Capítulo 20: ‘Cala-te, Aquieta-te’
    Notas de rodapé

    Capítulo 20

    “Cala-te, Aquieta-te”

    Incidentes que Antecederam a Viagem

    Quase no fim do dia em que Jesus, pela primeira vez, pregou à multidão em parábolas, Ele disse aos discípulos: “Passemos para o outro lado.”a A direção indicada era a margem leste do mar da Galiléia. Enquanto o barco estava sendo preparado, um certo escriba dirigiu-se a Jesus e disse: “Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores.” Até àquele momento poucos homens pertencentes à classe dominante haviam-se oferecido abertamente para aliar-se a Jesus. Estivesse o Mestre preocupado com a política e desejoso de conseguir aprovação oficial, esta oportunidade de ligar-se a uma pessoa influente quanto um escriba, teria recebido consideração cuidadosa, senão aceitação imediata. Mas Ele, que podia ler a mente e conhecer o coração dos homens, escolhia, em vez de aceitar. Ele chamara dos barcos pesqueiros homens com suas redes, indivíduos esses que daí por diante seriam Seus, e colocara entre os Doze um que pertencia à renegada classe dos publicanos. Mas conhecia-os, a cada um, e os escolhera de acordo com esse conhecimento. O evangelho era oferecido livremente a todos, mas a autoridade para oficiar como Seu ministro não era adquirida por solicitação; para o trabalho sagrado é preciso ser chamado por Deus.b

    Neste caso, Cristo conhecia o caráter do homem, e sem ferir seus sentimentos com uma recusa abrupta, indicou o sacrifício requerido de alguém que seguisse o Senhor onde quer que Ele fosse, dizendo: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” Como Jesus não possuía moradia fixa, mas dirigia-se para onde quer que o Seu dever o chamasse, era necessário que aqueles que O representavam — homens ordenados ou designados para o Seu serviço, estivessem prontos a renunciar ao prazer de seus lares e ao conforto das associações familiares, se assim o exigissem os deveres de seu chamado. Não lemos que o escriba houvesse insistido em sua oferta.

    Outro homem expressou o desejo de seguir ao Senhor, mas pediu tempo para enterrar seu pai. A este, Jesus disse: “Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos.” Alguns leitores acham que esta imposição foi muito severa, embora tal conclusão não seja bem justificada. Embora, evidentemente, não fosse correto o filho estar ausente dos funerais do pai em circunstâncias comuns, se aquele filho tivesse sido designado para uma obra cuja importância transcendesse todas as obrigações pessoais ou familiares, seu dever ministerial teria precedência, por direito. Ademais, o requisito indicado por Jesus não era maior do que o exigido de cada sacerdote durante seu termo de serviço ativo, nem mais penoso do que as obrigações do voto nazireu,c sob o qual muitos se colocavam voluntariamente. Os deveres do ministério, no reino, pertenciam à vida espiritual. Uma pessoa dedicada aos mesmos podia deixar que os que negligenciavam as coisas espirituais, espiritualmente mortos de maneira figurativa, enterrassem os seus mortos.

    Existe um terceiro exemplo: um homem que desejava tornar-se discípulo do Senhor pediu que, antes de assumir seus deveres, lhe fosse permitido ir a sua casa e despedir-se da família e dos amigos. A resposta de Jesus tornou-se proverbial na vida e na literatura: “Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.”d

    Pelo registro de Mateus, deduzimos que os dois primeiros candidatos a discípulos se ofereceram a nosso Senhor, estando Ele na praia ou no barco, pronto para iniciar Sua viagem vespertina, atravessando o lago. Lucas coloca esses dois incidentes numa relação diferente e acrescenta à oferta do escriba e do homem que primeiro desejava enterrar o pai, a do homem que pretendia ir a sua casa e depois retornar a Cristo. Os três casos podem, com proveito, ser considerados em conjunto, tenham ocorrido na noite daquele dia memorável, ou em ocasiões diferentes.

    Jesus Acalma a Tempestadee

    Jesus deu ordem para que atravessassem para a outra banda do lago, pois, provavelmente desejava repousar após os árduos labores do dia. Não perderam tempo em preparativos desnecessários: “levaram-no assim como estava, no barco”, e iniciaram a travessia sem demora. Mesmo na água, algumas pessoas mais ansiosas tentaram segui- Lo, pois alguns barcos pequenos, “barquinhos” como os descreve Marcos, acompanharam a embarcação na qual Jesus Se encontrava. Mas esses barquinhos talvez tenham retornado, possivelmente em conseqüência da tempestade que se aproximava; de qualquer forma, não lhes é feita menção adicional.

    Jesus acomodou-Se junto à popa do barco e adormeceu. Iniciou-se uma grande tempestade, f e Ele continuou a dormir. A circunstância é instrutiva, pois evidencia ao mesmo tempo a realidade dos atributos físicos de Cristo, e a condição sadia e normal de Seu corpo. Ele era sujeito à fadiga e à exaustão corporal, como todos os homens. Sem alimento, sentia fome; sem água, sentia sede; trabalhando, cansava-Se. O fato de poder dormir calmamente, mesmo em’ meio ao tumulto de uma tempestade após um dia de enorme esforço, indica um sistema nervoso inalterado, e um bom estado de saúde. Não encontramos referência a qualquer doença de Jesus. Ele vivia de acordo com as leis de saúde, mas jamais permitia que o corpo dominasse o espírito. E Suas atividades diárias, embora exigissem grande energia, tanto física quanto mental, foram sempre enfrentadas sem qualquer sintoma de colapso nervoso ou de perturbações funcionais. O sono, após a labuta, é natural e necessário. Tendo realizado o trabalho do dia, Jesus adormeceu.

