Capítulo 17: O Sermão da Montanha
    Notas de rodapé

    Capítulo 17

    O Sermão da Montanha

    Numa ocasião muito próxima à ordenação dos Doze, Jesus pronunciou um discurso memorável que, devido ao local onde foi feito, se tornou conhecido como o Sermão da Montanha. Sobre ele, Mateus apresenta um relato extenso, que ocupa três capítulos do primeiro evangelho. Lucas dá-nos uma sinopse menor.a As variações circunstanciais que aparecem nos dois registros são de menor importância.b É ao sermão em si que devemos, com proveito, dedicar nossas considerações. Lucas introduz, em diferentes partes de seus escritos, muitos dos preciosos preceitos apresentados no sermão registrado como discurso ininterrupto no Evangelho de Mateus. Em nosso presente estudo, seremos orientados principalmente pelo relato deste último. Algumas partes deste amplo sermão foram dirigidas expressamente aos discípulos que tinham sido ou seriam chamados ao apostolado, conseqüentemente sendo requerido deles que renunciassem a todos os interesses mundanos pela obra do ministério. Outras partes foram e podem ser de aplicação geral. Jesus havia subido à encosta da montanha, provavelmente para escapar às multidões que O comprimiam nas cidades ou fora delas.c Os discípulos reuniram-se ao Seu redor e ali Se sentou Ele e os ensinou.d

    As bem-aventurançase

    As sentenças iniciais são ricas em bênção, e a primeira parte do discurso é dedicada a uma explicação do que constitui a genuína bem-aventurança; a lição foi apresentada de maneira simples e inequívoca, pelo método da aplicação específica, a cada um dos abençoados, sendo-lhes prometido o galardão de gozar de condições diretamente opostas àquelas sob as quais sofreram. As bênçãos especificadas pelo Senhor, nesta ocasião, foram designadas mais tarde, na literatura, como as Bem-aventuranças. Os pobres de espírito serão enriquecidos como herdeiros legítimos do reino dos céus; os que choram serão consolados, pois perceberão o propósito divino em seu pesar, e unir-se-ão novamente aos seres amados dos quais foram separados; os mansos, que preferem ser espoliados a pôr em risco suas almas em contendas, herdarão a Terra; os que têm fome e sede de justiça serão fartamente alimentados; os que demonstram misericórdia serão julgados com misericórdia; os puros de coração serão admitidos à presença de Deus; os pacificadores, que se esforçam por salvar a si mesmos e aos seus semelhantes dos conflitos, serão contados entre os filhos de Deus; os que sofrem perseguição por causa de justiça herdarão as riquezas do reino eterno. Aos discípulos, o Senhor falou diretamente, dizendo: “Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós”.f

    É evidente que as bênçãos especificadas e a felicidade que elas contêm só serão alcançadas plenamente após a morte, embora a alegria, que se sente pela consciência de se estar vivendo em retidão, constitua, ainda neste mundo, valiosa recompensa. Um elemento importante nesta esplêndida elucidação do verdadeiro estado de bem-aventurança é a diferença entre o prazer e a felicidade.g O mero prazer é, na melhor das hipóteses, passageiro; felicidade é duradoura, pois sua lembrança renova a alegria. A felicidade suprema nao é uma realização terrena; a prometida “plenitude de gozo” jaz no além-túmulo e na ressurreição.h Enquanto o homem existe em seu estado mortal, necessita de algumas das coisas do mundo; necessita de alimento e roupas e um lugar para se abrigar; e além destas precisões essenciais, pode desejar legitimamente as facilidades da educação, as vantagens de uma era progressista e aquilo que condiz com o refinamento e cultura; entretanto, todas estas coisas apenas auxiliam as realizações, e não constituem o fim para o qual o homem foi feito mortal.

    As bem-aventuranças prescrevem os deveres da vida mortal como preparação para uma existência superior, ainda que futura. No reino dos céus, duas vezes mencionado nesta parte do discurso do Senhor, encontram-se verdadeiros tesouros e felicidade inesgotável. O reino dos céus é o objetivo absoluto deste maravilhoso sermão; os meios para alcançar o reino e as glórias da cidadania eterna constituem as principais divisões do tratado.

