2015
    Ser Fraco Não é Pecado
    Notas de rodapé
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    Ser Fraco Não É Pecado

    A autora mora em Utah, EUA.

    As limitações e inadequações não são pecados e não nos impedem de ser puros e dignos do Espírito.

    “Sou mesmo digno de entrar na casa de Deus? Como posso ser se não sou perfeito?”

    “Deus pode mesmo transformar minha fraqueza em força? Jejuei e orei durante dias para que esse problema fosse tirado de mim, mas parece que nada está mudando.”

    “No campo missionário, vivi o evangelho de modo mais sistemático do que em qualquer outra época de minha vida, mas nunca estive tão ciente de meus defeitos. Por que às vezes me sentia tão ruim quando estava sendo tão bom?”

    Ao refletirmos sobre essas perguntas, é crucial compreender que, embora o pecado inevitavelmente nos distancie de Deus, a fraqueza, ironicamente, pode conduzir-nos a Ele.

    Isn't Sin to be Weak

    Fotografia: iStock/Thinkstock

    Distinguir o Pecado da Fraqueza

    Em geral, pensamos tanto no pecado quanto na fraqueza como manchas negras na tapeçaria de nossa alma, apenas com variações de tamanho e graus diferentes de transgressão. Mas as escrituras indicam que o pecado e a fraqueza são intrinsecamente distintos, exigem remédios específicos e têm o potencial de produzir resultados diferentes.

    A maioria de nós conhece melhor o pecado do que gostaria de admitir, mas lembremos: o pecado é a escolha de desobedecer aos mandamentos de Deus ou rebelar-nos contra a Luz de Deus dentro de nós. O pecado é a escolha de confiar mais em Satanás do que em Deus, pondo-nos em posição de inimizade com nosso Pai. Ao contrário de nós, Jesus Cristo não tinha absolutamente nenhum pecado e pôde expiar nossos pecados. Quando nos arrependemos sinceramente — o que inclui mudar nossa mente, nosso coração e nosso comportamento, bem como fazer a restituição quando possível e não repetir esse pecado no futuro —, podemos ter acesso à Expiação de Jesus Cristo, ser perdoados por Deus e ficar puros de novo.

    Tornar-se puro é essencial, pois nada impuro pode habitar na presença de Deus. Mas se nossa única meta fosse ser tão inocentes quanto éramos quando saímos da presença de Deus, melhor seria nem sair do berço até o fim da vida. Na verdade, viemos à Terra para aprender pela experiência a distinguir o bem do mal, crescer em sabedoria e conhecimento, viver valores que nos são caros e adquirir características divinas — um progresso que não podemos fazer nos limites seguros de um berço.

    A fraqueza humana desempenha um papel importante nesses propósitos essenciais da mortalidade. Quando Morôni se preocupou que a fraqueza na escrita pudesse levar os gentios a zombar de coisas sagradas, o Senhor tranquilizou-o com as seguintes palavras:

    “E se os homens vierem a mim, mostrar-lhes-ei sua fraqueza. E dou a fraqueza aos homens a fim de que sejam humildes; e minha graça basta a todos os que se humilham perante mim; porque caso se humilhem perante mim e tenham fé em mim, então farei com que as coisas fracas se tornem fortes para eles” (Éter 12:27; ver também I Coríntios 15:42–44; II Coríntios 12:7–10; 2 Néfi 3:21 e Jacó 4:7).

    As consequências dessa escritura tão conhecida são profundas e nos convidam a distinguir o pecado (incentivado por Satanás) da fraqueza (descrita aqui como uma condição “dada” a nós por Deus).

    Podemos definir a fraqueza como a limitação de nossa sabedoria, santidade e nosso poder que é inerente a nossa condição humana. Como mortais, nascemos frágeis e dependentes, com várias debilidades e predisposições físicas. Somos criados por outros mortais fracos e vivemos cercados por eles. Seus ensinamentos, seu exemplo e sua maneira de tratar-nos também são falhos e às vezes nos fazem mal. Em nosso estado frágil e mortal, sofremos enfermidades físicas e emocionais, fome e fadiga. Vivenciamos emoções humanas como raiva, tristeza e medo. Falta-nos sabedoria, conhecimento, resistência e força. E estamos sujeitos a tentações de muitos tipos.

    Embora não tivesse pecado, Jesus Cristo assumiu plenamente a fraqueza mortal, tal como nós (ver II Coríntios 13:4). Ele nasceu como uma criança indefesa num corpo mortal e foi educado por humanos imperfeitos. Precisou aprender a andar, falar, trabalhar e relacionar-Se com as pessoas. Sentia fome, cansaço, todas as emoções humanas e podia ficar doente, sofrer, sangrar e morrer. Ele “em tudo foi tentado, mas sem pecado”, submetendo-se à mortalidade a fim de poder “compadecer-se das nossas fraquezas” e socorrer-nos em nossas enfermidades ou debilidades (Hebreus 4:15; ver também Alma 7:11–12).

    Simplesmente não podemos nos arrepender do fato de ser fracos — e a fraqueza em si não nos torna impuros. Não podemos crescer espiritualmente a menos que rejeitemos o pecado, mas também não crescemos espiritualmente a menos que aceitemos nosso estado de fraqueza humana, lidemos com ela com humildade e fé e aprendamos por meio de nossa fraqueza a confiar em Deus. Quando Morôni se afligiu devido a sua fraqueza na escrita, Deus não mandou que se arrependesse. Na verdade, o Senhor ensinou-o a ser humilde e a ter fé em Cristo. Se formos mansos e fiéis, Deus oferece graça — não perdão — como o remédio para a fraqueza. O Guia para Estudo das Escrituras define a graça como o poder capacitador de Deus para fazermos o que não conseguimos sozinhos (ver o Guia para Estudo das Escrituras, “Graça”) — o remédio divino adequado por meio do qual Ele pode “[fazer] as coisas fracas [se tornarem] fortes”.

