Conferência Geral
    O Que deus Ajuntou
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    O Que deus Ajuntou

    “Esposas, considerai vosso marido, como vosso companheiro precioso… Maridos, vede em vossa esposa o vosso maior benefício nesta vida e na eternidade.”

    Há dez dias tive uma experiência bela e comovente no Templo de Lago Salgado, que é o prédio ao lado deste Tabernáculo. Lá, naquele santuário sagrado, tive o privilégio de selar em matrimônio, em duas cerimônias separadas, mas consecutivas, duas lindas jovens gêmeas, cada uma ao rapaz atraente que havia escolhido. Naquela noite houve uma recepção em que centenas de amigos foram desejar-lhes felicidade e expressar-lhes seu amor.

    As mães muitas vezes choram durante a cerimônia de casamento. As irmãs também, e ,às vezes, até os pais. Os avós raramente demonstram emoção, mas estas lindas jovens eram minhas próprias netas, e devo confessar que este avô idoso, emocionado, se viu em dificuldades. Não compreendo por quê. Certamente era uma ocasião para ser comemorada, uma realização de sonhos e de orações. Talvez minhas lágrimas tenham sido realmente uma expressão de alegria e de gratidão a Deus por estas lindas noivas e seus jovens e belos maridos. Em sagradas promessas juraram amor e lealdade um ao outro, para o tempo e toda eternidade.

    Como é belo o casamento no plano de nosso Pai Eterno, um plano criado em sua divina sabedoria para a felicidade e a segurança de seus filhos, e para a continuação da raça humana!

    Ele é nosso Criador e planejou o casamento desde o começo. Quando Eva foi criada, “disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne…

    Portanto deixará o varão o seu pai e a sua mãe e, apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.” (Gênesis 2:23-24.)

    Paulo escreveu aog santos de Corinto, dizendo: “Todavia, nem o varão é sem a mulher, nem a mulher sem o varão, no Senhor” (I Corindos 11:11).

    Em revelação moderna, o Senhor disse: “E novamente, em verdade vos digo, que todo o que proíbe o casamento não é ordenado de Deus, pois o casamento é ordenado por Deus para os homens.” (D&C 49:15.)

    O Presidente Joseph F. Smith declarou certa vez “que nenhum homem pode ser salvo e exaltado no reino de Deus sem a mulher, e nenhuma mulher pode atingir perfeição e exaltação no reino de Deus sozinha… Deus instituiu o casamento desde o começo. Ele fez o homem à sua imagem e semelhança, homem e mulher, e em sua criação foi determinado que eles deviam ser unidos nos laços sagrados do matrimônio, e que um não é perfeito sem o outro”. (Conference Report, abril de 1913, pp. 118-119.)

    Certamente, os que lêem as escrituras antigas e modernas não podem duvidar da divindade do conceito de casamento. Os sentimentos mais doces da vida, os impulsos mais generosos e gratificantes do coração humano encontram expressão num casamento que permanece puro e sem manchas, acima dos males do mundo.

    Este é o casamento desejado, esperado, almejado — é a resposta às orações de todos os homens e de todas as mulheres em todo lugar.

    Há pouco tempo, a bordo de um avião, apanhei um exemplar da Revista Nova York. Ao folheá-la encontrei uma seção intitulada: “Anúncios estritamente pessoais.” Contei 159 anúncios de homens e mulheres solitários, em busca de companhia. Era evidente que cada um procurava apresentar-se da melhor maneira possível. Oxalá tivesse tempo de ler-vos alguns. Tenho certeza de que haveríeis de gostar. Nada havia de indecoroso nestes anúncios. Era fácil ver que, atrás das descrições espirituosas e inteligentes, havia muita tristeza e muita solidão, e um grande desejo de encontrar uma pessoa amiga com quem trilhar a estrada da vida.

    Compadeço-me daqueles que, entre nós, especialmente nossas irmãs solteiras, que desejam um casamento e parecem não conseguir encontrá-lo. O Pai Celestial reserva-lhes todas as bênçãos prometidas. Tenho muito menos simpatia pelos rapazes que, de acordo com os costumes de nossa sociedade, têm o privilégio de tomar a iniciativa nestas questões, mas que, em muitos casos, não o fazem. No passado, palavras enérgicas lhes foram dirigidas por presidentes desta Igreja.

