2002
Alguma Grande Coisa
Notas de rodapé
Tema

“Alguma Grande Coisa”

“Que sejamos todos fiéis no cumprimento das coisas comuns do dia-a-dia que provam nossa dignidade, pois elas conduzem-nos e qualificam-nos para as grandes coisas.”

Queridos irmãos do sacerdócio de todo o mundo, sinto-me feliz por ser contado como um de vocês. Quero hoje deixar com os portadores do sacerdócio da Igreja o desafio de dedicarem-se mais na realização das coisas que edificam a fé, o caráter e a espiritualidade. São as obrigações rotineiras do sacerdócio que devemos realizar diária, semanal e mensalmente, ano após ano. O trabalho da Igreja depende de coisas básicas como o pagamento do dízimo, o cumprimento dos deveres para com a família e o sacerdócio, o cuidado para com os pobres e necessitados, a oração diária, o estudo diário das escrituras e as noites familiares, o ensino familiar, a participação nas atividades do quórum e a freqüência ao templo. Se fôssemos chamados pelo presidente da Igreja, estaríamos prontos, capazes e desejosos de fazer “alguma coisa grande”, como trabalhar no templo de Nauvoo; mas há muitos que não estão dispostos a fazer algumas dessas coisas básicas.

Todos conhecemos a história de Naamã, do Velho Testamento, o capitão dos exércitos da Síria que contraíra lepra. Uma jovem serva disse à esposa de Naamã que havia um profeta em Israel que poderia curá-lo. Naamã foi com sua carruagem e cavalos até a casa de Eliseu, que lhe enviou um mensageiro, dizendo: “Vai, e lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás purificado”.1

Os rapazes mais jovens sabem o que acontece quando mostram as mãos para a mãe: ela manda-os lavarem-nas! Mas Naamã não era um menino. Era o capitão dos exércitos da Síria e ficou ofendido com a instrução de Eliseu para ir lavar-se no Jordão. Por isso “se foi com indignação”.2 Um dos servos de Naamã, com sabedoria, argumentou, dizendo: “Se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias? Quanto mais, dizendo-te ele: Lava-te, e ficarás purificado”.3 Naamã então se arrependeu e seguiu o conselho do profeta. A lepra desapareceu, e “sua carne tornou-se como a carne de um menino, e ficou purificado”.4 “Alguma grande coisa”, nesse caso, era uma coisa extraordinariamente simples e fácil de ser feita.

Na história moderna da Igreja, temos exemplos contrastantes de homens que foram altamente favorecidos pelo Senhor. Um deles, Hyrum Smith, permaneceu inteiramente fiel e dedicado, a ponto de dar a própria vida, enquanto que o outro, Oliver Cowdery, apesar de ter testemunhado “algumas grandes coisas” na história da Restauração, foi cegado por sua ambição pessoal e perdeu seu lugar exaltado na liderança da Igreja.

Oliver Cowdery estava ao lado do Profeta Joseph Smith em muitos dos eventos mais importantes da Restauração, como o batismo sob a autoridade de João Batista, o recebimento do Sacerdócio Aarônico, as maravilhosas aparições no Templo de Kirtland e a oportunidade de escrever com sua própria pena “todo o Livro de Mórmon (com exceção de umas poucas páginas), à medida que eram ditadas pelos lábios do Profeta Joseph Smith”.5 Ninguém, exceto o Profeta Joseph, foi mais honrado com o ministério de anjos do que Oliver Cowdery.

Mas quando o Profeta enfrentou momentos difíceis, Oliver criticou-o e rompeu relações com ele. A despeito das tentativas do Profeta de estender-lhe a mão da amizade, ele tornou-se hostil ao Profeta e à Igreja e foi excomungado em 12 de abril de 1838.

Poucos anos depois da morte do Profeta, Oliver arrependeu-se e expressou interesse em voltar para a Igreja. Em resposta, Brigham Young escreveu-lhe em 22 de novembro de 1847, convidando-o: “Retorna à casa de nosso pai, de onde te afastaste (…) e renova teu testemunho da veracidade do Livro de Mórmon”.6 Oliver apresentou-se perante o quórum de sumos sacerdotes e disse: “‘Irmãos, fiquei alguns anos separado de seu convívio. Agora desejo voltar. Quero retornar com humildade e ser um de vocês. Não procuro posição. Desejo apenas ser identificado como um de vocês. Estou fora da Igreja, não sou membro dela, e gostaria de tornar-me membro da Igreja novamente. Quero entrar pela porta. Eu a conheço. Não venho buscando uma posição de destaque. Venho com humildade e submeto-me à decisão deste quórum, sabendo, como sei, que suas decisões são justas e devem ser acatadas”.7

Ele também prestou testemunho, dizendo: “Irmãos e amigos, meu nome é Cowdery, Oliver Cowdery. No início da história desta Igreja fui um de vocês. (…) Tive em minhas mãos as placas de ouro das quais [o Livro de Mórmon] foi traduzido. Também vi o Urim e o Tumim. Esse livro é verdadeiro. Não foi Sidney Rigdon que o escreveu. Não foi o Sr. Spaulding que o escreveu. Eu próprio o transcrevi, à medida que era ditado da boca do profeta”.8 Embora Oliver tenha voltado, perdeu sua posição de liderança na Igreja.

