1990–1999
Espiritualidade Através Do Servir
April 1990


Espiritualidade Através Do Servir

“O servir muda as pessoas. Refina, purifica e dá uma perspectiva mais ampla, fazendo vir à tona o que há de melhor em nós.”

O Presidente Benson, que fala pelo Senhor para todo o mundo, desafiou-nos a “viver e ensinar pelo Espírito”. Quantas vezes já o ouvimos dizer: “É o Espírito que conta nesta obra?” Sim, a obra do Senhor é uma obra espiritual, relacionada com mudança de vida, desenvolvimento de valores reais e a capacidade de sobrepujar as influências mundanas.

Com o passar dos anos, muitas pessoas, principalmente jovens, têm-me perguntado: “Élder Cuthbert, como posso tornar-me mais espiritual?” Minha resposta tem sido sempre a mesma: “Servindo mais.”

O servir muda as pessoas. Refina, purifica e dá uma perspectiva mais ampla, fazendo vir à tona o que há de melhor em nós. Faz com que olhemos ao nosso redor, e não só para dentro de nós mesmos. Incentiva-nos a pensar nas necessidades alheias, antes mesmo das nossas. O serviço prestado com retidão é a expressão da verdadeira caridade, conforme demonstrou o Salvador.

Como, então, o trabalho aumenta nossa espiritualidade? Eu gostaria de compartilhar dez aspectos convosco, dos quais podereis escolher aqueles que melhor se apliquem à vossa situação.

Primeiro, o serviço nos ajuda a estabelecer valores reais e prioridades, fazendo-nos distinguir as coisas passageiras, de valor material, das coisas de valor duradouro, eterno. Nosso profeta aconselha: “Se quereis achar-vos, aprendei a renunciar a vós mesmos para que outros sejam beneficiados. Esquecei de vós mesmos, e encontrai alguém que necessite de vosso serviço, e então descobrireis o segredo da vida plena e feliz.” (Conferência Geral de abril de 1979.) Perto de nossa casa mora uma irmã encantadora, que há vinte e sete anos está confinada a uma cadeira de rodas; ela realmente se esquece de si mesma em benefício dos outros, realizando serões domingueiros e ajudando em tudo o que pode com um sorriso animador e uma atitude positiva.

Segundo, o serviço nos ajuda a estabelecer uma tradição de retidão. Isto é muito necessário, principalmente entre os jovens. Os pais sábios arranjam para seus filhos, desde cedo, oportunidades de serviço em casa. Quando crescem nesta tradição, sua vida desabrocha em trabalho comunitário e serviço na Igreja, desenvolve-se nas crianças o desejo de empreender serviço voluntário, num mundo onde as pessoas, na maioria das vezes, perguntam: “O que é que eu ganho com isso?” O Senhor aconselhou: “Pois eis que não é próprio que em todas as coisas eu mande…

Na verdade digo que os homens devem se ocupar zelosamente numa boa causa, e fazer muito de sua própria e livre vontade, e realizar muito bem.” (D&C 58:26–27.)

Quando viajo, para assistir a conferências de estaca, fico encantado em ouvir falar de todos os tipos de projetos de serviço realizados por jovens, tais como batismos pelos mortos no templo, trabalhos de limpeza na comunidade e obra missionária durante as férias. É desta forma que salvaremos a geração que surge, evitando que se torne totalmente egoísta e indulgente. Nós não a salvaremos proporcionando-lhes unicamente atividades que tenham o propósito de divertir.

Terceiro, servir nos ajuda a sobrepujar o egoísmo e o pecado. Não compreendestes que todo o pecado é egoísta, seja ele mentir, roubar, furtar, cometer imoralidades, ser cobiçoso ou preguiçoso? O pecado serve aos nossos próprios fins, e não aos dos outros, e certamente não serve aos do Senhor. O serviço, por outro lado, é abnegado e se constitui num poder positivo para o bem.

Isaías lamentou: “Cada um se desviava pelo seu caminho.” (Isaías 53:6.) Em palavreado moderno, cada um “fez o que lhe comprazia”, fosse qual fosse o efeito adverso sobre os outros. Até mesmo muitos daqueles que professam compreender o livre-arbítrio, ou liberdade moral, transformam essa liberdade em licenciosidade, como podemos ver à nossa volta.

Quarto, servir não apenas sobrepuja o egoísmo e o pecado, mas ajuda a compensar o que fizemos de errado. O Profeta Ezequiel explicou isto quando declarou: “De todos os seus pecados com que pecou não se fará memória contra ele: juízo e justiça fez.” (Ezequiel 33:16.) E, novamente, Tiago ensinou que salvar “uma alma… cobrirá uma multidão de pecados”. (Tiago 5:20.) Podemos expressar arrependimento e sentir remorso pelas coisas erradas que fizemos, mas o arrependimento completo deve incluir compensação, tal como o serviço prestado.

Quinto, servir nos ajuda a gerar amor e apreço. Quando servimos às pessoas, passamos a conhecê-las — as circunstâncias nas quais vivem, seus desafios, suas esperanças e aspirações. Minha mulher e eu tivemos o privilégio de visitar algumas irmãs viúvas que se tornaram nossas amigas queridas. Como fomos abençoados ao ouvir relatos da missão e do serviço que realizaram no templo, e atualmente do serviço de extração de registros familiares abnegadamente realizado, apesar de suas muitas dificuldades e provações.

