2000–2009
Até uma Criança Consegue Entender
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Até uma Criança Consegue Entender

Deus Se assegurou de que a verdade divina relativa a Ele fosse compreensível a todos os Seus filhos, qualquer que seja o nível de escolaridade ou a capacidade intelectual deles.

Os pais muitas vezes ficam desconcertados com a resposta dos filhos a perguntas feitas por adultos. Certa noite em que minha esposa e eu havíamos saído, a babá de nossos filhos, intrigada com a oração que os ouviu fazer, perguntou-lhes: “Mas qual é a diferença entre a sua religião e a minha?” Nossa filha de oito anos de idade respondeu imediatamente: “É quase a mesma coisa, exceto que estudamos muito mais do que você”! Longe de querer ofender a babá, minha filhinha apenas queria salientar, a seu modo, a importância que os santos dos últimos dias dão à busca do conhecimento.

Joseph Smith declarou: “É impossível ao homem ser salvo em ignorância” (D&C 131:6). E acrescentou: “O princípio do conhecimento é o princípio da salvação (…) e todo aquele que não obtém conhecimento suficiente para salvar-se, será condenado” (History of the Church, vol. 5, p. 387). Esse conhecimento baseia-se na compreensão da natureza de Deus e de Jesus Cristo, e do plano de salvação preparado por Eles para permitir que voltemos a Sua presença: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3).

O princípio do conhecimento muitas vezes tem sido erroneamente interpretado pelos homens. “A glória de Deus é inteligência” (D&C 93:36). Ela ultrapassa tudo o que jamais compreenderemos com a nossa capacidade intelectual. As pessoas que tentam encontrar Deus pensam, às vezes, que precisam procurar por Ele em conceitos intelectualmente complicados.

Contudo, o nosso Pai Celestial está sempre a nossa disposição. Ele Se adapta ao nosso nível de compreensão. “Se o Senhor vem a uma criança, adaptar-Se-á a sua linguagem e capacidade” (Joseph Smith em History of the Church, vol. 3, p. 392).

Deus seria mesmo injusto se o evangelho estivesse ao alcance apenas de uma elite intelectual! Em Sua bondade, Deus Se assegurou de que a verdade divina relativa a Ele fosse compreensível a todos os Seus filhos, qualquer que seja o nível de escolaridade ou a capacidade intelectual deles.

Na realidade, o fato de que um princípio possa ser compreendido até mesmo por uma criança é uma prova de Seu poder. O Presidente John Taylor disse: “Um homem demonstra ter verdadeira inteligência quando toma um assunto que é misterioso e grandioso por si mesmo e o desvenda e simplifica, de modo que até uma criança consiga compreendê-lo” (“Discourse”, Deseret News, 30 de setembro de 1857, p. 238). Longe de diminuir sua influência, a pureza e a simplicidade de expressão permitem ao Santo Espírito testificar ao coração do homem com maior convicção.

Durante Seu ministério terreno, Jesus constantemente comparou a simplicidade e autenticidade de Seus ensinamentos à lógica tortuosa dos fariseus e de outros doutores da lei. Eles tentaram, vez após vez, testá-Lo com perguntas sofisticadas, mas as respostas Dele eram sempre totalmente claras e infantis em sua simplicidade.

Certo dia, os discípulos de Jesus fizeram a Ele a seguinte pergunta: “Quem é o maior no reino dos céus?”

Jesus, chamando um menino para perto de Si, colocou-o no meio deles, e disse: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.

Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus” (Mateus 18:1, 2–4).

Em outra ocasião, Jesus disse: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas” (Lucas 10:21).

A Bíblia provavelmente já foi tema de mais interpretações e discussões filosóficas do que qualquer outro livro. Porém, uma criança que leia esse livro pela primeira vez terá uma oportunidade no mínimo igual, ou até maior, de entender a doutrina, como a maioria desses doutores das escrituras. Os ensinamentos do Salvador se adaptam a qualquer pessoa. Aos oito anos de idade, uma criança consegue ter entendimento suficiente para entrar nas águas do batismo e fazer um convênio com Deus, tendo total compreensão.

O que uma criança entenderia ao ler a história do batismo de Jesus? Jesus foi batizado no Rio Jordão por João Batista. O Espírito Santo desceu sobre Ele “em forma corpórea, como pomba”. Ouviu-se uma voz: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lucas 3:22). A criança teria uma visão clara do que é a Deidade: três pessoas distintas, em perfeita unidade — Deus o Pai, Seu Filho Jesus Cristo e o Espírito Santo.

