2000–2009
O Dízimo: Um Mandamento até para os Mais Pobres
anterior próximo

O Dízimo: Um Mandamento até para os Mais Pobres

O sacrifício genuíno é a marca dos fiéis desde o princípio.

No clássico imortal de Charles Dickens: Um Cântico de Natal, Bob Cratchit tinha esperanças de passar o dia de Natal com a família:

— Se não for incômodo para o senhor, pediu ao patrão, o Sr. Scrooge.

— É incomodo e não é justo. Se eu descontasse um dia de seu salário você acharia injusto, (…) mas mesmo assim, disse Scrooge, não acha que é injusto eu pagar um dia e você não trabalhar.

O empregado observou que era só uma vez por ano.

— Péssima desculpa para roubar alguém todo 25 de dezembro! disse Scrooge.1

Para Scrooge, como para qualquer egoísta e qualquer “homem natural”, os sacrifícios nunca são convenientes.

O homem natural tem a tendência de pensar só em si mesmo: não só de colocar a si mesmo em primeiro lugar, mas de raramente, colocar alguém em segundo lugar, nem Deus. Para o homem natural o sacrifício não é uma coisa natural. Sua sede por mais é insaciável. Parece que suas ditas “necessidades” sempre excedem sua renda, de modo que “ter o suficiente” é sempre uma meta inalcançável, assim como para o avarento Scrooge.

Como o homem natural tem a tendência de acumular ou consumir tudo, o Senhor foi sábio em mandar que a Israel antiga sacrificasse, não o pior animal do rebanho, mas as primícias; não os restos da colheita, mas as primícias. (Ver Deuteronômio 26:2; Mosias 2:3; Moisés 5:5.) O sacrifício genuíno é a marca dos fiéis desde o princípio.

Entre os que não fazem sacrifícios há dois extremos: o primeiro é o rico glutão que não quer se sacrificar; o outro é o pobre miserável que acha que não tem o que sacrificar. Mas como pedir a quem passa fome que coma menos? Haverá alguém tão pobre que não se deva esperar que faça sacrifícios, ou será que há alguma família em pobreza tão extrema que deva ser dispensada de pagar o dízimo?

O Senhor muitas vezes ao ensinar usa situações extremas para ilustrar um princípio. A história da viúva de Sarepta é um exemplo de como a extrema miséria foi usada para ensinar a doutrina de que a misericórdia não pode roubar o sacrifício, assim como não pode roubar a justiça. Na verdade, a medida mais fiel do sacrifício não é tanto o quanto a pessoa dá, mas o quanto a pessoa se sacrifica para isso. (Ver Marcos 12:43.) A prova da fé é maior quando a despensa está vazia do que quando ela está cheia. Nesses momentos decisivos, a crise não forma o caráter de ninguém: ela o revela. A crise é a prova.

A viúva de Sarepta viveu no tempo do profeta Elias, por cuja palavra o Senhor mandou que houvesse seca em toda a terra por três anos e meio. (Ver Lucas 4:25.) A fome foi tão intensa que muitos já estavam à morte. Essa era a situação da viúva.

O Senhor disse a Elias: “Levanta-te, e vai para Sarepta (…); eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente”. (I Reis 17:9) É interessante que Elias não tenha sido mandado a Sarepta até que a viúva e o filho estivessem à beira da morte. Foi nesse momento extremo, quando ia morrer de fome, que a sua fé foi provada.

Ao entrar na cidade, ele a viu apanhando lenha.

“(…) e ele a chamou, e lhe disse: Traze-me, peço-te, num vaso um pouco de água que beba.

E, indo ela a trazê-la, ele a chamou e lhe disse: Traze-me agora também um bocado de pão na tua mão.

Porém ela disse: Vive o Senhor teu Deus, que nem um bolo tenho, senão somente um punhado de farinha numa panela, e um pouco de azeite numa botija; e vês aqui apanhei dois cavacos, e vou prepará-lo para mim e para o meu filho, para que o comamos, e morramos. (vers. 10–12)

Um punhado de farinha é bem pouco mesmo, talvez só o bastante para uma porção, o que torna a resposta de Elias curiosa, escutem só: “E Elias lhe disse: Não temas; vai, faze conforme à tua palavra; porém faze dele primeiro para mim um bolo pequeno, (…)”. (vers. 3, grifo do autor.)

Será que não parece egoísta pedir não só a primeira porção, mas talvez o que seria a única porção? Se nossos pais nos ensinaram a ceder a vez às outras pessoas e principalmente que os cavalheiros devem ceder a vez às damas, quanto mais às viúvas famintas? A escolha era dela: comer ou sacrificar sua última refeição e apressar a morte? Talvez ela sacrificasse a própria comida, mas sacrificaria a comida destinada ao filho faminto?