    Entrementes, a fiiria da tempestade redobrou. O vento tornara impossível controlar o barco. Grandes ondas batiam contra o casco; tanta água entrou no barco, que parecia prestes a afundar. Os discípulos estavam aterrorizados. E Jesus continuava a dormir tranqüilamente. Chegando ao extremo do medo, eles O acordaram, gritando — segundo os relatos independentes: “Mestre, Mestre, estamos perecendo”; “Senhor, salva-nos! perecemos!” e “Mestre, não se te dá que pereçamos?” Eles estavam abjetamente amedrontados e pelo menos parcialmente esquecidos de que se achava entre eles Um a cuja voz até a morte obedecia. Seu apelo angustiado não era completamente destituído de esperança e nem desprovido de fé: “Senhor, salva-nos!”, clamaram. Calmamente, Ele replicou: “Por que temeis, homens de pouca fé?”

    Então, levantou-se. E através da escuridão daquela terrível noite, no vento que rugia sobre o mar tempestuoso, ouviu-se a voz do Senhor, quando “repreendeu os ventos e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança”. Virando-se para os discípulos, perguntou em tom de gentil, mas inconfundível reprovação: “Ainda não tendes fé?” A gratidão pelo salvamento do que parecera, momentos antes, morte iminente, foi substituída por admiração e temor. “Quem é este”, perguntaram uns aos outros, “que até o vento e o mar lhe obedecem?”

    Entre os milagres de Cristo que foram registrados, nenhum suscitou maior diversidade de comentários e tentativas de elucidação do que este maravilhoso exemplo de controle sobre as forças da natureza. A ciência não arrisca uma explicação. O Senhor da Terra, ar e mar falou e foi obedecido. Ele foi aquele que, em meio ao negro caos dos primeiros estágios da criação, ordenou com efeito imediato — Haja luz; haja um firmamento no meio das águas; apareça terra seca — e como decretou, assim foi feito. O domínio do Criador sobre a criação é real e absoluto. Uma pequena parte daquele domínio foi dada ao homemg como descendência de Deus, corporificado na própria imagem de Seu divino Pai. Mas o homem exerce esse controle que lhe foi delegado através de instrumentos secundários, e de complicado mecanismo. O poder do homem sobre os objetos de sua própria elaboração é limitado. De acordo com o anátema provocado pela queda de Adão, que veio por intermédio de uma desobediência, é pela força dos músculos, pelo suor do rosto e pelo esforço da mente, que ele alcançará suas realizações. Sua palavra de comando é apenas uma onda sonora no ar, a não ser que seja seguida de trabalho. Através do Espírito que emana da própria pessoa da Deidade, e que se espalha por todo o espaço, o comando de Deus é imediatamente obedecido.

    Não somente o homem, mas também a Terra e todas as forças dos elementos que lhe pertencem, foram atingidas pelo anátema de Adão;h e, assim como o solo não deu mais apenas frutos bons e úteis, mas com sua substância começou a nutrir espinhos e cardos, também as diversas forças da natureza cessaram de obedecer ao homem como agentes sujeitos ao seu controle direto. O que chamamos de forças naturais — calor, luz, eletricidade, afinidade química — são apenas algumas das manifestações da energia eterna, através da qual os propósitos do Criador são servidos; e estas, o homem pode dirigir e utilizar somente através de dispositivos mecânicos e ajustes físicos. Mas a Terra ainda será “renovada e receberá sua glória paradisíaca”; e então, o solo, a água, o ar e as forças que agem sobre isso tudo, reagirão diretamente ao comando do homem glorificado, como obedecem agora à palavra do Criador.i

    Cristo Aquieta os Demôniosj

    Jesus e os discípulos que com Ele estavam desceram na margem leste ou peréica do lago, em uma região conhecida como país dos gadarenos ou gergesenos. O local exato não foi identificado, mas, evidentemente, era uma região campestre, afastada das cidades.k Ao deixarem o barco, dois loucos que eram penosamente atormentados por espíritos malignos, aproximaram-se deles. Mateus declara que eram dois; os outros autores falam somente de um. E possível que um deles estivesse em condição tão pior em relação ao companheiro, que lhe tenha sido conferida maior preeminência na narrativa. Ou um pode ter fugido, enquanto o outro permaneceu. O homem encontrava-se em estado angustiante. Sua loucura tornara-se tão violenta, e a força física inerente à sua insânia, tão grande, que todas as tentativas para conservá-lo preso haviam falhado. Ele tinha sido preso com correntes e grilhões, mas quebrara-os com o auxílio do poder demoníaco, e fugira para as montanhas, para as cavernas que serviam de tumbas, lá vivendo mais como fera selvagem do que como homem. Noite e dia, seus estranhos e aterrorizantes gritos eram ouvidos, e com medo de encontrá-lo, as pessoas transitavam por caminhos que não passassem perto de onde ele se encontrava. Andava nu, e na sua loucura, freqüentemente feria a própria carne com pedras pontiagudas.

    Vendo Jesus, a pobre criatura correu ao Seu encontro, e, impelida pelo poder do demônio, prostrou-se diante Dele, gritando em alta voz: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?” Quando Jesus ordenou aos espíritos malignos que partissem, um ou mais deles, pela voz do homem, suplicou a Jesus que o deixasse, e com presunção blasfema, exclamou: “Conjuro-te por Deus que não me atormentes.” Mateus registra a pergunta adicional dirigida a Jesus: “Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?” Os demônios, por quem o homem estava possuído e controlado, reconheceram o Mestre, a quem sabiam que precisavam obedecer. Mas suplicaram para serem deixados em paz até que chegasse o tempo decretado para sua punição final.l