Sexto, servir é a forma principal de demonstrar gratidão ao Salvador. Precisamos encher-nos de gratidão por seu amor redentor, seu infinito sacrifício expiatório, sua obediência à vontade do Pai. Quando o fazemos, essa gratidão cresce em forma de serviço, e segundo (Mateus 25:40, “quando o fizestes a um destes (seus) pequeninos irmãos, a (ele) o fizestes”.

Sétimo, servir canaliza nossos desejos e energias para atividades edificantes. Todo filho de Deus é como um armazém — uma casa de força — de desejos e energias, que podem ser usados para o bem ou para o mal. Este grande potencial precisa ser canalizado, de modo a proporcionar bênçãos para os outros. Penso num grupo de jovens que viram um filme sobre a fome na África e organizaram um concerto beneficente para ajudar as pessoas carentes. Lembro-me dos milhares de membros da Igreja que atenderam ao pedido da Primeira Presidência, de fazer um jejum especial. Espera-se que neste ano a fome e a miséria sejam piores que antes na África, e novamente teremos de dar prioridade e usar nossos recursos na forma estabelecida pelo Senhor — não só em benefício daqueles que moram em terras longínquas, mas daqueles que vivem em nossa própria comunidade.

Oitavo, servir ajuda a limpar o nosso interior, a purificar-nos e santificar-nos. Como não somos perfeitos, não somos todos pecadores? Sim, todos nós necessitamos do sangue redentor e expiador de Cristo, para purificar-nos do pecado. Como realizamos isto? Por meio de serviço cristão, conforme a oração de Santo Ignácio de Loyola, que aprendi em minha juventude:

Dar sem contar o custo;

Lutar sem se importar com as feridas;…

Servir sem pedir recompensa

A não ser a de saber que fazemos a tua vontade.

(Prayer for Generosity [Oração por Generosidade], 1548, em Familiar Quotations, John Bartlett, 14a. ed., Boston: Little, Brown and Co., 1968, p. 1806.)

Nono, servir caridosamente nos ajuda a seguir o exemplo do Salvador, pois não foi todo o seu ministério consagrado a dar e ajudar, elevar e abençoar, amar e cuidar? Jesus declara: “Eu porém, entre vós sou como aquele que serve” (Lucas 22:27), e novamente: “Pois a mim erguerei um povo puro, o qual me servirá em justiça.” (D&C 100:16.) Em todo o mundo existem pessoas boas, prestando serviço caridoso. Certa vez, quando estávamos visitando nossos missionários e membros na Nigéria, nosso veículo quebrou numa estrada solitária. Finalmente um carro apareceu e dois jovens nigerianos se aproximaram de nós. “O Senhor nos mandou parar e ajudar”, disseram eles. E certamente nos ajudaram, pois sabiam o que o Senhor queria que fizessem. O mesmo deveria acontecer conosco.

Décimo, o servir nos ajuda a conhecer o Salvador, pois “como pode um homem conhecer o mestre a quem não serviu?” (Mosiah 5:13.) Quando nos aprofundamos no serviço em benefício do próximo, encontramos nosso eu espiritual e nos aproximamos do Mestre. Ao visitar a Missão Califórnia Sacramento há poucos meses, fiquei impressionado ao conhecer um jovem élder missionário, cego. Ele se envolvera completamente na obra missionária, apesar de suas necessidades especiais, e seu espírito parecia emitir uma luz brilhante.

De todas essas formas, o serviço abnegado nos aproxima de Cristo, aumenta nossa espiritualidade e faz o mesmo pelos outros. Esse serviço está ajudando a preparar um povo digno para, no devido tempo do Senhor, redimir Sião.

Como muitos de vós deveis saber, logo depois da última conferência geral de outubro, foi descoberto que eu estava seriamente atacado de câncer em seu último estágio. Eu gostaria de expressar meu amor e gratidão pelas orações e bênçãos em meu benefício, e pela preocupação amorosa que me foi demonstrada, ocasionando o milagre da recuperação. Ao agradecer cada novo dia de vida, expresso também gratidão pelas oportunidades de serviço — passadas, presentes e futuras.

O que há de mais maravilhoso em servir é que o serviço nunca termina. Como diz o Presidente Benson: “Portanto, sirvamos uns aos outros com amor fraternal, nunca nos cansando do que de nós é requerido, sendo pacientes, perseverantes e generosos.” (So Shall Ye Reap, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1960, pp. 173-174.)

Sim, quando prestamos serviço cristão, crescemos espiritualmente, “se (despojando) do homem natural, tornando-se santo” (Mosiah 3:19) — ou seja, aquele que tenta honestamente seguir o Salvador procura fazer o que ele deseja. Como é maravilhoso sentir o Espírito do Senhor derramando-se mais abundantemente sobre nós, quando carregamos os fardos uns dos outros, compartilhando e chorando com aqueles que necessitam. (Vide Mosiah 18:8–10.)

Que esta seja a nossa alegre tarefa, eu oro humildemente, prestando testemunho pessoal de Jesus Cristo, o Senhor ressuscitado, de sua Igreja restaurada, e de seu profeta vivo, em nome de Jesus Cristo, amém.