    Exercer Humildade e Fé

    Desde nossos primeiros passos na Igreja, foram-nos ensinados os elementos essenciais do arrependimento, mas como exatamente podemos promover a humildade e a fé? Considere o seguinte:

    • Ponderar e orar. Já que somos fracos, talvez não reconheçamos se estamos lidando com o pecado (que exige uma total e imediata mudança de mente, coração e comportamento) ou com a fraqueza (que exige empenho, aprendizado e aperfeiçoamento humildes e contínuos). A maneira de encararmos essas coisas pode depender de nossa experiência e maturidade. Pode até haver elementos tanto de pecado quanto de fraqueza num único comportamento. Se dissermos que um pecado é na verdade uma fraqueza, acabaremos por racionalizar em vez de nos arrependermos. Se dissermos que uma fraqueza é um pecado, poderemos sentir vergonha, desespero e até desistir das promessas de Deus. Ponderar e orar nos ajuda a fazer essas distinções.

    • Priorizar. Como somos fracos, não podemos fazer todas as mudanças necessárias de uma só vez. Ao lidarmos com humildade e fidelidade com nossa fraqueza humana, alguns aspectos por vez, podemos gradualmente reduzir a ignorância, transformar bons padrões em hábitos, aumentar nossa saúde e nosso vigor emocionais e físicos e fortalecer nossa confiança no Senhor. Deus pode nos ajudar a saber por onde começar.

    • Planejar. Como somos fracos, para fortalecer-nos precisaremos de muito mais do que um desejo justo e de bastante autodisciplina. Também precisamos planejar, aprender com erros, desenvolver mais estratégias eficazes, reavaliar nossos planos e tentar de novo. Necessitamos da ajuda das escrituras, de livros relevantes e de outras pessoas. Começamos aos poucos, regozijamo-nos nas melhoras e corremos riscos (ainda que isso nos faça sentir-nos vulneráveis e fracos). Precisamos de apoio para fazer boas escolhas mesmo que estejamos cansados ou desanimados e precisamos traçar planos para voltar ao caminho correto quando tropeçarmos.

    • Exercer paciência. Já que somos fracos, as mudanças podem demorar. É simplesmente impossível renunciarmos a nossa fraqueza como renunciamos ao pecado. Os discípulos humildes fazem de bom grado o que é preciso, aprendem resiliência, continuam se empenhando e não desistem. A humildade nos ajuda a ter paciência com nós mesmos e com os outros que também são fracos. A paciência é uma manifestação de nossa fé no Senhor, da gratidão por Sua confiança em nós e de nossa convicção de que Ele cumprirá Suas promessas.

    Mesmo quando nos arrependemos sinceramente, alcançamos perdão e ficamos puros de novo, permanecemos fracos. Ainda estamos sujeitos às doenças, às emoções, às predisposições, à fadiga e às tentações. Mas as limitações e inadequações não são pecados e não nos impedem de ser puros e dignos do Espírito.

    Da Fraqueza à Força

    Isn't Sin to be Weak

    Fotografia: iStock/Thinkstock

    Ainda que Satanás esteja ansioso para usar nossa fraqueza para nos incitar ao pecado, Deus pode usar a fraqueza humana para nos ensinar, fortalecer e abençoar. Todavia, ao contrário do que poderíamos esperar ou ansiar, Deus nem sempre faz “as coisas fracas [se tornarem] fortes” para nós eliminando nossa fraqueza. Quando o Apóstolo Paulo orou repetidamente para que Deus retirasse um “espinho na carne” que Satanás usava para afligi-lo, Deus respondeu: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (II Coríntios 12:7, 9).

    Há muitas maneiras pelas quais o Senhor “[faz] as coisas fracas [tornarem-se] fortes”. Ainda que Ele possa eliminar a fraqueza por meio da cura excepcional que esperamos, minha experiência pessoal me mostra que se trata de algo um tanto raro. Não vejo, por exemplo, nenhuma prova de que Deus tenha eliminado a fraqueza de Morôni na escrita após o famoso versículo em Éter 12. Deus também pode transformar as coisas fracas em fortes ajudando-nos em nosso empenho para vencer nossas fraquezas, para ganhar um senso de humor adequado ou a perspectiva correta sobre elas e para melhorá-las gradualmente, no devido tempo. Da mesma forma, as forças e fraquezas tendem a estar inter-relacionadas (como a força da perseverança e a fraqueza da obstinação), e podemos aprender a valorizar a força e a amenizar a fraqueza que a acompanha.

    Há outra maneira, ainda mais vigorosa, pela qual Deus transforma as coisas fracas em fortes para nós. O Senhor disse a Morôni em Éter 12:37: “E porque viste a tua fraqueza, serás fortalecido até que te sentes no lugar que preparei nas mansões de meu Pai”.

    Aqui Deus não Se ofereceu para mudar a fraqueza de Morôni, mas mudar Morôni. Ao lidar com o desafio da fraqueza humana, Morôni aprendeu e nós também podemos aprender a caridade, a compaixão, a mansidão, a paciência, a coragem, a longanimidade, a sabedoria, a resistência, o perdão, a resiliência, a gratidão, a criatividade e uma série de outras virtudes que nos tornam mais semelhantes a nosso Pai Celestial. São justamente as qualidades que viemos aperfeiçoar na Terra, os atributos cristãos que nos preparam para as mansões celestes.

    O amor, a sabedoria e o poder redentor de Deus ficam mais evidentes do que nunca em Sua capacidade de transformar nossa luta contra a fraqueza humana nas virtudes e forças divinas inestimáveis que nos tornam mais semelhantes a Ele.