    Jesus perguntou: “Qual é o teu nome?” e os demônios que esta vam dentro do homem, responderam: “Legião é o meu nome, porque somos muitos.” A dupla consciência ou personalidade múltipla do homem fica aqui aparente. Estava tão completamente possuído por espíritos malignos, que não mais podia distinguir entre sua personalidade individual e a deles. Os demônios imploraram a Jesus que não os banisse daquele país, ou, como registra Lucas em palavras de terrível significação, “não os mandasse sair para as profundezas”.m Em seu desventurado estado, e com sua ansiedade diabólica para encontrar morada em corpos de carne, mesmo que fossem de animais, suplicaram que, sendo compelidos a abandonar o homem, tivessem permissão para entrar numa vara de porcos que se alimentava nas imediações. Jesus consentiu; os demônios imundos entraram nos porcos, e a manada inteira, de cerca de dois mil, enlouqueceu, e, aterrorizada, precipitou-se para o mar por um despenhadeiro, morrendo afogada. Os guardadores de porcos ficaram amedrontados, e, correndo para a cidade, contaram o que havia acontecido aos animais. Multidões dirigiram-se ao local para ver com seus próprios olhos. E todos ficaram pasmados ao contemplar aquele homem de quem sempre haviam tido tanto medo, vestido e restaurado a um estado mental normal, sentado silenciosa e reverentemente aos pés de Jesus. Tiveram medo de alguém que podia operar tais maravilhas, e, conscientes de sua indignidade pecaminosa, rogaram-lhe que abandonasse a região.n

    O homem que havia sido libertado dos demônios não temeu — o amor e a gratidão substituíram todos os outros sentimentos em seu coração. E quando Jesus retornou ao barco, suplicou-Lhe que o deixasse ir também. Mas Jesus proibiu-o, dizendo: “Vai para tua casa, pará os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez e como teve misericórdia de ti”. O homem tornou-se um missionário, não somente em sua cidade natal, mas por toda a Decápolis, regiao das dez cidades, por toda parte relatando a mudança maravilhosa que Jesus realizara nele.

    O testemunho de espíritos malignos e impuros sobre a divindade de Cristo como o. Filho de Deus, não se limita a este exemplo. Já consideramos o caso do endemoninhado na sinagoga de Capernaumo Outro exemplo aparece quando Jesus, saindo das cidades da Galiléia, Se dirigiu para a praia, sendo seguido por uma grande multidão composta de galileus e judeus, de gente de Jerusalém e Iduméia, e de além do Jordão (i.é. da Peréia), de habitantes de Tiro e Sidom, entre os quais havia curado muitos de enfermidades diversas. E aqueles que estavam dominados por espíritos imundos prostravam-se diante Dele, adorando-O, enquanto os demônios clamavam: “Tu és o Filho de Deus.”p

    Durante a pequena viagem considerada neste capítulo, o poder de Jesus como Senhor da Terra, dos homenç e demônios, manifestou-se em obras miraculosas da mais impressionante espécie. Não podemos classificar os milagres do Senhor como pequenos e grandes, nem como fáceis e difíceis de realizar; o que um indivíduo considera o menor, para outro pode ter importância profunda. A palavra do Senhor foi suficiente em todos os casos. Ao vento e às ondas, e à mente do homem possuído pelo demônio, bastou que Ele falasse para ser obedecido. “Acalma-te, emudece.”

    Revive a Filha de Jairoq

    Jesus e Seus acompanhantes cruzaram novamente o lago, da terra de Gadara para as imediações de Capernaum, onde Ele foi recebido e aclamado por grande multidão “porque todos O estavam esperando”. Assim que desembarcou, Jesus foi abordado por Jairo, um dos príncipes da sinagoga local, que “insistentemente Lhe suplicou: Minha filha está moribunda; rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare, e viva”.

    O fato de esse homem ter-se aproximado de Jesus com espírito de fé e súplica, é uma evidência da profunda impressão causada pelo ministério de Cristo até mesmo nos círculos sacerdotais e eclesiásticos. Muitos dos judeus, príncipes e oficiais, assim como o povo em geral, acreditavam em Jesus,r embora poucos dos que pertenciam às classes mais altas estivessem dispostos a sacrificar o prestígio e a popularidade tornando-se Seus discípulos. Que Jairo, um dos príncipes da sinagoga, tenha procurado Jesus somente quando impelido pela dor da morte iminente de sua única filha, uma menina de doze anos, não é evidência de que não se tivesse tornado crente antes. Certamente, naquela ocasião, sua fé era genuína e sua confiança sincera, como provam as circunstâncias da narrativa. Aproximou-se de Jesus com a reverência devida a alguém que considerava capaz de lhe conceder o que pedia, e caiu-Lhe aos pés, ou, como diz Mateus, adorou-O. Quando o homem saíra de sua casa, a menina estava prestes a expirar — e ele temia que, nesse meio tempo, ela tivesse morrido. O breve relato apresentado no primeiro Evangelho, conta que ele disse a Jesus: “Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem, impõe-lhe a tua mão, e ela viverá”.s Jesus acompanhou o pai suplicante, e muitos os seguiram.

    A chegada à casa de Jairo foi retardada por um incidente ocorrido no caminho. Uma mulher que sofria penosa enfermidade foi curada, em circunstâncias de peculiar interesse. Consideraremos essa ocorrência em breve. Não existe qualquer menção de que Jairo tenha demonstrado impaciência ou desgosto em conseqüência do atraso. Ele depositara sua confiança no Mestre, e agora aguardava pacientemente. Mas enquanto Cristo se ocupava do caso da mulher doente, chegaram mensageiros vindos da casa de Jairo, com a triste notícia de que a menina havia falecido. Podemos deduzir que mesmo essa notícia infausta não destruiu sua fé — ele ainda contava com o auxílio do Senhor. Aqueles que tinham trazido a mensagem, perguntaram: “para que enfadas mais o Mestre?” Jesus ouviu o que foi dito e deu apoio à sua fé duramente testada, com uma ordem encorajadora: “Não temas, crê somente.” Jesus permitiu que apenas três de Seus apóstolos entrassem na casa com Ele, além do pai consternado, mas confiante. Pedro e os dois irmãos, Tiago e João, foram admitidos.

