2020
A Restauração contínua
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A Restauração contínua

A Restauração teve início no Bosque Sagrado há 200 anos e continua até hoje — e eu e você podemos participar dela.

The Desires of My Heart (First Vision), Walter Rane, 16x20

The Desires of My Heart (First Vision), de Walter Rane

Esta é uma época maravilhosa e empolgante para se viver na Terra. Temos a bênção de participar dos grandes acontecimentos que estão ocorrendo na dispensação da plenitude dos tempos, em preparação para a Segunda Vinda do Senhor.1 Não apenas estamos vendo esses magníficos eventos se desdobrando, mas somos parte deles.2

Às vezes, falamos da Restauração do evangelho como algo que aconteceu de uma só vez. Há 200 anos, a Primeira Visão deu início ao processo, mas a Restauração evidentemente não acabou ali. A obra do Senhor, por meio de Joseph Smith e seus companheiros, prosseguiu com a tradução do Livro de Mórmon, a restauração do sacerdócio, a organização da Igreja, o envio de missionários, a construção de templos, a organização da Sociedade de Socorro e assim por diante. Tais eventos da Restauração tiveram início em 1820 e se prolongaram por toda a vida de Joseph Smith.

Por mais maravilhosas que sejam as coisas que Deus revelou por meio dele, a Restauração não foi concluída durante a vida de Joseph Smith. Por meio dos profetas que o sucederam, recebemos coisas como: o desenvolvimento contínuo do trabalho do templo; novas escrituras; a tradução das escrituras em diversos idiomas; a pregação do evangelho pelo mundo; a organização da Escola Dominical, das Moças, da Primária e dos quóruns do sacerdócio, além de muitos outros ajustes à organização e aos procedimentos da Igreja.

“Somos testemunhas de um processo de restauração”, afirmou o presidente Russell M. Nelson. “Se você acha que a Igreja já foi completamente restaurada, saiba que você só viu o começo. Há muito mais ainda por vir. (…) Esperem até o próximo ano. E depois o ano seguinte. Tomem suas vitaminas. Descansem. Vai ser emocionante.”3

Em consonância com a declaração do presidente Nelson, de que a Restauração é contínua, temos visto muitos ajustes significativos na Igreja desde que ele começou a presidi-la. Dentre eles, a reestruturação dos quóruns do sacerdócio, a substituição dos programas de mestres familiares e professoras visitantes pela ministração e o estabelecimento de um método de estudo do evangelho centralizado no lar e apoiado pela Igreja.4 Outros ajustes aconteceram desde essa época e ainda virão mais.

Um exemplo na África Ocidental

Meu testemunho da natureza contínua da Restauração foi influenciado pelos cinco anos em que servi na presidência da Área África Oeste. Desde minha juventude, sempre tive um testemunho do evangelho. Porém, enquanto vivia na África, conheci alguns dos primeiros africanos ocidentais que aceitaram o evangelho. Também vi a Igreja se espalhar rapidamente pelo continente, com a formação de centenas de alas e estacas, assim como capelas e templos lotados de membros fiéis, e bons homens e mulheres abraçando o evangelho restaurado de todo o coração. Meus olhos testemunharam o cumprimento da profecia feita por Joseph Smith de que a Igreja “encherá o mundo”.5

James Ewudzie e Frederick Antwi, dois desses membros fiéis, ajudaram-me um dia no Templo de Acra Gana. Muitos anos antes da chegada dos missionários santos dos últimos dias a Gana, James fizera parte de um grupo com cerca de mil pessoas, que usavam o Livro de Mórmon e outros materiais da Igreja em suas celebrações religiosas. Eles oravam pelo dia em que a Igreja chegaria a Gana. Com outros rapazes, ele viajou por todo o país ensinando o evangelho de acordo com os materiais de que dispunham. Assim que os missionários santos dos últimos dias chegaram em 1978, ele foi batizado no primeiro dia em que foram realizados batismos em Gana.

Photo of Fred Antwi

Fred Antwi, membro pioneiro da Igreja em Gana

Pouco após se tornar membro, Fred participou do funeral de um parente que era chefe tribal. Lá, ele ficou sabendo que a família planejava que ele se tornasse o próximo chefe. Sabendo que, se aceitasse aquela posição, teria de fazer coisas contrárias às crenças do evangelho, ele rapidamente foi embora do enterro e rejeitou uma posição que lhe teria trazido proeminência e riqueza.

Assim que o Templo de Acra Gana foi dedicado, tanto James quanto Fred viajavam por mais de quatro horas, na ida e na volta, todas as semanas, a fim de oficiar no templo. Ao realizar ordenanças com eles, fiquei tocado ao me dar conta de que estávamos fazendo história. Ao perceber que os dois representavam a história da Igreja na África, senti como se John Taylor ou Wilford Woodruff, ou outros membros pioneiros da Igreja, estivessem comigo realizando aquelas ordenanças.

Aquilo que vi, vivenciei e senti na África Ocidental era parte daquilo que o Senhor disse a Enoque que aconteceria: “E retidão enviarei dos céus; e verdade farei brotar da terra para prestar testemunho do meu Unigênito; (…) e retidão e verdade farei varrerem a Terra, como um dilúvio, a fim de reunir meus eleitos dos quatro cantos da Terra” (Moisés 7:62).