    Dignidade e Responsabilidade no Ministérioi

    A seguir, de maneira particularmente direta, o Mestre procedeu à instrução daqueles a quem transmitiria a responsabilidade do ministério, como Seus representantes comissionados. “Vós sois o sal da terra”, disse Ele. O sal é o grande conservativo e, como tal, tem sido de grande utilidade desde os tempos antigos. O sal foi prescrito, na lei mosaica,j como adição indispensável a todas as ofertas de carne. Bem antes do tempo de Cristo, fora atribuído ao uso do sal um simbolismo de fidelidade, hospitalidade e convênio.k Para ser útil, o sal deve ser puro; para ter qualquer virtude conservadora, deve ser sal verdadeiro e não produto de alteração química ou de mistura terrosa, por meio da qual venha a perder o seu “sabor”; e sem valor algum,l serviria apenas para ser jogado fora. Contra tal mudança de fé, contra tal mistura com os sofismas, pretensas filosofias e heresias da época, foram os discípulos especialmente advertidos. Depois, mudando a imagem, Jesus comparou-os à luz do mundo e impôslhes o dever de conservarem essa luz diante do povo, tão proeminentemente quanto uma cidade no cimo da montanha, que é vista de todas as direções, uma cidade que não pode ser escondida. De que serviria uma candeia acesa, se estivesse escondida sob um barril ou uma caixa? “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens”, disse Ele, “para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.”

    Para que eles não cometessem engano quanto à relação entre a antiga lei e o evangelho do reino que Ele estava elucidando, Jesus assegurou-lhes que não viera para destruir a lei ou anular os ensinamentos e predições dos profetas, mas para cumpri-los, e para estabelecer aquilo para o que os acontecimentos dos séculos passados tinham sido apenas uma preparação. Pode-se dizer que o Evangelho destruiu a lei mosaica, tanto quanto a semente é destruída no crescimento da nova planta, tanto quanto o botão é destruído pelo desabrochar da flor em sua plenitude, tanto quanto a infância e a juventude ficam para trás com o despontar da maturidade. Nem um jota ou um til da lei seria invalidado. Analogia de maior efeito do que esta não poderia ser concebida; o jota e o til eram pequenos sinais literários da escrita hebraica. Para o nosso objetivo atual, podemos considerá-los como o equivalente ao pingo do “i” ou ao traço que corta o “t”; a palavra “jota”, do grego “iota”, também significa gota, pingo, bocado. Assim, nem mesmo o menor dos mandamentos poderia ser violado sem punição; entretanto, os discípulos foram alertados, para que cuidassem de não cumprir os mandamentos à maneira dos escribas e fariseus, cuja observância da lei compreendia a exterioridade cerimonial, carecendo dos elementos fundamentais da genuína devoção; pois foi-lhes assegurado que mediante tal procedimento insincero, não poderiam, “de modo nenhum, entrar no reino dos céus.”

    A Lei Substituída Pelo Evangelhom

    A seção seguinte do sermão trata da superioridade do Evangelho de Cristo em relação à lei de Moisés, e compara os requisitos de ambos em casos específicos. Enquanto a lei proibia o assassínio e provia um castigo justo para o crime, Cristo ensinou que ceder à ira, o que poderia levar à violência ou mesmo ao assassínio, já constituiu pecado. Usar, malevolamente, um epíteto ofensivo, como “raca”, tornava o ofensor passível de punição por decreto do conselho, e aquele que chamasse alguém de louco transformava-se em “réu do fogo do inferno”. Estas designações censuráveis eram consideradas, na época, especialmente ignominiosas e expressavam, portanto, intenção maligna. A mão do assassino é impelida pelo ódio de seu coração. A lei determinava um castigo para a ação; o evangelho censurava a paixão funesta em sua fase incipiente. Para realçar este princípio, o Mestre mostrou que a ira não devia ser expiada por meio de um sacrifício material; e que, se alguém levasse uma oferta ao altar e se lembrasse de que estava brigado com seu irmão, deveria ir imediatamente reconciliar-se com ele, mesmo que tal ação interrompesse o cerimonial, o que constituía incidente particularmente grave segundo os sacerdotes. Diferenças e contendas deviam ser resolvidas sem demora.

    A lei proibia o terrível pecado do adultério; Cristo afirmou que o pecado começava no olhar voluptuoso, no pensamento sensual; e acrescentou que era melhor tornar-se cego do que olhar com cobiça; que era melhor perder a mão do que obrar com ela iniquamente. E abordando a questão do divórcio, em relação ao qual havia demasiada liberdade naquela época, Cristo declarou que, a não ser pela grave ofensa da infidelidade aos votos matrimoniais, nenhum homem poderia divorciar-se de sua esposa sem se tornar ele mesmo um ofensor, pois que, casando-se ela novamente enquanto ainda não corretamente divorciada, estaria cometendo pecado, assim como o homem com o qual contraísse novo matrimônio.