    A casa não era um lugar de silêncio respeitoso e moderada quietude como agora consideramos apropriado para a presença da morte; ao contrário, era uma cena de tumulto, procedimento costumeiro nas observâncias ortodoxas do luto naquela época.t Carpideiras profissionais, incluindo cantores de estranhas elegias, e menestréis que faziam enorme barulho com flautas e outros instrumentos, já haviam sido convocados. Ao entrar, Jesus disse a todos: “Por que vos alvoroçais e chorais? A menina não está morta, mas dorme.” Na verdade, era uma repetição da ordem pronunciada em ocasião então recente: “Acalma-te, emudece.” Suas palavras provocaram zombaria e escárnio por parte daqueles que eram pagos pelo barulho que faziam, e que, câso a afirmação do Mestre provasse ser verdadeira, perderiam esta oportunidade de prestar serviços profissionais. Ademais, eles sabiam que a menina estava morta; as preparações para o funeral, que, segundo o costume, deviam ser providenciadas imediatamente após a morte, já estavam adiantadas. Jesus fez com que todos saíssem e restabeleceu a paz na casa.u Entrou, então, na câmara mortuária, acompanhado somente pelos três apóstolos e os pais da menina. Tomando a morta pela mão, “disse-lhe: Talita cumi, que traduzido, é: Menina, a ti te digo, levanta-te”. Para assombro de todos, exceto do Senhor, a menina levantou-se, abandonou o leito e andou. Jesus ordenou que lhe dessem comida, pois as necessidades corporais, suspensas pela morte, haviam retornado com a renovação da vida.

    O Senhor impôs silêncio sobre o acontecido, recomendando a todos os presentes que se abstivessem de contar o que tinham visto. As razões para essa ordem não são declaradas. Em algumas outras ocasiões, foi dada instrução semelhante àqueles que tinham sido abençoados pelas administrações de Cristo, enquanto em muitos casos de cura náo encontramos registro de tais ordens, sendo que em pelo menos um caso, foi dito ao homem que havia sido libertado dos demônios, que contasse a todos que grande coisa lhe tinha sido feita.v Em sua própria sabedoria, Cristo sabia quando prudentemente proibir e quando permitir a divulgação de Seus feitos. Embora os pais agradecidos, a própria menina e os três apóstolos que haviam testemunhado a restauração, possam ter obedecido à ordem de silêncio do Senhor, o fato de que a menina voltara a viver não podia ser mantido em segredo, e os meios pelos quais tal maravilha se realizara certamente seriam investigados. Os menestréis e os lamentadores que haviam sido expulsos do local enquanto ali reinava ainda o luto, e que haviam rido sarcasticamente da afirmação do Mestre, de que a menina dormia e não estava morta como pensavam, sem dúvida alguma espalhariam as notícias. Não causa surpresa, portanto, ler na pequena versão da história, apresentada por Mateus, que a fama do milagre “correu por toda aquela terra”.

    Restauração da Vida e Ressurreição

    A distinção vital entre a restauração de um morto com reatamento da vida mortal, e a ressurreição do corpo — da morte para um estado de imortalidade, deve ser cuidadosamente considerada. Em todos os casos até aqui mencionados — a volta à vida do homem de Naim,w e da filha de Jairo, como também o caso de Lázaro, a ser estudado mais tarde — o milagre consistiu em reunir o espírito e o corpo, em uma continuação do curso da existência mortal interrompido. Que a pessoa revivida em cada um desses milagres tinha que morrer subseqüentemente, é certo. Jesus Cristo foi o primeiro de todos os homens que viveram na Terra, a surgir da tumba como um ser imortalizado; Ele é, portanto, apropriadamente chamado de “as primícias dos que dormem.”x

    Embora Elias e Eliseu, muitos séculos antes de Cristo, tenham sido instrumentos na restauração da vida a mortos — o primeiro, com o filho da viúva de Sarepta, e o último, com o filho da mulher sunamitay nesses milagres anteriores houve uma restauração à existência normal, não à imortalidade. E instrutivo observar o procedimento de cada um dos profetas do Velho Testamento acima mencionados, comparando-o ao de Cristo em milagres análogos. Tanto com Elias como com Eliseu, a maravilhosa mudança realizou-se somente após administrações longas e trabalhosas, e fervorosa súplica pelo poder e intervenção de Jeová. Mas Jeová, corporificado na carne como Jesus Cristo, não fez mais que comandar, e as cadeias da morte foram imediatamente quebradas. Ele falou em Seu próprio nome e com autoridade inerente, pois pelo poder com o qual estava investido, mantinha controle tanto da vida quanto da morte.

    Uma Cura Memorável no Caminhoz

    Enquanto Jesus caminhava para a casa de Jairo, em meio a uma enorme multidão que O seguia, o grupo foi retardado por mais um caso de padecimento. Na multidão, estava uma mulher que por doze anos vinha sofrendo de uma enfermidade que causava hemorragia freqüente. Ela havia gasto tudo o que possuía em tratamentos médicos, e “muito padecera à mão de vários médicos”, tendo, contudo, piorado cada dia mais. Ela abriu caminho pela multidão, e, aproximando-se de Jesus por trás, tocou o Seu manto, porque dizia: “Se tão somente eu apenas tocar nos seus vestidos sararei.” O efeito foi mais do que mágico — imediatamente sentiu o frêmito da saúde através do corpo, e soube que havia sido curada de sua aflição. Tendo alcançado seu objetivo, e estando assegurada a bênção desejada, ela tentou continuar despercebida, misturando-se rapidamente à multidão. Mas seu toque não fora ignorado pelo Senhor. Ele virou-Se para o povo e perguntou: “Quem tocou nos meus vestidos?” ou, como relata Lucas: “Quem me tocou?” Como a multidão negasse, o impetuoso Pedro, falando por si mesmo e pelos outros, disse: ‘Vês que a multidão te aperta, e dizes: Quem me tocou?” Mas Jesus respondeu: “Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder.”

    A mulher, percebendo que não podia fugir à identificação, adiantou-se tremendo, e, ajoelhando-se diante do Senhor, confessou o que havia feito, a razão que tinha para fazê-lo, e o benefício resultante. Se ela esperava uma censura, seus temores foram imediatamente acalmados, pois Jesus, dirigindo-Se a ela com uma expressão de respeito e bondade, disse: “Filha, a tua fé te salvou; vai em paz.” E Marcos acrescenta: “e sê curada deste teu mal”.