Por outro lado, o Presidente Heber J. Grant disse o seguinte sobre Hyrum Smith: “Não há melhor exemplo de amor de irmão mais velho do que o demonstrado na vida de Hyrum Smith em relação ao Profeta Joseph Smith.(…) Eles eram tão unidos, carinhosos e amorosos quanto dois homens mortais poderiam ser. (…) Jamais houve uma única partícula de (…) inveja (…) no coração de Hyrum Smith. Nenhum homem mortal poderia ter sido mais leal, mais fiel, mais verdadeiro, em vida ou na morte, do que Hyrum Smith foi para com o Profeta do Deus vivo”.9

Ele atendeu a todas as necessidades e pedidos de seu irmão mais novo, Joseph, que liderava a Igreja e recebia as revelações que temos hoje. Hyrum foi firme e fiel, dia após dia, mês após mês, ano após ano.

Depois da morte de seu irmão Alvin, Hyrum terminou de construir a casa branca de madeira para seus pais. Depois que Joseph recebeu as placas de ouro, Hyrum providenciou a caixa de madeira para guardá-las e protegê-las. Quando as placas foram traduzidas, Joseph confiou a Hyrum o manuscrito para que o levasse à gráfica. Hyrum, quase sempre acompanhado por Oliver Cowdery, levava as páginas para o tipógrafo e trazia-as de volta todos os dias.10

Hyrum trabalhava como fazendeiro e trabalhador braçal para sustentar sua família, mas depois que a Igreja foi organizada, em 1830, aceitou o chamado de presidir o ramo de Colesville. Levou a esposa e a família, foi morar com a família de Newell Knight e passou grande parte de seu tempo “pregando o evangelho, sempre que encontrava alguém disposto a ouvir”.11 Sempre um bom missionário, não apenas pregava nas proximidades de sua casa, mas foi também até a costa leste e para o sul dos Estados Unidos. Em 1831, foi com John Murdock até Missouri e voltou, pregando pelo caminho.12

Quando a construção do Templo de Kirtland foi revelada numa visão, em 1833, Hyrum imediatamente apanhou sua foice e limpou o mato do terreno do templo e começou a cavar os alicerces. Em 1834, quando o Acampamento de Sião foi organizado, Hyrum ajudou Lyman Wight a recrutar os membros do acampamento e liderou um grupo de santos de Michigan até Missouri.

Tendo sido assim provado nas pequenas coisas, Hyrum tornou-se Presidente Assistente da Igreja em dezembro de 1834. Serviu sob a direção de seu irmão mais novo, o Profeta Joseph. Era sempre uma fonte de força e consolo para seu irmão, fosse a serviço da Igreja ou na cadeia de Liberty. Quando as perseguições chegaram, e Joseph fugiu do populacho, em Nauvoo, em 1844, Hyrum foi com ele. Quando estava junto às margens do rio, ponderando se deveria voltar, Joseph virou-se para Hyrum, e disse: “Você é o mais velho, o que devemos fazer?

Vamos voltar e nos entregar, e ver o que acontece”, respondeu Hyrum.13

Eles voltaram para Nauvoo e depois foram levados para Carthage, onde morreram como mártires, com um intervalo de poucos minutos um do outro. Hyrum tinha sido fiel ao que lhe fora confiado, a ponto de sacrificar a própria vida. Em todos os aspectos, foi um discípulo do Salvador. Mas foi seu empenho diário em ser fiel que o tornou verdadeiramente grande. Oliver Cowdery, por sua vez, foi grande ao manusear as placas e receber a visita de anjos, mas quando teve de suportar fielmente as provações e desafios do dia-a-dia, vacilou e afastou-se da Igreja.

Não provamos nosso amor pelo Salvador apenas fazendo “alguma grande coisa”. Se o profeta pessoalmente lhes pedisse que fossem para uma missão num país exótico, vocês iriam? É provável que fizessem todo o possível para irem. Mas e quanto a pagar o dízimo? E o ensino familiar? Mostramos nosso amor pelo Salvador realizando as pequenas e numerosas demonstrações de fé, devoção e bondade para com o próximo que definem nosso caráter. Isso foi muito bem demonstrado na vida do Dr. George R. Hill III, que foi autoridade geral e faleceu há poucos meses.