    Desde os tempos antigos, fora proibido fazer juramentos, exceto em convênios solenes com o Senhor; mas na dispensação do evangelho, o Senhor proibiu ao homem qualquer juramento, explicando também a abominação dos juramentos vãos. Grandemente pecaminoso era, e é jurar pelo céu, que é a morada de Deus, ou pela Terra, que é sua criação, e por Ele chamada de escabelo de Seus pés; ou por Jerusalém, considerada por aqueles que juravam como a cidade do grande Rei; ou pela própria cabeça, que é parte do corpo que Deus criou. Moderação no falar, firmeza e simplicidade foram recomendadas, e excluídas as imprecações, blasfêmias e juramentos.

    Desde os tempos antigos, o princípio de represália era tolerado, consentindo-se que o indivíduo injuriado exigisse ou infligisse um castigo da mesma natureza da ofensa. Assim, exigia-se um olho pela perda de um olho, um dente por um dente, uma vida por uma vida.n Cristo, ao contrário, ensinou que seria melhor sofrer do que praticar o mal, chegar mesmo à submissão sem resistência sob certas condições. Suas vigorosas ilustrações — que, se alguém fosse golpeado numa face, deveria voltar a outra ao golpeador; que, se algum homem tomasse a túnica de outro por litígio, o que perdesse deveria permitir que lhe levassem a capa também; que, se alguém fosse obrigado a conduzir a carga de outro por uma milha, deveria, de boa vontade, carregá-la por duas milhas; que aquele a quem for solicitado, deveria prontamente dar ou emprestar — não devem ser interpretadas como recomendação de subserviência a exigências injustas, nem como ab-rogação do princípio de defesa própria. Estas instruções foram dirigidas principalmente aos apóstolos, que iriam dedicar-se declaradamente à obra do reino, com exclusão de todos os outros interesses. Em seu ministério seria preferível sofrer dano material, afronta pessoal e imposições sob as mãos de opressores iníquos, do que prejudicar a eficiência e erguer obstáculos ao trabalho, por meio de resistência e contendas. Para estes, as Bem-aventuranças tinham aplicação particular — Bem-aventurados os mansos, os pacificadores, e aqueles que são perseguidos por causa da justiça.

    Desde os tempos antigos se dizia: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo;o mas o Senhor ensinou: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem.” Esta era uma doutrina nova. Israel jamais fora instada a amar seus inimigos. A amizade pelos adversários não tivera lugar no código mosaico: na verdade, o povo aprendera a considerar os inimigos de Israel como inimigos de Deus; e agora, Jesus requeria que se estendesse a estes, tolerância, misericórdia e até mesmo amor! Complementou esses requisitos com uma explicação — por meio do caminho por Ele indicado, os homens podem tornar-se filhos de Deus, à semelhança de Seu Pai Celestial, conforme o grau de sua obediência; pois o Pai é bondoso, longânimo e tolerante, fazendo com que o Seu sol se levante sobre os maus e sobre os bons, e com que a chuva caia para benefício tanto dos justos quanto dos injustos.p E ainda mais, que valor tem o homem que dá somente quando recebe, que cumprimenta quando é saudado com respeito, que ama somente quando é amado? Até mesmo os publicanosq agiam desse modo. Dos discípulos de Cristo muito mais era esperado. A admoestação final dessa parte do discurso é um sumário válido e completo de tudo o que a precedeu: “ Sede vós pois perfeitos, como é perfeito vosso Pai que está nos céus.”r

    Sinceridade de Propósitos

    Sobre a questão das esmolas, o Mestre fez uma advertência, condenando a ostentação e exibições hipócritas. Dar aos necessitados é louvável; mas dar com o fito de receber louvor dos homens é hipocrisia extrema. Atirar esmolas aos pobres, depositar ofertas nas arcas do tesouro do templo, para serem vistas pelos homens,t e outras demonstrações de afetada liberalidade estavam em moda entre certas classes, no tempo de Cristo; e o mesmo espírito manifesta-se hoje em dia. Muitos há que fazem soar a trombeta, quiçá pelas colunas da imprensa, ou por outros meios publicitários, chamando a atenção para seus donativos, de modo que recebam a glória dos homens — para conseguirem um favor político, para aumentarem seu negócio ou influência, para obterem algo que, em sua estimativa, vale mais do que aquilo a que renunciariam. Com agudeza lógica, o Mestre demonstrou que tais doadores já têm sua recompensa. Receberam o que pretendiam; o que mais podem tais homens exigir ou esperar? “Mas”, disse o Senhor, “quando tu deres esmola, não saiba a tua mao esquerda o que faz a direita; para que a tua esmola seja dada ocultamente: e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará publicamente.”