    A fé nessa mulher era sincera e sem malícia, mas, de certo modo, deficiente. Ela acreditava que a influência da pessoa de Cristo, e até de Seu próprio manto, era um instrumento terapêutico, suficiente para curar sua enfermidade; mas não compreendia que o poder para curar era um atributo inerente a ser exercido segundo a vontade Dele, e quanto suscitado pela influência da fé. Na verdade, sua fé já havia sido recompensada em parte, mas de maior valor do que a cura física, seria para ela a certeza de que o divino Médico concedera o desejo de seu coração, e que a fé que ela manifestara fora aceita por Ele. Para corrigir seu equívoco e confirmar sua fé, Jesus mansamente sujeitou-a à necessária experiência da confissão, a qual deve ter sido facilitada pela consciência do grande alívio já experimentado. Ele confirmou a cura e deixou-a partir, com a certeza reconfortante de que sua recuperação era definitiva.

    Contrastando com os muitos casos de cura em que o Senhor recomendara aos beneficiários que não dissessem a ninguém como ou por quem haviam sido aliviados, vemos aqui a publicidade assegurada por sua própria ação, e isso quando o sigilo era desejado pelo recipiente da bênção. Os propósitos e motivos de Jesus podem ser mal compreendidos pelos homens. No caso dessa mulher, vemos a possibilidade de espalharem-se histórias estranhas e falsas, e esclarecer a verdade ali, no mesmo instante, parece ter sido o procedimento mais prudente. Além disso, o valor espiritual do milagre foi grandemente realçado pela confissão da mulher e pela misericordiosa confirmação do Senhor.

    Observe-se a significativa afirmação: “A tua fé te salvou.” A fé é, em si mesma, um princípio de poder;a e, por sua presença ou ausência, por sua plenitude ou escassez, até o Senhor era e é influenciado, e, em grande escala controlado, ao conferir ou recusar Suas bênçãos, pois Ele administra segundo a lei, e não por capricho ou de maneira incerta. Lemos que em certa ocasião e lugar, Jesus “não pôde fazer ali nenhum milagre” em conseqüência da incredulidade do povo.b A revelação moderna especifica que a fé para ser curado é um dos dons do Espírito, análoga às manifestações de fé no serviço de curar outros através do poder do Santo Sacerdócio.c

    A pergunta de nosso Senhor sobre quem O havia tocado, na multidão, nos dá outro exemplo de perguntas feitas por Ele de acordo com um propósito, quando podia prontamente determinar os fatos diretamente e sem auxílio de terceiros. Havia um propósito especial na pergunta, da mesma forma como todos os professores usam perguntas como veículo de instrução aos alunos.d Mas na pergunta de Cristo: “Quem me tocou?” existe um significado mais profundo do que naturalmente existiria em uma simples questão quanto à identidade de um indivíduo. E isto se evidencia nas palavras seguintes do Senhor: “Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder.” O ato exterior costumeiro pelo qual realizava Seus milagres era a palavra ou a ordem, algumas vezes acompanhada da imposição das mãos, ou alguma outra administração física, como a unção dos olhos de um cego.e Que Ele realmente dava de Sua própria força ao aflito que curava, é evidente nesta passagem. Uma crença passiva por parte de quem vai receber a bênção, é insuficiente. Somente quando vivificada e transformada em fé ativa se torna um poder. Assim também, para que haja um resultado positivo, aqueles que administram pela autoridade dada por Deus devem possuir uma energia mental e espiritual operante.

    Os Cegos Vêem e os Mudos Falamf

    Dois outros casos de curas miraculosas são narrados por Mateus, como tendo sucedido logo após o reavivamento da filha de Jairo. Ao passar Jesus pelas ruas de Capernaum, provavelmente ao sair da casa do príncipe da sinagoga, dois cegos O seguiram, clamando: “Tem compaixão de nós, Filho de Davi”. Este título ou tratamento foi usado por outros em diversas ocasiões, e não encontramos qualquer registro de que Jesus o tenha rejeitado, ou desaprovado o seu uso.g Ele não parou para atender a esse chamado dos cegos, e os dois O seguiram, chegando mesmo a entrar na casa após Ele. Então Lhes falou, perguntando: “Credes que eu posso fazer isso?” E eles responderam: Sim, Senhor.” Sua persistência em seguir o Senhor era evidência de que acreditavam que, de algum modo, embora para eles desconhecido e misterioso, Ele poderia ajudá-los. E pronta e abertamente, confessaram essa crença. Nosso Senhor tocou seus olhos, dizendo: “Faça-se-vos conforme a vossa fé.” O efeito foi imediato — seus olhos abriram-se. Receberam instruções explícitas para nada dizerem aos outros do que acontecera, mas, rejubilando-se com a inestimável bênção da visão, eles “divulgaram-lhe a fama por toda aquela terra”. Tanto quanto podemos desemaranhar os fios incertos da seqüência das obras de Cristo, esse é o primeiro caso, registrado com detalhes, em que Ele conferiu a visão aos cegos. Seguiram-se muitos outros casos extraordinários.h

    É digno de nota o fato de que, ao abençoar os cegos pelo Seu poder de cura, Jesus geralmente administrava através de algum contato físico, além de pronunciar as autoritárias palavras de comando ou afirmação. Nesse caso, como também no caso dos dois cegos que estavam sentados à beira do caminho, Ele tocou os olhos mortos; ao dar a visão ao cego indigente, em Jerusalém, Ele ungiu-lhe os olhos com barro; aos olhos de outro, aplicou saliva.i Encontramos circunstância análoga na cura de um que era surdo e tinha um defeito de fala, em cujo caso o Senhor colocou Seus dedos nos ouvidos do homem e tocou sua língua.j Tal tratamento não pode, de maneira alguma, ser considerado terapêutico ou médico. Cristo não era um médico que dependia de substâncias curativas, nem um cirurgião, para realizar operações físicas. Suas curas eram o resultado natural da aplicação de um poder próprio. E concebível que a confiança, que é um degrau para a crença, como esta o é para a fé, tenha sido incentivada por tais administrações físicas, e fortalecida e avançada até uma confiança mais alta e duradoura em Cristo, por parte do enfermo que não tinha visão suficiente para olhar para a face do Mestre e dali tirar inspiração, e nem ouvidos bastante abertos para ouvir Suas palavras edificantes. Aparecem em Suas administrações não somente uma completa ausência de fórmulas e formalismo, mas também uma falta de uniformidade de procedimento igualmente impressionante.