Elias entendia a doutrina de que somos abençoados depois da prova de nossa fé. (Ver Éter 12:6; D&C 132:5.) Ele não foi egoísta. Como servo do Senhor, Elias estava ali para dar, não para tomar. A narrativa continua:

“(…) porém faze dele primeiro [as primícias] para mim um bolo pequeno, e traze-mo aqui; depois farás para ti e para teu filho.

Porque assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra.

E ela foi e fez conforme a palavra de Elias; e assim comeu ela, e ele, e a sua casa muitos dias.

Da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou; conforme a palavra do Senhor, que ele falara pelo ministério de Elias”. (vers. 13–16, grifo do autor)

Uma das razões por que o Senhor ilustra as doutrinas com as situações mais extremas é para eliminar as desculpas. Se o Senhor espera que até a mais pobre das viúvas dê do pouco que tem, como ficam todos os outros que não acham conveniente nem fácil fazer sacrifícios?

Nenhum bispo, nenhum missionário, deveria jamais hesitar ou não ter a fé necessária para ensinar a lei do dízimo aos pobres. A idéia de que “eles não têm o suficiente para dar” deve ser substituída por “eles têm tão pouco que não podem deixar de dar”.

Uma das primeiras coisas que os bispos têm de fazer para ajudar os necessitados é pedir-lhes que paguem o dízimo. Como a viúva, se uma família que passa por necessidades tiver que decidir entre pagar o dízimo ou comer, ela deve pagar o dízimo. O bispo pode ajudar com os alimentos e outros artigos essenciais até que ela se torne auto-suficiente.

Em outubro de 1998, o furacão Mitch devastou muitas partes da América Central. O Presidente Gordon B. Hinckley ficou muito preocupado com as vítimas do desastre, muitas perderam tudo: a comida, as roupas, as coisas de casa. Ele visitou os santos das cidades de San Pedro Sula e Tegucigalpa, Honduras e Manágua, na Nicarágua; e, como as palavras que o profeta Elias disse com amor à viúva faminta, a mensagem desse profeta moderno foi que fizessem sacrifícios e obedecessem à lei do dízimo.

Mas como pedir a alguém tão necessitado que faça sacrifícios? O Presidente Hinckley sabia que os carregamentos de comida e roupas que eles receberam os ajudariam a sobreviver à crise, mas seu amor e cuidado com eles ia muito além. Por mais importante que seja a ajuda humanitária, ele sabia que a ajuda mais importante vem de Deus, não do homem. O profeta queria ajudá-los a abrir as janelas do céu, como foi prometido pelo Senhor no livro de Malaquias. (Ver Malaquias 3:10 e Mosias 2:24.)

O Presidente Hinckley ensinou a eles que, se pagassem o dízimo, sempre teriam comida na mesa, sempre teriam o que vestir e sempre teriam um teto para abrigá-los.

Ao servir uma refeição, é muito mais fácil acrescentar um prato logo no começo do que conseguir comida para alguém que chegue depois de a refeição estar terminada e a comida ter sido servida. Da mesma forma, não será na verdade mais fácil dar as primícias ao Senhor do que torcer para que sobre o suficiente para Ele? Será que, sendo quem nos possibilita o banquete, não deveria ser Ele o convidado de honra, o primeiro a ser servido?

Minha boa mãe, Evelyn Robbins, ensinou-me a lei do dízimo quando eu tinha quatro anos. Ela deu-me uma caixa vazia de Band-Aids, daquelas que têm uma aba para abrir e fechar. Ensinou-me a guardar os centavos do dízimo ali e, depois, levá-lo ao bispo. Serei eternamente grato a ela, pela caixa de Band-Aids e pelas bênçãos que recebi por pagar o dízimo.

Em Um Cântico de Natal, o sr. Scrooge mudou de vida: deixou de ser o que era antes. O “evangelho do arrependimento” também é assim. Se o Espírito nos inspira a ser mais obedientes à lei de sacrifício na vida, comecemos hoje a mudar.

Sou extremamente grato pelo Salvador que foi o exemplo perfeito de obediência com sacrifício; que Se ofereceu “em sacrifício pelo pecado” e tornou-Se, como disse Leí, “as primícias para Deus”. (2 Néfi 2:7, 9; grifo do autor) Presto testemunho Dele e dessas doutrinas que são Dele, em nome de Jesus Cristo. Amém.