    Com este mesmo espírito, o Pregador denunciou as orações hipócritas — palavras apenas pronunciadas, mas não sentidas. Havia muitos que procuravam lugares públicos, nas sinagogas e até mesmo nas esquinas de vias públicas para serem vistos e ouvidos pelos homens, enquanto faziam suas orações; recebiam a publicidade que buscavam; o que mais podiam esperar? “Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.” Aquele que ora realmente — ora tão semelhantemente quanto possível à maneira que Cristo orou, ora em comunhão real com Deus a quem a oração é dirigida — busca retiro, reclusão, isolamento; se as circunstâncias o permitirem, ele se retirará para o seu aposento, e fechará a porta para que ninguém o interrompa. Ali ele poderá orar realmente, se o espírito de oração estiver em seu âmago, e esta é a maneira recomendada pelo Senhor. As súplicas prolixas, cheias de repetições e redundâncias como as usadas pelos pagãos, que acreditavam agradar suas divindades com seu falar excessivo, foram proibidas.

    É bom saber que a oração não é composta de palavras, palavras que podem falhar ao expressarem o que se deseja dizer, palavras que muitas vezes ocultam incongruências, palavras que não têm mais profundidade do que os órgãos físicos da fala, palavras que podem ser pronunciadas para impressionar ouvidos mortais. O mudo pode orar, e com a eloqüência que prevalece no céu. A oração é constituída de pulsações de coração e de anseios justos da alma, de súplica baseada na consciência da necessidade, de contrição e desejo puro. Se houver um homem que nunca tenha realmente orado, esse homem é um ser apartado da ordem do divino na condição humana, um estranho na família dos filhos de Deus. A oração eleva o suplicante. Deus, sem as nossas orações, seria Deus. Mas nós, sem a oração não podemos ser admitidos no Reino de Deus. Assim falou o Senhor: “vosso Pai sabe do que tendes necessidade, mesmo antes de que o peçais”.

    E então deu Ele àqueles que buscavam sabedoria a Seus pés uma oração modelo, dizendo: “Portanto, vós orareis assim:

    ‘Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome’.

    Com isso, reconhecemos a relação que existe entre nós e nosso Pai Celestial, e, enquanto reverenciamos Seu grande e santo nome, nós nos valemos do inestimável privilégio de nos aproximarmos Dele, não tanto com o pensamento de Sua infinita glória como Criador de tudo o que existe, Ser Supremo de toda a criação, quanto com o sentimento amoroso de que Ele é o Pai e nós os filhos. É esta a primeira escritura bíblica que contém instrução, consentimento ou garantia para tratarmos Deus diretamente como “Nosso Pai”. Nela está expressa a reconciliação que a família humana, desviada pelo pecado, pode obter, através dos meios providos pelo Filho bem amado. Esta instrução é igualmente explícita quanto à fraternidade existente entre Cristo e o gênero humano. Como Ele orou, assim oramos nós ao mesmo Pai, como irmãos, sendo Cristo o primogênito.

    “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.” O reino de Deus deve ser um reino de ordem, em que a tolerância e o reconhecimento dos direitos individuais prevalecerão. Aquele que realmente ora para que venha tal reino, esforçar-se-á para apressar a Sua vinda, vivendo de acordo com a lei de Deus. Procurará manter-se em harmonia com a ordem do reino, sujeitando a carne ao espírito, o egoísmo ao altruísmo, e aprendendo a amar as coisas que Deus ama. Tornar a vontade de Deus suprema na Terra como nos céus, é aliar-se a Ele nos assuntos da vida. Muitos crêem que, como Deus é onipotente, tudo o que existe, existe pela Sua vontade. Tal suposição é irracional, falsa e não tem base escriturística.u A iniqüidade não está em harmonia com o seu desiderato; a fraude, a impostura, o vício e o crime não são dons de Deus ao homem. Pela Sua vontade, estas abominações que se desenvolveram como deformidades odiosas na natureza humana e na vida serão extintas, e esta bênção será alcançada, quando, por sua própria escolha, sem renunciarem ou perderem o seu livre-arbítrio, os homens fizerem a vontade de Deus.