    Ao partirem os dois homens, antes cegos e agora perfeitos, outros chegaram, trazendo um amigo mudo, cuja aflição parece ter sido causada principalmente pela influência de um espírito maligno, mais do que por um defeito orgânico. Jesus expulsou o mau espírito — o demônio que dominara o enfermo, conservando-o sob a tirania da mudez. A língua do homem soltou-se, livrando-se ele da carga satânica, e deixando de ser mudo.k

    Notas Do Capítulo 20

    1. Tempestades no Lago da Galiléia. — É fato registrado que tempestades súbitas e violentas sao comuns no lago ou mar da Galiléia, e a tormenta que se aquietou pela palavra de ordem do Senhor não constituiu em si mesma fenômeno incomum, exceto, talvez, quanto à intensidade. Outro incidente ligado a uma tempestade neste mesmo local é registrado nas escrituras e será considerado mais tarde neste livro (Mat. 14:22–26; Marcos 6:45–56; João 6:15–21). O Dr. Thompson (The Land and the Book, ii:32) faz uma descrição baseada em sua experiência pessoal nas praias do lago: “Passei uma noite naquele Wady (uadê*) Shukaiyif, cerca de três milhas para cima, à esquerda. Mal o sol se havia posto, o vento começou a soprar em direção ao lago, continuando por toda a noite, com violência sempre crescente de forma que, quando chegamos à praia na manhã seguinte, a superfície do lago era uma enorme caldeira fervente. O vento soprava sobre cada uadê, do nordeste e do leste, com tal fúria, que os esforços de remadores não poderiam ter levado um barco a qualquer ponto da costa… Para compreendermos as causas destas tempestades súbitas e violentas, devemo-nos lembrar de que o lago fica cento e oitenta metros abaixo do nível do mar, que os vastos planaltos nus do Jaula erguem-se a grande altura, espalhando-se até os desertos de Haura, e subindo até o nevoso Hermom; e os cursos d’água cortaram profundas gargantas e agrestes desfiladeiros que convergem para a cabeceira do lago, agindo como gigantescos funis que chupam os frios ventos das montanhas”.

    2. A Terra Antes e Depois da Sua Regeneração— Que a Terra sofreu a maldição incidente à queda dos primeiros pais da raça, e que assim como o homem será redimido, também a Terra será regenerada, está implícito nas palavras de Paulo: “Na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação a um só tempo geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também uns, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”.. Esse autor escreveu em outra ocasião: “De acordo com as escrituras, a Terra tem que passar por uma mudança análoga à morte, e ser regenerada de uma forma comparável à ressurreição. As referências aos elementos que se derreterão com o calor, e à Terra, que será consumida e extinta, como aparecem em muitas escrituras já citadas, sugerem morte; e a nova Terra, o planeta renovado ou regenerado que resultará, pode ser comparado a um organismo ressuscitado. A mudança foi feita com um propósito; e tudo aquilo que cumpre a medida de sua criação deve ser avançado numa escala progressiva, seja um átomo ou um mundo, um animalículo, ou o homem — descendência direta e literal da Deidade. Falando sobre os graus de glória preparados para Suas criações, e sobre as leis de regeneração e santificação, o Senhor revelou em 1832, claramente, a futura morte e subseqüente vivificação da Terra. São estas as Suas palavras: “E também, em verdade vos digo que a Terra vive a lei de um reino celestial, porque cumpre o propósito de sua criação e não transgride a lei — portanto será santificada sim, embora vá morrer, tornará a ser vivificada e suportará o poder pelo qual será vivificada; e os justos herdá-la-ão. (Doutrina e Convênios 88:25–26.)

      O Espírito vital que emana de Deus e é co-extensivo com o espaço, pode operar diretamente e com efeito tão vital sobre coisas inanimadas e sobre a energia em suas diversas manifestações, conhecidas por nós como forças da natureza, quanto sobre inteligências organizadas, sejam ainda não corporificadas, na carne, ou descorporizadas. Assim, o Senhor pode falar diretamente à Terra, ao ar, ao mar, e ser ouvido e obedecido, pois a afluência divina, que é a soma de toda energia e poder, pode operar e opera em todo o universo. Em uma revelação de Deus a Enoque a Terra é personificada, e seus gemidos e lamentações pelas iniqüidades dos homens foram ouvidos pelos profetas: “E aconteceu que Enoque olhou a Terra; e ele ouviu uma voz que vinha de suas entranhas, dizendo: Ai, ai de mim, a mãe dos homens; estou aflita, estou fatigada por causa da iniqüidade de meus filhos. Quando descansarei e serei purificada da imundície que saiu de mim? Quando me santificará o meu Criador, para que eu descanse e a justiça permaneça sobre minha face por algum tempo?” E quando Enoque, ouviu o lamento da Terra, ele chorou e clamou ao Senhor, dizendo: Ó Senhor, não terás compaixão da Terra? Não abençoarás os filhos de Noé? E Enoque tornou a chorar e a clamar ao Senhor, dizendo; Quando descansará a Terra? E o Senhor disse a Enoque: Como eu vivo, assim virei nos últimos dias, nos dias de iniquidade e vingança, para cumprir o juramento que te fiz concernente aos filhos de Noé; E chegará o dia em que a Terra descansará, mas antes desse dia os céus escurecerão e um véu de trevas cobrirá a Terra; e os céus tremerão, assim como a Terra; e haverá grandes tribulações entre os filhos dos homens, mas meu povo eu preservarei; E lá será a minha morada e será Sião , a qual sairá dentre todas as criações minhas; e pelo espaço de mil anos a Terra descansará.” (P.G.V. Moisés 7:48, 49, 58, 60, 61, 64.)

