as palavras dos profetas vivos. “Pois eis que as palavras de Cristo vos dirão todas as coisas que deveis fazer.”9

Gostaria de encerrar com a história de uma viúva de 73 anos que conheci em nossa viagem às Filipinas:

Quando o terremoto abalou a ilha de Bohol, a casa que ela e seu falecido marido tinham trabalhado tão arduamente para construir ruiu por terra, matando sua filha e seu neto. Estando então sozinha, teve que trabalhar para ganhar seu sustento. Ela começou lavando roupas (fazendo isso à mão) e tendo que subir e descer uma encosta de bom tamanho várias vezes por dia para pegar água. Quando a visitamos, ela ainda morava numa tenda.

Estas são as palavras dela: “Élder, eu aceito tudo o que o Senhor me pediu que suportasse. Não tenho ressentimentos. Considero um tesouro a minha recomendação para o templo e a guardo debaixo do travesseiro. Quero que saiba que pago um dízimo integral da minguada renda que recebo lavando roupas. Não importa o que aconteça, sempre vou pagar o dízimo”.

Presto testemunho de que nossas prioridades, tendências, inclinações, desejos, apetites e paixões terão uma repercussão direta em nosso próximo estado. Lembremo-nos sempre das palavras do Salvador: “Pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Que nosso coração seja encontrado no lugar certo, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.