    “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. ” O alimento é indispensável à vida. Como necessitamos dele, devemos pedi-lo. É verdade que o Pai conhece as nossas necessidades antes que nós as mencionemos, mas, ao pedirmos, O estamos reconhecendo como Doador, e tornamo-nos humildes, gratos, contritos e dependentes através de nossa súplica. Embora o sol brilhe e a chuva caia sobre os justos e injustos, o homem reto é grato por estas bênçãos; o ímpio recebe os benefícios como algo natural, com a alma incapaz de sentir gratidão. A faculdade de sentir-se agradecido é uma bênção, pela qual também devemos ser gratos. Somos ensinados a orar dia a dia pelo alimento de que necessitamos, não por um grande estoque que possamos guardar para um futuro distante. Israel, no deserto, recebia uma provisão diária de maná,v tendo assim conhecimento de sua dependência daquele que o fornecia. É mais fácil, para o homem que tem muito, esquecer sua dependência, do que para aquele que precisa pedir dia após dia.

    “Eperdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. ” Aquele que assim pode orar, absolutamente sincero e sem duplicidade de propósito, merece perdão. Nesta descrição de uma súplica pessoal, somos ensinados a esperar apenas aquilo que merecemos. Os egoístas e pecadores regozijam-se quando isentos de suas dívidas legais, mas, sendo egoístas e pecadores, exigem o último vintém daqueles que lhes devem.w O perdão é uma pérola muito preciosa para ser lançada aos pés dos inclementes;x e, sem a sinceridade que emana de um coração contrito, nenhum homem pode legitimamente clamar misericórdia. Se outros nos devem, seja em dinheiro ou espécie, como sugerido por “dívidas e devedores”, ou através de uma violação dos nossos direitos, incluída no termo mais amplo “ofensa”, a maneira pela qual nos avimos com eles será rigorosamente considerada no julgamento de nossas próprias faltas.

    “E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal. ” A primeira parte desta súplica tem ocasionado comentários e contendas. Não devemos pensar que Deus induziria um homem à tentação, exceto, talvez, por meio de um consentimento sensato, para testá-lo e prová-lo, assim proporcionando-lhe a oportunidade de vencer, o que resultaria em um acréscimo de força espiritual, único desenvolvimento verdadeiro no curso do progresso eterno do homem. Um dos propósitos, pelos quais os espíritos preexistentes foram providos de corpos e avançados para o estado mortal, foi “provaremos para ver se farão todas as coisas que o Senhor seu Deus lhes ordenar”.y O plano da mortalidade envolvia a certeza da tentação. O propósito da súplica parece ser o de que estejamos livres das tentações além do nosso fraco poder de resistência; de que não sejamos abandonados às tentações sem o amparo divino, o qual servirá de proteção na medida em que nossa livre escolha o permitir.

    Quão incongruente, pois, é ir, como muitos o fazem, a lugares onde se apresentam mais fortes as tentações a que somos mais suscetíveis; como o homem perseguido pela paixão pelas bebidas fortes, que assim ora e depois se dirige a um bar; ou o homem, cujos desejos são luxuriosos, e depois de orar desta maneira, encaminha-se a lugares onde a lascívia impera; ou o desonesto, que, não obstante ore, se coloca em local onde sabe que terá a oportunidade de roubar. Podem tais almas ser senão hipócritas, ao pedirem a Deus que as livre das iniqüidades que buscaram? A tentação atravessará nosso caminho sem que a procuremos, e o mal se apresentará até mesmo quando mais desejarmos fazer o bem. Para nos libertarmos desse perigo, podemos orar com justa esperança e firmeza.

    “Porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém. ” Reconhecemos aqui a supremacia do Ser a quem no início nos dirigimos como Pai. Ele é o Todo-Poderoso no qual, e pelo qual, vivemos, e nos movemos e existimos.z Afirmar independência de Deus constitui sacrilégio e blasfêmia; reconhecê-lo é um dever filial e uma admissão justa de Sua majestade e domínio. A Oração do Senhor é encerrada com um solene “Amém”, que sela o documento da súplica, atestando sua autenticidade como expressão verdadeira da alma do suplicante, e reunindo em uma só palavra o significado de tudo o que foi dito ou pensado. Assim seja é o significado literal de Amém.

    Da oração, Cristo passou para o assunto do jejum, dando ênfase ao fato de que, para ter valor, o jejum deve ser uma questão entre o homem e seu Deus, e não entre o homem e sua espécie. Era comum, no tempo do Senhor, verem-se homens apregoando sua abstinência como propaganda de sua suposta piedade.a Para que pudessem parecer abatidos e em prostração, os hipócritas apresentavam-se com o rosto desfigurado, cabelos desgrenhados, olhando ao redor com semblantes tristonhos. Sobre estes, disse o Senhor: “Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.” Os fiéis foram aconselhados a jejuar secretamente, sem exibicionismo, somente para Deus, que vê em oculto e que recompensará seu sacrifício e oração.