      Uma descrição parcial da Terra em seu estado regenerado foi dada por meio do profeta Joseph Smith na presente dispensação: “Esta Terra, em seu estado santificado e imortal, será transformada como em cristal e será um Urim e Tumim para os seus habitantes, pelo qual todas as coisas pertencentes a um reino inferior, ou a todos os reinos de uma ordem inferior manifestar-se-ão àqueles que nela habitam e esta Terra será de Cristo.” (D&C 130:9.)

      Que Jesus Cristo, no exercício de Seus poderes de Divindade, falasse diretamente ao vento ou ao oceano e fosse obedecido, está tão verdadeiramente de acordo com a lei natural do céu, quanto Ele dar eficazmente uma ordem a um homem ou a um espírito não corporificado. Foi explicitamente declarado por Jesus Cristo que, pela fé, até o homem mortal pode colocar em andamento as forças que atuam sobre a matéria, e isso com resultado estupendo: “Porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, — e há de passar, e nada vos será impossível”. (Mat. 17:20; comparar com Marcos 11:23; Lucas 17:6.)

    3. A Terra dos Gergesenos — Tentou-se desacreditar o relato sobre a cura do demoníaco efetuada por Cristo no “país dos gadarenos” (Marcos 5:1; Lucas 8:26), com a afirmação de que a antiga cidade de Gadara, capital do distrito (Ver Josefo, Wars, iii, 7:1), ficava muito para o interior para que fosse possível aos porcos precipitarem-se ao mar, saindo dali. Outros acentuam o fato de que Mateus difere dos outros dois historiadores evangélicos ao especificar “o país dos gergesenos” (8:28). Como declarado no texto, o relato refere-se a uma secção ou região inteira, e não a uma cidade. Os guardiães dos porcos correram para as cidades para relatar o desastre ocorrido com seu rebanho de porcos. Naquele distrito da Peréia, existiam, na época, cidades chamadas respectivamente Gadara, Gerasa e Gergesa; portanto, a região em geral poderia apropriadamente ser chamada de terra dos gadarenos ou dos gergesenos. Farrar (Life of Christ, p. 254, nota) diz: “Após as pesquisas do Dr. Thompson (The Land and the Book, ii; 25), não pode haver qualquer dúvida de que Gergesa (…) era o nome de uma cidadezinha quase em frente a Capernaum, cujo sítio arruinado é ainda chamado de Kerza ou Gersa pelo beduínos. A existência dessa cidadezinha era aparentemente conhecida tanto por Orígenes, que primeiro introduziu a versão, quanto por Eusébio e Jerônimo; e naquela época, um declive íngreme perto da cidade, onde as colinas chegam bem perto do lago, foi apontado como a cena do milagre.”

    4. Jesus Solicitado a Deixar o País. — O povo tomou-se de medo diante do poder possuído por Jesus, e demonstrado na cura do endemoninhado e na destruição dos porcos, sendo que essa última ocorrência não se deu em cumprimento de ordem sua. Era o medo que os pecadores sentem na presença do Justo, que aqui se manifestava. Não estavam preparados para outras manifestações do poder divino, temiam pensar quem entre eles poderia ser diretamente afetado por esse poder, caso fosse exercido. Devemos julgar o povo com misericórdia, entretanto, se é que o devemos julgar. Eram em parte idólatras e possuíam apenas uma concepção supersticiosa da Deidade. O pedido que fizeram a Jesus para que os deixasse, traz-nos à mente a exclamação de Pedro, quando testemunhou um dos milagres de Cristo: Senhor, retira-te de mim porque sou pecador”

    5. “Morta” ou “À Morte”. — Segundo Lucas (8:42), a filha de Jairo “estava à morte”, quando o pai procurou o auxílio do Senhor. Marcos (5:23) registra o homem afirmando que a menina estava à morte. Estes dois relatos concordam entre si mas Mateus (9:18) apresenta o pai dizendo “Minha filha faleceu agora mesmo. “Críticos descrentes consideraram extensivamente o que designam de inconsistência, ou mesmo contradição nessas versões. Entretanto, ambas as versões contidas nesses três registros são absolutamente verdadeiras. A menina estava aparentemente exalando seus últimos suspiros, estava sofrendo as agonias da morte, quando o pai partiu apressado. Antes de encontrar Jesus, sentiu que o fim provavelmente chegara. Entretanto, sua fé permaneceu firme. Suas palavras atestam a confiança de que, mesmo que sua filha tivesse morrido depois que ele a deixara, o Mestre poderia fazê-la retornar à vida. Apesar do desespero que sentia, sua fé permaneceu inabalável.

    6. O Luto Entre os Orientais. — Costumes que para nós parecem estranhos, esquisitos e impróprios, existiram desde tempos remotos entre os povos orientais, alguns dos quais eram comuns entre os judeus no tempo de Cristo. Alarido e tumulto, incluindo estridentes lamentações por parte dos membros da família atingida e de pranteadojes profissionais, como também ruído de instrumentos, eram cenas comuns do luto. Geikie^ usando a citação de Buxtorf do Talmud, escreve: “Mesmo um israelita pobre era obrigado a ter não menos do que dois flautistas e uma carpideira, na morte de sua esposa; mas, se fosse rico, tudo deveria ser feito de acordo com sua condição.” No Dictionary ofthe Bible, de Smith, lemos: “O número de palavras (cerca de onze hebraicas e igual número de gregas) empregadas na escritura para expressar as várias ações características do luto mostra em alto grau a natureza dos costumes judeus neste particular. Parece que consistiam principalmente dos seguintes pormenores: (1) Bater no peito ou outras partes do corpo. (2) Chorar e gritar excessivamente. (3) Usar roupas de cores tristes. (4) Cantos de lamentação. (5) Festas fúnebres. (6) Empregar pessoas, especialmente mulheres, para lamentar. Uma característica marcante do luto oriental é o que se pode chamar de estudada publicidade, e a observância cuidadosa de cerimônias prescritas. (Gên. 23:2; Jó 1:20; 2:8; Isaías 15:3; etc.)”