    O casamento em geral significa filhos e família. Será que uma jovem mãe, após dar à luz o primeiro filho, duvida da divindade, da maravilha e do milagre do acontecimento? Um jovem pai, olhando para o filho recém-nascido, só pode sentir que o bebê faz parte dos desígnios do Todo-Poderoso.

    Naturalmente, nem tudo no casamento são alegrias. Há alguns anos eu recortei as seguintes palavras de uma coluna escrita por Jenkins Lloyd Jones:

    “Parece haver uma superstição entre os muitos milhares de nossos jovens que andam de mãos dadas e se beijam no cinema, de que o casamento é uma casinha coberta de flores perpétuas, na qual um marido perpetuamente jovem e belo vai ao encontro de uma esposa perpetuamente encantadora e jovem. Quando as flores murcham, e a monotonia e as contas começam a chegar, os tribunais de divórcio ficam lotados…

    Quem imagina que a felicidade é o estado normal, vai perder muito tempo correndo por aí e gritando que foi roubado.” (Deseret News, 12 de junho de 1973, p. 4.)

    Qualquer lar é alvo de tempestades, de vez em quando. Inevitavelmente associada a todo este processo, está a dor, a dor física, a dor mental e a dor emocional. Há muita tensão e luta, medo e preocupação. Para a maioria, a sempre persistente batalha das finanças. Nunca parece haver dinheiro suficiente para cobrir todas as necessidades da família. Doenças atacam. Acidentes acontecem. A mão da morte pode estender-se sorrateiramente para levar uma vida preciosa.

    Tudo isso, contudo, parece fazer parte do processo da vida em família. Poucos são os que vivem sem passar pelo menos por algumas destas coisas. Foi assim desde o começo. Caim brigou com Abel e então cometeu aquele crime horrível. Como deve ter sido grande o sofrimento dos pais, Adão e Eva!

    Absalão foi o terceiro filho de Davi, um filho favorecido e amado. Davi lhe dera um nome que significava “pai da paz”. Ele, porém, não trouxe paz, mas sim rancor, ambição e tristeza. Matou o irmão e conspirou contra o pai. Entre as suas más ações, na campanha para conquistar o trono do pai, enquanto montado em uma mula, a cabeça de Absalão se prendeu nos ramos de um carvalho e ali ficou ele pendurado, indefeso. Joab, sobrinho de Davi e capitão do exército do rei, aproveitando a oportunidade para livrar-se daquele filho rebelde e traiçoeiro, atravessou-lhe o coração com dardos. Parece que ele pensou estar fazendo um favor para o rei, mas quando Davi recebeu a notícia da morte do filho, apesar de aquele filho ter conspirado para destruí-lo, … o rei se perturbou, e subiu à sala que estava por cima da porta, e chorou; e andando, dizia assim: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão meu filho… Estava pois o rei com o rosto coberto; e o rei gritava…” (II Samuel 18:33; 19:4.)

    Em toda a história do homem, as ações dos filhos rebeldes são repletas de amargura e sofrimento, mas mesmo em caso de rebelião, os fortes laços de família se estendem para abraçar o rebelde.

    Não conheço história mais linda em toda a literatura do que aquela contada pelo Mestre, e que aparece no capítulo 15 de Lucas. E a história de um filho orgulhoso e ambicioso, que exigiu sua herança e que ele gastou até nada restar. Penitente, regressou ao lar paterno, e o pai, vendo-o chegar à distância, correu-lhe ao encontro, abraçou-o e beijou-o.

    Alguns dos que hoje me ouvem podem contar histórias de pesar por que passou sua própria família. Entre as maiores tragédias, porém, e acho que é a mais comum, encontra-se o divórcio. Tornou-se um grande flagelo. A mais recente edição do Almanaque Mundial indica que nos Estados Unidos, durante os doze meses que precederam março de 1990, houve 2.423.000 casamentos. Durante o mesmo período calcula-se que 1.777.000 casais se divorciaram. (World Almanac de 1991, p. 834 e Books of Facts, Nova York: World Almanac, 1990.)

    Isto significa que, nos Estados Unidos, de cada dois casamentos praticamente um terminou em divórcio.

