Liahona
Meu fiel conselheiro
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Envelhecer com fé

Meu fiel conselheiro

Quando se tratava de serviço, Larry nunca enxergou a idade como empecilho.

Ilustrações de Carolyn Vibbert; fotografia gentilmente cedida pela família Morgan

Quando minha família voltou a morar na cidade onde me criei, encontramos uma comunidade em transição. Antes conhecido como um lugar habitado por famílias jovens, o bairro agora contava com muitas viúvas e viúvos, pais cujos filhos tinham crescido e ido embora, e um pequeno, mas crescente número de famílias jovens que estavam se mudando para lá à medida que casas ficavam disponíveis.

Devido às mudanças demográficas, os limites das alas foram reorganizados. Criou-se uma nova ala com partes de outras, e fui chamado bispo. Eu tinha alguns dias para pensar em quem escolher como conselheiros. O primeiro nome veio rapidamente e o Espírito o confirmou, porém eu não tinha certeza de quem deveria ser o outro.

Pensei em vários homens mais jovens da nova ala, mas não os conhecia bem. Pareciam-me mais necessários na organização dos Rapazes.

Eu conhecia um homem mais velho, Larry Morgan, que morava na vizinhança havia muito tempo. Na verdade, ele tinha sido líder dos jovens quando eu era adolescente. Agora ele tinha 76 anos. Senti-me compelido a conversar com ele. “Talvez ele me ajude a conhecer melhor algumas pessoas com quem ainda não convivi”, pensei.

Ele estava na entrada da garagem quando cheguei em sua casa e, sem uma palavra, eu soube que Larry era para ser o outro conselheiro. Conversamos por alguns minutos e, ao retornar para casa, telefonei para o presidente da estaca. No domingo seguinte, o bispado foi apoiado com Larry como segundo conselheiro.

Larry tinha a fala mansa e modos comedidos, mas, quando dizia algo, as pessoas o ouviam. Tinha também uma fé inabalável no Senhor. Logo aprendi a confiar em seus conselhos.

“Nós os visitaremos”

Os mestres familiares (hoje conhecidos como irmãos ministradores) esmeravam-se nas visitas às viúvas e aos viúvos e mantinham o bispado a par de sua situação. Hoje em dia, boa parte da responsabilidade pelo bem-estar dessas pessoas fica com o quórum de élderes e a Sociedade de Socorro, mas, na ocasião, senti ser meu dever visitá-los também. Por isso, fiz o esforço de visitar um ou dois por semana. Naquele ritmo, ia levar quase um ano para ir à casa de todos. Como minha jovem família também precisava de atenção, senti que meu tempo era insuficiente.

Debati isso na reunião de bispado e Larry deu uma ideia.

Larry e Elizabeth Morgan

Ilustrações de Carolyn Vibbert; fotografia gentilmente cedida pela família Morgan

“Que tal minha mulher e eu ajudarmos?”, propôs. “Temos o dia inteiro para fazer visitas. Elizabeth e eu não vamos substituir os mestres familiares, apenas dar um pouco mais de atenção a quem necessitar. Informaremos a eles que você está pensando neles.”

Depois disso, meu fiel conselheiro e sua esposa fizeram inúmeras visitas e alegraram muitas almas. Eles aliviaram meu fardo consideravelmente.

“Que idade tem o profeta?”

Certa vez, a ala precisou de um professor de doutrina do evangelho na Escola Dominical. Como bispado, oramos e examinamos vários nomes com o presidente da Escola Dominical, mas não sentimos uma confirmação sobre o que fazer. Mais uma vez, Larry teve uma ideia. “Que tal a irmã Ila Gibb?” Ila tinha uns 70 e poucos anos, mas todos sentimos que ela seria uma boa professora. O presidente da Escola Dominical concordou.

A irmã Gibb riu quando Larry e eu fizemos o chamado. “Sou velha”, respondeu ela. “É melhor me deixarem de molho.”

Quando Larry disse: “Irmã Gibb, que idade…”, pensei que ele ia citar a si mesmo como exemplo. Ele não o fez, mas perguntou com bondade: “Que idade tem o profeta?” Na época, o presidente Gordon B. Hinckley (1910–2008) tinha acabado de se tornar presidente da Igreja aos 84 anos.

“Sei aonde você quer chegar”, respondeu Ila. “Acho que nunca se é velho demais para servir.” E, pelos três anos seguintes, ela serviu e foi uma professora de doutrina do evangelho maravilhosa.

Hoje tenho 69 anos e sempre penso em Larry e na fé que demonstrou ao aceitar o chamado de conselheiro em um bispado aos 76 anos de idade. Ao recordar seu serviço, sinto-me inspirado a pensar que ainda posso fazer muito — assim como tantos de nós com 60, 70 e 80 anos — para continuar a edificar o reino de Deus.