Abrigar-se da Tempestade
    Notas de rodapé

    Abrigar-se da Tempestade

    Esse momento não os define, mas nossa reação ajudará a definir quem somos.

    “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;

    Estava nu, e vestistes-me; (…)

    Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”1

    Estima-se que haja 60 milhões de refugiados hoje no mundo, e isso significa que “uma em cada 122 pessoas (…) foi forçada a fugir de sua casa”2 e metade delas são crianças.3 É chocante considerar os números envolvidos e pensar a respeito do significado disso na vida de cada pessoa. Minha designação atual é na Europa, onde 1 milhão e 250 mil desses refugiados chegaram de partes devastadas pela guerra na África e no Oriente Médio, no último ano.4 Vemos muitos deles chegarem apenas com as roupas do corpo e com o que conseguem carregar em uma bolsa pequena. Muitos são instruídos e todos tiveram que abandonar o lar, os estudos e o emprego.

    Sob a direção da Primeira Presidência, a Igreja está trabalhando com 75 organizações em 17 países europeus. Essas organizações variam de grandes instituições internacionais a pequenas iniciativas comunitárias, de agências do governo a serviços de caridade religiosos e seculares. Temos o privilégio de associar-nos a eles e de aprender com pessoas que têm trabalhado com refugiados em todo o mundo por muitos anos.

    Como membros da Igreja, como povo, não temos de olhar muito para trás em nossa história para nos lembrar de quando éramos refugiados, violentamente expulsos de casas e fazendas repetidas vezes. Na semana passada, falando dos refugiados, a irmã Linda Burton pediu às mulheres da Igreja que ponderassem: “E se a história deles fosse a minha história?”5 A história deles é a nossa história, em um passado recente.

    Existem argumentos muito controversos dos governos e da sociedade sobre a definição de um refugiado e o que deve ser feito para ajudá-los. Minhas palavras não se destinam de forma alguma a fazer parte dessa discussão acalorada nem tecer comentários sobre as políticas de imigração, mas, sim, voltar a atenção para as pessoas que foram expulsas de casa e de seu país por causa de guerras que esses refugiados não começaram.

    O Salvador sabe como é ser um refugiado — Ele foi um. Quando era criança, Jesus e Sua família fugiram para o Egito para escapar da letal espada de Herodes. E em vários momentos de Seu ministério, Jesus foi ameaçado e Sua vida esteve em perigo; por fim, submeteu-Se aos desígnios de homens maus que haviam planejado Sua morte. Talvez, então, seja ainda mais notável para nós que Ele muitas vezes tenha nos ensinado a amar uns aos outros, amar como Ele ama, a amar nosso próximo como a nós mesmos. Verdadeiramente, “a religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações”6 e “[cuidar] dos pobres e necessitados e [ministrar-lhes] auxílio para que não sofram”.7

    Tem sido inspirador testemunhar o que os membros da Igreja de todo o mundo têm generosamente doado para ajudar essas pessoas e famílias que perderam tantas coisas. Já vi, especialmente por toda a Europa, muitos membros da Igreja que vivenciaram um alegre despertar e enriquecimento da alma quando atenderam ao profundo e inato desejo de estender a mão e servir aos que estão extremamente necessitados ao seu redor. A Igreja forneceu abrigo e cuidados médicos. As estacas e missões montaram muitos milhares de kits de higiene. Outras estacas forneceram alimentos, água, roupas, casacos à prova d’água, bicicletas, livros, mochilas, óculos de leitura e muito mais.

    Pessoas da Escócia à Sicília têm participado de todas as formas possíveis. Médicos e enfermeiros têm oferecido seus serviços voluntários no lugar onde refugiados chegam encharcados, com frio e traumatizados com a travessia pela água. À medida que os refugiados iniciam o processo de reassentamento, os membros locais os ajudam a aprender o idioma do país, enquanto outros buscam elevar o espírito dos filhos e dos pais, fornecendo brinquedos, materiais de artesanato, música e entretenimento. Alguns doam linhas, agulhas de tricô e de crochê e ensinam essas habilidades aos refugiados locais, idosos e jovens.

    Experientes membros da Igreja que têm anos de serviço e liderança atestam que ministrar a essas pessoas que necessitam de ajuda imediata proporcionou-lhes a experiência de serviço mais enriquecedora e gratificante que já tiveram até agora.

    É preciso ver a realidade dessas situações para podermos acreditar nela. No inverno conheci, entre outras pessoas, uma mulher síria, grávida, que estava em um acampamento de trânsito para refugiados procurando desesperadamente a garantia de que não teria seu bebê no chão frio do imenso salão onde estava instalada. Na Síria, ela era professora universitária. Na Grécia, conversei com uma família que ainda estava molhada, tremendo e com medo de sua travessia da Turquia em um bote de borracha. Depois de olhar em seus olhos e ouvir suas histórias, tanto do terror do qual fugiram como de sua perigosa jornada para encontrar refúgio, nunca mais serei o mesmo.