A rejeição do princípio da simplicidade e da clareza tem sido a raiz de muitas apostasias, tanto coletivas como individuais. No Livro de Mórmon, o profeta Jacó denunciou aqueles que viveram nos tempos antigos e “desprezaram as palavras claras e mataram os profetas e procuraram coisas que não podiam compreender. Portanto, devido a sua cegueira, cegueira que lhes adveio por olharem para além do marco, terão que cair, pois Deus tirou-lhes a sua clareza e entregou-lhes muitas coisas que não podem entender, pois assim o desejaram” (Jacó 4:14).

Às vezes, podemos ser tentados a achar que “é fácil demais”, assim como Naamã, aquele capitão sírio que, constrangido por seu orgulho, hesitou em obedecer ao conselho de Eliseu, que a seus olhos era por demais simples, para curá-lo da lepra. Seus servos fizeram com que enxergasse a própria insensatez:

“Meu pai, se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias? Quanto mais, dizendo-te ele: Lava-te, e ficarás purificado.

Então desceu, e mergulhou no Jordão sete vezes, conforme a palavra do homem de Deus; e a sua carne tornou-se como a carne de um menino, e ficou purificado” (II Reis 5:13–14).

Sua purificação não foi apenas física; a carne espiritual dele também foi limpa quando aceitou essa bela lição de humildade.

As criancinhas têm uma maravilhosa disposição para aprender. Elas têm plena confiança no professor, um espírito puro e grande humildade — em outras palavras, as mesmas qualidades que abrem a porta para o Espírito Santo. Ele é o canal por meio do qual adquirimos conhecimento sobre as coisas do Espírito. Paulo escreveu aos Coríntios: “Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (I Coríntios 2:11).

E acrescentou: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (I Coríntios 2:14).

Sabemos que o homem carnal ou natural é “inimigo de Deus (…) a não ser que ceda ao influxo do Santo Espírito”. Para que isso aconteça, ele precisa se tornar “como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai” (Mosias 3:19).

Em seu conto filosófico “O Pequeno Príncipe”, Antoine de Saint-Exupéry descreve a perplexidade de um menininho que, ao descobrir um roseiral, percebe que a rosa que possui, a qual havia tratado com tanto amor, não é exclusiva, mas um tanto comum. Então, ele finalmente percebe que aquilo que tornava sua rosa única não era sua aparência exterior, mas o tempo e o amor que havia dedicado a ela. Ele exclama:

“Os homens (…) cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim (…) e não encontram o que procuram. (…)

E no entanto o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa, ou num pouquinho d’água. (…)

Mas os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração” [(1943), p. 79].

Da mesma maneira, o nosso conhecimento de Deus não depende da quantidade de informações que acumulamos. Afinal, todo conhecimento do evangelho que é significativo para nossa salvação pode ser resumido em alguns pontos fundamentais de doutrina, princípios e mandamentos, que já estão incluídos nas palestras missionárias que recebemos antes do batismo. Conhecer a Deus é uma questão de abrir o coração para ganhar uma compreensão espiritual e um testemunho fervoroso da veracidade desses pontos fundamentais de doutrina. Conhecer a Deus é ter um testemunho de Sua existência e sentir no coração que Ele nos ama. É aceitar Jesus Cristo como nosso Salvador e ter um desejo ardente de seguir Seu exemplo. Quando servimos a Deus e ao próximo, testificamos de Cristo e permitimos que aqueles que nos rodeiam O conheçam melhor.

Esses princípios são concretamente aplicados no ensino que é ministrado em nossas alas e nossos ramos. Para vocês, professores da Igreja, o principal objetivo de suas lições é converter o coração dos alunos. A qualidade de uma aula não se mede pelo número de novas informações que você transmite aos alunos. Ela é uma conseqüência de sua capacidade de convidar a presença do Espírito e de motivar seus alunos a assumir os compromissos propostos. Ao exercer fé, pondo em prática as lições ensinadas, é que eles aumentarão o conhecimento espiritual que têm.

Oro para que saibamos abrir o coração como uma criancinha e sintamos prazer em ouvir e praticar a palavra de Deus com toda a força de sua simplicidade. Presto testemunho de que, se fizermos isso, adquiriremos conhecimento dos “mistérios [de Deus], e [das] coisas pacíficas — aquilo que traz alegria, que traz vida eterna” (D&C 42:61). Em nome de Jesus Cristo. Amém.