    Tesouros da Terra e do Céub

    A seguir, comparou a natureza transitória dos bens materiais às riquezas duradouras da eternidade. Muitos havia e muitos há, cujo principal esforço na vida tem sido acumular tesouros na Terra, a simples posse dos quais acarreta responsabilidades, cuidados e preocupações. Algumas espécies de riqueza sofrem a ameaça das traças, como as sedas e os veludos, os cetins e as peles; outras são destruídas pela corrosão e ferrugem — a prata, o cobre, o aço; e ainda, estas e outras tornam-se, freqüentemente, pilhagem de ladrões. Infinitamente mais preciosos são os tesouros de uma vida justa, a fortuna dos bons atos, cujo registro é mantido nos céus, onde as riquezas das boas realizações estão a salvo das traças, da ferrugem e dos ladrões. Veio, em seguida, a incisiva lição: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”

    A luz espiritual é apresentada como maior do que qualquer iluminação material. Que proveito pode tirar o homem, que é cego, da mais brilhante luz? É o olho físico que discerne a luz da vela, da lâmpada ou do sol; e o olho espiritual vê pela luz espiritual; se o olho espiritual do homem for simples, isto é, puro e não turvo pelo pecado, ele se encherá da luz que lhe mostrará o caminho que conduz a Deus. Ao passo que, se o olho de sua alma for mau, ele será como alguém que vive nas trevas. Uma advertência solene expressa-se no seguinte sumário: “Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas.” Aqueles a quem o Mestre se dirigia, haviam recebido a luz de Deus. A grande fé que já haviam professado era prova disto. Afastassem-se eles da grande empresa na qual se lançaram, e a luz se perderia, sendo a escuridão resultante mais densa do que aquela da qual se haviam libertado.c Não deveria haver qualquer indecisão por parte dos discípulos. Nenhum deles poderia servir a dois senhores; aquele que afirmasse fazê-lo, estaria sendo desonesto para com um ou para com o outro. Seguiu-se então outra profunda generalização: “Não podeis servir a Deus e a Mamon.”d

    Foi-lhes dito que deviam confiar no Pai quanto ao que necessitassem, não se preocupando com alimento, bebida, roupas ou mesmo com a própria vida, pois tudo isso lhes seria suprido por meios fora de seu alcance. Com a sabedoria de um Mestre de mestres, o Senhor apelou aos seus sentimentos e compreensão, citando lições da natureza, em linguagem tão simples, mas de tão vigorosa eloqüência, que ampliá-la ou resumi-la seria empanar-lhe o brilho:

    “Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.”

    A fraqueza da fé foi reprovada, lembrando-lhes o Senhor que o Pai, que se preocupa até pela erva do campo, que um dia existe e no outro é lançada ao forno, não se esqueceria dos Seus. E o Mestre acrescentou: “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. ”

    A Hipocrisia Condenada Mais Uma Veze

    Os homens têm a tendência de julgar seus semelhantes e louvar ou censurar sem a devida consideração pelos fatos ou circunstâncias. O Mestre desaprovou o julgamento parcial ou não justificado. “Não julgueis para que não sejais julgados”, advertiu Ele, pois cada um será julgado segundo os seus próprios padrões de julgamento. O homem que está sempre pronto a corrigir as faltas de seu irmão, a remover o argueiro do olho de seu vizinho, de modo que este enxergue as coisas como ele deseja, foi denunciado como hipócrita. O que é uma pequena nódoa na visão de seu vizinho, comparada à trave que obscurece seu próprio olho? Os séculos que transcorreram desde os tempos de Cristo até os nossos dias teriam feito com que nos tornássemos menos ansiosos de curar a visão imperfeita daqueles que não podem ou não querem adotar nosso ponto de vista, e ver as coisas como nós a vemos?

    Estes discípulos, alguns dos quais em breve ministrariam com a autoridade do Santo Apostolado, foram advertidos contra a difusão indiscreta e indiscriminada das verdades e preceitos sagrados que lhes confiou o Mestre. Seu dever consistiria em discernir o espírito daqueles a quem se propunham ensinar, instruindo-os com sabedoria. As palavras do Mestre foram firmes: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem, com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”f

    Promessa e Reafirmaçãog

    Seguiu-se a preciosa promessa de que suas súplicas seriam ouvidas e atendidas — pedissem e receberiam; batessem e a porta lhes seria aberta. Naturalmente, o Pai Celestial não seria menos atencioso do que um pai humano; e qual o pai que, quando seu filho lhe pede pão, lhe dá uma pedra? ou uma serpente, quando o filho pede um peixe? Com muito mais certeza, Deus concederia boas dádivas àqueles que pedissem segundo sua necessidade, tendo fé. “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.”