    Muitos trabalhadores dedicados estendem cuidado e auxílio humanitários de forma voluntária. Vi uma irmã da Igreja em ação, que trabalhou durante noites inteiras, por muitos meses, para suprir as necessidades mais imediatas daqueles que chegavam à Grécia, vindos da Turquia. Dentre inúmeros outros esforços, ela administrava os primeiros socorros a pessoas com necessidades médicas urgentes; assegurava-se de que as mulheres e as crianças que viajavam sozinhas fossem auxiliadas; apoiava os que haviam perdido entes queridos ao longo do caminho e fazia o seu melhor para disponibilizar recursos limitados para necessidades que eram ilimitadas. Ela, assim como muitos outros, tem sido literalmente um anjo ministrador, cujas ações não foram esquecidas por aqueles a quem ela ajudou nem pelo Senhor, a Quem ela serve.

    Todos os que têm dado de si mesmos para aliviar o sofrimento ao seu redor são muito semelhantes ao povo de Alma: “E assim, em sua prosperidade, não deixavam de atender a quem quer que estivesse nu ou faminto ou sedento ou doente ou que não tivesse sido alimentado; (…) eram liberais com todos, tanto velhos como jovens, tanto escravos como livres, tanto homens como mulheres, pertencessem ou não à igreja, não fazendo acepção de pessoas no que se referia aos necessitados”.8

    Precisamos tomar cuidado com as notícias sobre os refugiados para que isso não se torne, de alguma maneira, algo rotineiro à medida que o choque inicial passar, porque as guerras continuam e as famílias não param de chegar. Milhões de refugiados em todo o mundo, cujas histórias já não fazem mais parte dos noticiários, ainda estão necessitando desesperadamente de ajuda.

    Se você está se perguntando “o que posso fazer?”, lembremo-nos primeiro de que não devemos servir em detrimento de nossa família e outras responsabilidades9 e tampouco devemos ficar esperando que nossos líderes organizem projetos para nós. Mas, como jovens, homens, mulheres e famílias, podemos nos unir nesse grande trabalho humanitário.

    Em resposta ao convite da Primeira Presidência para participar de serviço cristão aos refugiados em todo o mundo,10 a presidência geral da Sociedade de Socorro, a das Moças e a da Primária organizaram um trabalho de socorro, intitulado “Era Estrangeiro”. A irmã Burton o apresentou às mulheres da Igreja na semana passada, na sessão geral das mulheres. Há várias sugestões úteis, recursos e sugestões de serviço em EraEstrangeiro.LDS.org.

    Comece ajoelhando-se em oração. Depois, pense em coisas que podem ser feitas perto de casa, em sua própria comunidade, onde você vai encontrar pessoas que precisam de ajuda para adaptar-se às suas novas circunstâncias. O objetivo final é a reabilitação deles para uma vida autossuficiente e industriosa.

    As possibilidades para colaborar e para estender nossa amizade são ilimitadas. Você pode ajudar os refugiados assentados a aprender o idioma do país, atualizar suas habilidades de trabalho ou praticar entrevistas de emprego. Você pode se oferecer para orientar uma família ou uma mãe solteira na transição para a cultura desconhecida, mesmo que seja fazendo algo simples como acompanhá-las ao supermercado ou à escola. Algumas alas e estacas já possuem organizações parceiras confiáveis. E, de acordo com suas circunstâncias, você pode recorrer ao extraordinário trabalho humanitário da Igreja.

    Além disso, cada um de nós pode aumentar nossa consciência dos acontecimentos mundiais que retiram essas famílias de seu lar. Precisamos tomar uma posição contra a intolerância e defender o respeito e a compreensão entre culturas e tradições. Reunir-se com famílias de refugiados e ouvir pessoalmente as histórias deles, e não por meio da televisão ou do jornal, vai fazer com que haja uma mudança em você. Amizades reais serão desenvolvidas e haverá compaixão, amizade e integração bem-sucedida.

    O Senhor instruiu-nos que as estacas de Sião devem ser “uma defesa” e “um refúgio contra a tempestade”.11 Encontramos refúgio. Saiamos de nossa zona de conforto e compartilhemos com eles, por termos em abundância, esperança por um futuro mais brilhante, em Deus e em nosso próximo, e amor que enxerga além das diferenças ideológicas e culturais para a gloriosa verdade de que somos todos filhos de nosso Pai Celestial.

    “Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor.”12

    Ser um refugiado pode significar um momento na vida deles, mas isso não define quem eles são. Como incontáveis milhares antes deles, isso será um período — esperamos que um período curto — em sua vida. Alguns deles seguirão em frente e se tornarão ganhadores do Nobel, servidores públicos, médicos, cientistas, músicos, artistas, líderes religiosos e colaboradores em outros campos. De fato, muitos deles já eram isso antes de perderem tudo. Esse momento não os define, mas nossa reação ajudará a definir quem somos.

    “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”13 Em nome de Jesus Cristo. Amém.

    Para mais referências, veja EraEstrangeiro.LDS.org e mormonchannel.org/blog/post/40-ways-to-help-refugees-in-your-community.