O Élder Hill era uma autoridade mundial em carvão e um cientista de renome. Recebeu muitos prêmios e homenagens por suas realizações científicas. Foi reitor do College of Mines and Mineral Resources e professor de engenharia da Universidade de Utah. Mas como pessoa, o Élder Hill era humilde, modesto e totalmente dedicado. Serviu como bispo de três alas diferentes e como representante regional antes de ser chamado como autoridade geral. Depois de sua desobrigação como Autoridade Geral, tornou-se conselheiro de bispado. Seus últimos chamados, quando já estava com a saúde debilitada, foram o de diretor da fábrica de enlatados de uma estaca e integrante do coro da ala. Cumpriu esses últimos chamados com a mesma dedicação que demonstrara em todos os outros. Fez tudo o que foi chamado a fazer. Não precisava ser “alguma grande coisa”.

Como um amigo meu disse certa vez, “quando sacrificamos nossos talentos, nossas honras terrenas ou acadêmicas, ou nosso tempo cada vez mais limitado no altar de Deus, esse sacrifício une nosso coração a Ele, e sentimos nosso amor por Ele aumentar.

Quando prestamos qualquer serviço no reino, seja o de dar uma aula ou enlatar alimentos num projeto de bem-estar, isso terá muito menos valor para nós se o considerarmos apenas um mero afazer. (…) Mas se nos visualizarmos depondo no altar de Deus nossos talentos ou nosso tempo, como quando temos que assistir a uma reunião da Igreja num horário inconveniente, então nosso sacrifício se torna um ato pessoal de adoração a Deus”.14

Uma história contada por nosso querido colega, o Élder Henry B. Eyring, pode ilustrar ainda mais esse princípio de dedicação. É uma história sobre seu pai, o grande cientista Henry Eyring, que serviu no sumo conselho da estaca Bonneville. Ele era responsável pela fazenda de bem-estar, que incluía uma plantação de cebolas com ervas daninhas a serem arrancadas. Nessa época, ele estava com quase oitenta anos de idade e padecia de um doloroso câncer ósseo. Designou a si mesmo a tarefa de arrancar o mato, embora as dores que sentia fossem tão cruciantes que o obrigaram a arrastar-se pelo chão, apoiado nos cotovelos. A dor era tão intensa que o impedia de ajoelhar-se. Mas mesmo assim, ele sorria, ria e conversava alegremente com as demais pessoas que estavam trabalhando com ele no campo de cebolas naquele dia. Vou citar as palavras do Élder Eyring sobre esse dia:

“Depois de todo o trabalho estar terminado, e todas as ervas daninhas terem sido arrancadas, alguém lhe disse: ‘Henry, pelos céus! Não me diga que você arrancou todas aquelas ervas daninhas! Elas foram pulverizadas com herbicida há dois dias e já iam morrer de qualquer forma’.

Meu pai apenas deu uma grande risada. Achou aquilo a coisa mais engraçada do mundo. Achou que tinha sido uma grande piada. Tinha trabalhado o dia inteiro arrancando as ervas erradas. Elas tinham sido pulverizadas com herbicida, e iriam morrer de qualquer forma.

(…) Perguntei: ‘Pai, como pôde achar isso engraçado?’ (…)

Ele respondeu algo que jamais esquecerei. (…) Ele disse: ‘Hal, eu não estava lá por causa das ervas daninhas’”.15

As pequenas coisas podem ter um grande potencial. A televisão, que é uma grande bênção para a humanidade, foi concebida por um adolescente de Idaho quando estava arando fileiras paralelas no campo de seu pai com um arado de disco. Ele imaginou que poderia transmitir linhas retas a partir de um dissector de imagens para serem reproduzidas em outro.16 Muitas vezes não vemos o potencial que existe em fazermos coisas aparentemente pequenas. Aquele rapaz de 14 anos estava realizando um trabalho comum do dia-a-dia quando lhe ocorreu essa extraordinária idéia. Conforme disse Néfi: “E assim vemos que, por meio de pequenos recursos, pode o Senhor realizar grandes coisas”.17

Vocês, rapazes, são uma geração escolhida cujo futuro reserva muitas promessas. O futuro pode exigir que tenham de competir com outros rapazes num mercado de trabalho mundial. Vocês precisam de treinamento especial. Podem ser escolhidos para receber esse treinamento não por causa de alguma realização extraordinária ou por alguma coisa grande que tenham feito, mas por receberem a medalha de Escoteiro da Pátria, por receberem o Reconhecimento Dever para com Deus, por terem-se formado no seminário ou servido como missionários.

Na parábola dos talentos, foi dito àquele que aumentou seus talentos: “Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel; sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor”.18 Que sejamos todos fiéis no cumprimento das coisas comuns do dia-a-dia que provam nossa dignidade, pois elas conduzem-nos e qualificam-nos para as grandes coisas. Presto testemunho disso em nome de Jesus Cristo. Amém.