    O caminho reto e estreito pelo qual o homem pode andar em santidade foi apresentado em contraste com a estrada larga que leva à destruição. Os falsos profetas, como os que havia entre o povo, deviam ser evitados, pois fingiam-se de ovelhas, quando na realidade eram lobos vorazes. Estes seriam reconhecidos por suas obras e pelos resultados conseqüentes, da mesma forma que uma árvore é considerada boa ou má, de acordo com seus frutos. Um espinheiro não dá uvas, nem os abrolhos dão figos. Por outro lado, é tão impossível uma boa árvore produzir maus frutos, quanto uma árvore inútil e corrupta produzir bons frutos.

    A religião é mais do que um reconhecimento ou voto de fé emitido pelos lábios. Jesus afirmou que, no dia do julgamento, muitos clamariam lealdade a Ele, dizendo: “Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.” Somente pela obediência à vontade do Pai se obtém a graça salvadora do Filho. Pretender falar e agir em nome do Senhor sem ter recebido a autoridade que somente Ele pode conferir é acrescentar sacrilégio à hipocrisia. Nem mesmo os milagres que realizaram servirão de apoio às reivindicações daqueles que pretendem ministrar as ordenanças do evangelho sem possuir a autoridade do Santo Sacerdócio.h

    Ouvir e Agiri

    O Sermão da Montanha atravessou os séculos, sem que houvesse outro que se lhe comparasse. Nenhum homem mortal jamais pronunciou um discurso de tal monta. O espírito de sinceridade e energia que domina a prédica opõe-se à profissão de fé vã e negligente. Nas frases finais, o Senhor mostrou a inutilidade de apenas ouvir-se, em contraste com a eficácia da ação. Aquele que ouve e pratica é comparado ao homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e, a despeito das chuvas, das enchentes e dos vendavais, a casa se manteve firme. Aquele que ouve e não obedece, é comparado ao insensato que construiu sua casa sobre a areia; e quando desceram as chuvas, sopraram os ventos, ou vieram as enchentes, caiu, e foi grande a sua queda.

    Tais doutrinas assombraram o povo, pois, para Seus ensinamentos singulares, o Pregador não havia citado outra autoridade senão a Sua própria. Suas pregações estavam livres da citação de quaisquer precedentes rabínicos — a lei fora substituída pelo Evangelho: “Porquanto os ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas.”

    Notas do Capítulo 17

    1. Época e Local do Sermão da Montanha. — Mateus logo de início menciona o discurso, colocando-o mesmo antes de seu próprio chamado, na alfândega — chamado esse que certamente precedeu a ordenação dos Doze como um grupo — e antes de registrar muitos ditos e atos do Senhor, já tratados nestas páginas. O sumário parcial que Lucas faz da obra aparece após o relato da ordenação dos apóstolos. Mateus afirma que Jesus subira à montanha e Se assentara, enquanto falava; o registro de Lucas sugere terem Jesus e os Doze primeiramente descido da montanha até uma planície, onde foram encontrados pela multidão, tendo Jesus pregado de pé. Os críticos que se comprazem nas insignificâncias, freqüentemente negligenciando os assuntos vitais, tentaram dar relevo a essas variações aparentes. Não parece provável que Jesus tenha pregado demoradamente na montanha aos discípulos presentes, dentre os quais havia escolhido os Doze, e que depois de haver terminado Seu discurso, tenha descido com eles até a planície onde a multidão se reunira, repetindo, então, partes do que havia dito antes? A relativa amplitude do relato de Mateus pode dever-se ao fato de que ele, como um dos Doze, estivesse presente ao primeiro e mais extenso discurso.

    2. Prazer Versus Felicidade. — “Estamos atravessando uma era em que predomina a busca do prazer, e os homens estão perdendo sua sanidade numa corrida louca atrás de sensações que apenas excitam e desapontam. Nestes dias de falsificações, fraudes e cópias inferiores, o demônio está mais ocupado do que nunca no decurso da história humana, produzindo prazeres, tanto antigos quanto novos; e estes, ele põe à venda de maneira encantadora, rotulados falsamente de “Felicidade”. Neste ofício de destruição de almas, não há outro igual. Ele tem séculos de experiência e, com sua habilidade, controla o mercado. Ele aprendeu todos os truques do negócio e sabe como chamar a atenção e despertar o desejo de seus fregueses. Acondiciona sua mercadoria em pacotes coloridos, amarrando-a com cordéis e fitas espalhafatosas. E a multidão aflui às suas liquidações, empurrando-se e comprimindo-se em sua loucura para comprar.