    Estes são apenas números escritos nas páginas de um livro, mas atrás deles há mais casos de traição, dor, abandono, pobreza e lutas do que a mente humana pode imaginar. Milhões de divorciados neste país encontram-se solitários, frustrados, inseguros e infelizes. Milhões de mães e pais lutam sozinhos para criar a família, carregando fardos acima de sua capacidade. Milhões de filhos estão se criando em lares de pais solteiros, em que a pessoa responsável, em geral a mãe, por necessidade, está ausente uma boa parte do tempo. Estes filhos “trancados” voltam da escola diariamente para uma casa vazia, sem comida adequada, e só encontram refúgio num aparelho de televisão. Não só os filhos sofrem, mas toda a sociedade está pagando um preço elevadíssimo por essa situação. Quando ficam mais velhos, a incidência do uso de drogas aumenta em seu meio. Muitos se tornam criminosos. Sem treinamento adequado, veêm-se desempregados. Alguns desperdiçam a vida sem terem um objetivo. Milhões se tornaram os destroços do naufrágio da sociedade, levados à praia por oceanos de abandono, de abuso e de frustração, incapazes de corrigir a situação em que se encontram. A revista Time, falando dos problemas da cidade de Nova York, disse que' o mais sério é o da dissolução das famílias. Sessenta por cento dos alunos que freqüentam as escolas públicas de Nova York, num total de 600.000, vêm de lares onde só há um dos pais. Estudos semelhantes sem dúvida produziriam estatísticas comparáveis em outras cidades grandes da América e do mundo.

    Construímos e mantemos mais prisões do que podemos. Os custos são enormes, quase inimagináveis.

    Uma porcentagem alarmante dos que se encontram nessas instituições vêm de lares desfeitos, em que o pai abandonou a família e a mãe lutou em vão para vencer, enfrentando situações dificílimas.

    Por que existem tantos lares desfeitos? O que acontece aos casamentos, que começam com amor sincero e com o desejo de lealdade e fidelidade mútuas?

    Não há resposta simples, admito, mas parece-me que há algumas razões óbvias que explicam uma porcentagem bem alta destes problemas. Digo isto pela experiência que tenho em tratar tragédias dessa natureza. Verifico que o egoísmo é a raiz disso tudo, na maioria dos casos.

    Estou convencido de que um casamento feliz não é tanto uma questão de romance quanto a preocupação com o conforto e o bem-estar do cônjuge.

    O egoísmo é, muitas vezes, a origem dos problemas financeiros que são o fator sério e real que afeta a estabilidade da vida familiar. O egoísmo é a origem do adultério, da violação dos convênios solenes e sagrados para satisfazer a lascívia egoísta. O egoísmo é a antítese do amor. E uma expressão cancerosa de ganância. Destrói a autodisciplina. Arrasa a lealdade. Dilacera os convênios sagrados. Aflige tanto homens quanto mulheres.

    Muitas pessoas que se casam saíram de lares onde foram mimadas, mal-acostumadas e, de algum modo, levadas a achar que no casamento tudo deve ser precisamente certo a toda hora; que a vida é uma série de diversões; que os apetites devem ser satisfeitos sem se levar princípios em consideração. Quão trágicas são as conseqüências de um pensar tão vazio e irracional!

    As amargas conseqüências se manifestam na vida de filhos que necessitam de um pai para amá-los, ensiná-los, protegê-los e levá-los pelo caminho da vida, pelo exemplo e preceito, mas que não o têm. Vou contar-vos algo que ouvi há dois anos, neste Tabernáculo. Foi numa reunião de solteiros. O Elder Marion D. Hanks presidia um painel. Participava deste painel uma mulher jovem, divorciada, mãe de sete filhos, que tinham de cinco a dezesseis anos. Ela disse que certa noite atravessara a rua para entregar algo a uma vizinha. Estas foram suas palavras, segundo me lembro: “Quando me virei para voltar, vi minha casa iluminada. Ouvia ainda os ecos das palavras de meus filhos, quando saíra alguns minutos antes: ‘Mãe, o que tem para o jantar?’ ‘Pode levar-me à biblioteca?’ ‘Eu preciso de cartolina para hoje à noite.’ Cansada e desanimada, olhei para a casa e vi que todos os cômodos estavam iluminados. Pensei em todos os filhos à espera dos meus cuidados. Senti uma carga pesada sobre os ombros.