    7. “Não Está Morta, Mas Dorme”. — Que a filha de Jairo estava morta, é fato colocado fora de qualquer dúvida razoável pelo registro escriturístico. A declaração de nosso Senhor aos barulhentos lamentadores “a menina não está morta, mas dorme” esclareceu que o seu sono teria curta duração. Era costume rabínico e comum da época falar sobre a morte como um sono, e aqueles que ridicularizaram Jesus por Sua afirmação deram uma interpretação às Suas palavras que o contexto certamente não justifica. Nota-se que o Senhor usou uma expressão equivalente com respeito à morte de Lázaro. “Lázaro, o nosso amigo, dorme” disse Ele, “mas vou despertá-lo do sono.” A interpretação literal dada a estas palavras pelos apóstolos provocou a declaração clara: “Lázaro está morto” (João 11:11,14). No Talmude, a morte é repetidamente designada de sono — centenas de vezes, diz Lightfoot, reconhecida autoridade sobre literatura hebraica.”

    8. Por que Jesus Formulava Perguntas? — Já consideramos diversos exemplos do que o homem chamaria de conhecimento sobre-humano, possuído por Cristo, que chegava até mesmo à leitura de pensamentos não expressos. Algumas pessoas encontram dificuldade em reconciliar esta qualidade superior, com o fato de Jesus freqüentemente formular perguntas, até mesmo sobre questões de menor importância, Devemos compreender que um conhecimento completo não torna imprópria a inquirição, e, também, que a onisciência não implica um constante estado consciente de tudo o que existe ou acontece. Sem dúvida alguma por meio de atributos divinos que constituíam Sua herança paterna, Jesus tinha o poder de verificar, por meios que só Ele possuía, quaisquer fatos que desejasse saber. Não obstante, encontramo-Lo repetidamente fazendo perguntas sobre detalhes circunstanciais (Marcos 9:21; 8:27; Mateus 16:13; Lucas 8:45) e isso Ele fez mesmo depois de Sua ressurreição (Lucas 24:41; João 21:5; Livro de Mórmon, 3 Néfi 17:7).

      Que a interrogação minuciosa é um dos meios mais eficazes para o desenvolvimento mental, é exemplificado nos métodos seguidos pelos melhores mestres humanos. Trench (Notes on the Miracles, pp. 148-9) aponta a lição ilustrada pela pergunta de nosso Senhor a respeito da mulher que foi curada de seu fluxo de sangue: Com pouca propriedade “pode ser afirmado que teria sido inconsistente com a verdade absoluta o Senhor professar ignorância, e fazer a pergunta que fez, se todo o tempo Ele sabia perfeitamente aquilo que parecia, implicitamente, dizer que não sabia. Um pai perguntando a seus filhos: Quem cometeu esta falta? — Ele próprio ciente, ao fazer a pergunta, mas ao mesmo tempo desejando levar o culpado à confissão, e isto fazendo para colocá-lo em um estado perdoável — pode ser acusado de violar a lei da mais alta verdade? A mesma falta pode ser encontrada na pergunta de Eliseu: “De onde vens, Geazi? (II Reis 5:25), quando seu coração acompanhara seu servo por todo o caminho; e mesmo na pergunta do próprio Deus a Adão: “Onde estás?” (Gên. 3:9), e a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” (Gên. 4:9). Em todos os casos, existe: um propósito moral na pergunta, uma oportunidade dada mesmo no último instante para reparar o erro, pelo menos em parte, com uma confissão sem reservas.”

    9. Os Cegos Vêem.— TTratando da cura miraculosa dos dois cegos que seguiram Jesus até dentro da casa, Trench (Notes on the Miracles of Our Lord, p. 152) diz: “Temos aqui a primeira das muitas curas de cegos registradas (Mat. 12:22; 20:30; 21:14; João 9) ou mencionadas (Mat. 11:5) nos evangelhos, sendo cada uma delas um cumprimento literal da profética palavra de Isaías concernente aos tempos do Mestre: ‘Então os olhos dos cegos serão abertos’ (35:5). Embora freqüentes, todos esses milagres possuem características distintas e próprias. Que fossem tão numerosas, não é nada de assombroso, quer consideremos o fato do ponto de vista natural, quer do espiritual. Observados do ponto de vista espiritual, temos apenas que nos lembrar quão freqüentemente o pecado é mencionado nas escrituras como cegueira moral (Deut. 28:29; Isaías 59:10; Jó 12:25; Sof. 1:17), e a libertação do pecado como remoção da cegueira (Isaías 6:9, 10; 43:8; Efé. 1:18; Mat. 15:14); e imediatamente perceberemos quão adequado é que aquele que foi a ‘luz do mundo’ tenha seguidamente realizado obras que simbolizassem tão bem o trabalho superior que viera executar no mundo.”

    10. Acusação de Influência Satânica. — Observe-se que na questão do mudo endemoninhado referido no texto, Cristo foi acusado de estar ligado ao demônio. Embora o povo, impressionado pela manifestação de poder divino da cura, exclamasse com reverência: “Nunca tal se viu em Israel,’ os fariseus, decididos a neutralizar o bom efeito da administração miraculosa do Senhor, disseram: “Ele expulsa os demônios pelo príncipe dos demônios.” (Mat. 9:32–34.) Para consideração mais detalhada desta acusação inconsistente, e estritamente blasfema, ver as páginas 257–261.