      Siga um dos compradores ao sair alegremente com seu pacote vistoso, e observeo enquanto o abre. O que encontra ele no invólucro dourado? Esperava encontrar uma felicidade perfumada, mas encontra apenas um tipo inferior de prazer, cujo cheiro é nauseante.

      A felicidade inclui tudo o que é realmente desejável e valioso no prazer, e muito mais. A felicidade é ouro puro, o prazer latão dourado que se oxida na mão e logo se transforma em azinhavre venenoso. A felicidade é um diamante genuíno que, em bruto ou lapidado, brilha de maneira inimitável; o prazer é imitação que brilha apenas quando artificialmente adornada. A felicidade é como o rubi, vermelho como o sangue do coração, duro e resistente; o prazer, como o vidro manchado, frágil, quebradiço e de beleza transitória.

      A felicidade é alimento verdadeiro, sadio, nutritivo e doce; fortalece o corpo e gera energia para a ação física, mental e espiritual. O prazer não passa de um estimulante enganoso que, como a bebida alcoólica, faz a pessoa pensar que está forte, quando na realidade está debilitada; faz com que ela pense que está bem, quando, na verdade, está atacada de moléstia fatal.

      A felicidade não deixa um gosto amargo, não ocasiona depressão posterior; não exige arrependimento, não causa pesar, não traz remorso. O prazer, com freqüência, torna necessário o pesar, a contrição e a dor, e, se levado ao extremo, causa extermínio e aviltamento.

      A felicidade verdadeira é vivida muitas vezes na memória, sempre renovando o bem original. Um momento de ímpio prazer pode deixar uma dor aguda que, como um espinho na carne, se transforma em fonte constante de angústia.

      A felicidade não é companheira da frivolidade nem da alegria irresponsável. Ela brota das fontes profundas da alma, e muitas vezes é acompanhada de lágrimas. Você nunca ficou tão feliz que sentisse necessidade de chorar? Eu já.” — De um artigo do autor, publicado em The Improvement Era, vol. 17, n.° 2, págs. 172, 173.

    3. O Sal da Terra. — O “Comentário de Dummelow, sobre Mateus 5:13, afirma “O sal, na Palestina, sendo recolhido em estado de impureza, geralmente passa por tratamentos químicos nos quais o sabor é destruído, permanecendo, no entanto, a mesma aparência.” Talvez uma interpretação razoável da frase “se o sal for insípido” possa ser sugerida pelo fato de que o sal misturado a impurezas insolúveis pode ser dissolvido pela umidade, deixando o resíduo insolúvel apenas ligeiramente salgado. A lição apresentada no exemplo do Senhor é que o sal deteriorado não tem qualquer valor como preservador. A passagem correspondente no sermão de Jesus aos nefitas, depois da Sua ressurreição, diz: “Em verdade, em verdade vos digo que eu vos concedo serdes o sal da terra; mas, se o sal perder o seu sabor, com que será a terra salgada? O sal então para nada mais prestará, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.” (3 Néfi 12:13.)

    4. Referência aos Publicanos. — Observe-se que Mateus, que havia sido publicano, registra francamente essa referência (5:46, 47) à sua desprezada classe. Lucas escreve “pecadores” ao invés de “publicanos”. (6:32-34) Naturalmente, se os relatos dos dois escritores se referem a discursos diferentes (ver Nota 1, acima), ambos podem ser corretos. Mas notamos que Mateus se designa a si mesmo como publicano na lista dos apóstolos (10:3), enquanto os outros evangelistas delicadamente omitem o título pouco invejável (Marcos 3:18; Lucas 6:15).

    5. Perfeição Relativa — A advertência de nosso Senhor aos homens para que se tornem perfeitos, assim como o Pai é perfeito (Mateus 5:48) pode ser interpretada como indicativa da possibilidade de tal realização. E evidente, entretanto, que o homem não pode tornar-se perfeito na mortalidade, da maneira que Deus é perfeito como Ser sumamente glorificado. E possível, no entanto, o homem ser perfeito em sua esfera; num sentido análogo àquele em que as inteligências superiores são perfeitas em suas diferentes esferas; contudo, a relativa perfeição das mais baixas é infinitamente inferior à das mais altas. Um aluno universitário èm seus primeiros anos de faculdade pode ser perfeito; suas notas de aproveitamento-poderão ser cem por cento na escala de eficiência e realizações; entretanto, as honras dos alunos mais adiantados estão fora do seu alcance, e sua formatura é ainda remota, porém certa, se ele continuar fiel e dedicado até o fim.