    Lembro-me de ter olhado para os céus, os olhos cheios de lágrimas, e de ter dito: ‘Oh, meu Pai, hoje eu não agüento. Estou tão cansada. Não consigo enfrentar a situação. Não posso ir para casa e cuidar de todos esses filhos sozinha. Será que eu posso ir ter contigo e ficar aí apenas uma noite? Eu volto amanhã cedo.

    Não ouvi, na verdade, uma resposta, mas pensei comigo que a resposta era: ‘Não, filhinha, não podes vir ter comigo agora. Jamais desejarias voltar, mas eu posso ir ter contigo.”’

    Há tantas mães como aquela jovem! Ela reconhece o poder divino que está ao seu alcance. Ela tem sorte de ter ao seu redor quem a ame e quem a ajude, mas muitas não têm tal sorte. Na solidão e no desespero, vendo os filhos presos às drogas, crimes e incapazes de interromper o curso, elas choram e oram.

    Há um remédio para tudo isto. Não se encontra no divórcio. Encontra-se no Evangelho do Filho de Deus. Ele disse: “Portanto o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mateus 19:6.) O remédio para a maior parte das pressões do casamento não é o divórcio. E o arrependimento. Não é a separação. E a integridade simples que leva o homem a se levantar e a enfrentar suas obrigações. Encontra-se no tratar os outros como esperamos ser tratados.

    O casamento é belo quando buscamos e cultivamos a beleza. Pode ser feio e incômodo quando enxergamos os defeitos e ficamos cegos às virtudes. Como Edgar A. Guest observou: “E preciso muita vivência para que uma casa se torne um lar.” (“Home”, em Collected Verses of Edgar A. Guest, Chicagq: Reilly and Lee Co. 1934, p. 12.) E verdade. Posso mostrar em toda esta Igreja centenas de milhares de famílias que conseguem isso, vivendo com amor e paz, disciplina e honestidade, interesse e generosidade.

    E necessário que o marido e a mulher reconheçam a solenidade e a santidade do casamento e o desígnio divino em que se alicerça.

    Deve haver o desejo de ignorar pequenos defeitos, de perdoar e, então, esquecer.

    E necessário aprender a controlar a língua. O mau gênio é uma coisa cruel e corrosiva, que destrói a afeição e expulsa o amor.

    Deve haver autodisciplina, que refreie o impulso de abusar da esposa, dos filhos e de si próprio. Deve haver o espírito de Deus, convidado e trabalhado, nutrido e fortalecido. Deve haver o reconhecimento de que cada um é filho de Deus — o pai, a mãe, o filho e a filha, cada um tendo uma linhagem divina — e também o reconhecimento de que quando ofendemos a um destes estamos ofendendo a nosso Pai Celestial.

    As vezes, poderá haver motivo legítimo para o divórcio. Nao vou dizer que nunca seja justificado, mas digo sem a menor hesitação que esta praga que existe entre nós e que parece estar crescendo em todos os lugares, não é de Deus mas sim a obra do adversário da retidão, da paz e da verdade. Não é preciso ser sua vítima. Podemos lutar contra seus estratagemas e suas súplicas. Livrai-vos das más diversões, da pornografia que conduz aos desejos vis e à atitude repreensível. Esposas, considerai vosso marido como vosso companheiro precioso e sede dignas de tal associação. Maridos, vede em vossa esposa o vosso maior benefício nesta vida e na eternidade, uma filha de Deus, companheira com quem caminhar de mãos dadas, na alegria ou na tristeza, no perigo ou no triunfo da vida. Pais, vede vossos filhos como filhos de nosso Pai Celestial, que vos responsabilizará por eles. Uni-vos para protegê-los, defendê-los, guiá-los e ampará-los.

    A força das nações está nos lares do povo. Deus arquitetou a família. E sua intenção que a maior felicidade, os aspectos mais confortantes da vida e as mais profundas alegrias venham da associação de pais, mães e filhos.

    Deus abençoe os lares de nosso povo. Abençoe os lares para que tenham pais leais e verdadeiros, mães que sejam excelentes e filhos obedientes e capazes, criados “na doutrina e admoestação do Senhor” (Enos 1:1), é o que peço humildemente em nome de Jesus Cristo, amém.