Eu vi retidão e verdade varrerem o continente africano e os eleitos sendo reunidos naquela parte do mundo. Meu testemunho da Restauração aumentou ao ver aquela importante parte da Restauração acontecendo diante de meus olhos.

Também vi algo mais a respeito da Restauração contínua: uma fé vibrante e uma energia espiritual entre os membros africanos. Ouvi o élder David A. Bednar, do Quórum dos Doze Apóstolos, dizer que “Kirtland [onde os santos dos últimos dias viviam na década de 1830] não fica apenas em Ohio. Fica também na África”. Muitas pessoas estão se unindo à Igreja na África com base em vigorosas experiências espirituais individuais. Tais membros novos trazem energia espiritual e a necessidade de aprender o evangelho. Para eles, a Restauração é contínua num sentido muito pessoal. Ao aprenderem cada vez mais sobre a Igreja, as verdades do evangelho continuam se desdobrando diante de seus olhos. O mesmo se dá em relação a todos nós na medida em que continuamos aumentando nosso conhecimento do evangelho.

Três maneiras de ajudar na Restauração contínua

Deus nos deu magníficas oportunidades para desempenharmos papéis vitais em sua obra. O Senhor disse que o “o corpo [da Igreja] tem necessidade de todos os membros” (Doutrina e Convênios 84:110). Todos os membros da Igreja têm a bênção de participar dessa Restauração contínua. Como fazemos isso?

A primeira maneira de participar é fazer e guardar convênios sagrados. As ordenanças, incluindo as do templo, não têm propósito a menos que as pessoas não só façam, mas também guardem os convênios associados às ordenanças. A irmão Bonnie Parkin, ex-presidente geral da Sociedade de Socorro, ensinou: “Fazer convênios expressa um coração disposto a servir; guardar os convênios expressa um coração fiel”.6

Ao fazer e guardar convênios, não apenas nos preparamos para a vida eterna, mas também ajudamos a preparar e fortalecer aquilo que o Senhor chama de “meu povo do convênio” (Doutrina e Convênios 42:36). Fazemos convênios com Deus e nos tornamos parte de Seu povo do convênio por meio do batismo, da confirmação, do sacramento, do Sacerdócio de Melquisedeque e das ordenanças do templo.

A segunda maneira de participar da Restauração contínua é cumprir com os chamados e as designações que recebemos. É assim que a Igreja segue adiante. Professores devotados ensinam o evangelho a crianças, jovens e adultos. Irmãs e irmãos ministradores cuidam individualmente dos membros da Igreja. Presidências e bispados orientam estacas, distritos, alas, ramos, quóruns, organizações, classes e grupos. Líderes dos jovens cuidam das moças e dos rapazes. Secretários registram informações essenciais, que são então registradas no céu, e muitas outras pessoas executam importantes funções para a preparação das pessoas para a vida eterna e a Segunda Vinda do Salvador.

People Entering the Accra Ghana Temple

Jovens entrando no Templo de Acra Gana

A terceira maneira de participar da Restauração é ajudar a coligar Israel. Desde os primeiros dias da Restauração, essa tem sido uma parte fundamental do trabalho. Como o presidente Nelson ensinou, temos a oportunidade e o dever de ajudar na coligação que acontece em ambos os lados do véu. Na mensagem de encerramento de sua primeira conferência como presidente da Igreja, o presidente Nelson declarou sucintamente: “Nossa mensagem ao mundo é simples e sincera: convidamos todos os filhos de Deus em ambos os lados do véu a se achegarem a seu Salvador, a receberem as bênçãos do templo sagrado, a desfrutarem de alegria duradoura e a se qualificarem para a vida eterna”.7

A coligação de Israel deste lado do véu significa o trabalho missionário. Todos os que podem servir como missionários de tempo integral devem refletir cuidadosamente sobre essa possibilidade. Considero uma grande bênção a oportunidade que tive de servir missão na Itália, numa época em que a Igreja ainda era muito nova lá. Nossos ramos se reuniam em casas alugadas, e esperávamos que um dia haveria estacas e alas lá. Testemunhei bravos pioneiros virem à Igreja e estabelecerem os alicerces da coligação de Israel naquela terra.

Uma pioneira era Agnese Galdiolo. Todos sentimos o Espírito vigorosamente enquanto ensinávamos as lições missionárias a ela. Porém, mesmo sentindo o Espírito, ela sabia que sua família se oporia ao batismo. Apesar disso, certo dia, cheia do Espírito, ela aceitou ser batizada. No entanto, mudou de ideia no dia do batismo. Ela chegou cedo à casa alugada onde seria batizada, apenas para nos dizer que, devido à pressão familiar, havia desistido.

Antes de sair, concordou em conversarmos por alguns minutos. Fomos para uma das salas de aula, onde sugerimos fazer uma oração juntos. Após nos ajoelharmos, pedimos que ela proferisse a oração. Depois da oração, levantou-se com lágrimas nos olhos e anunciou: “Está bem; serei batizada”. Poucos minutos depois, foi o que aconteceu. No ano seguinte, ela se casou com Sebastiano Caruso, com quem teve quatro filhos que, por sua vez, serviram todos missão e permaneceram, desde essa época, servindo na Igreja.

Caruso Family and Curtis'

O élder e a síster Curtis com alguns membros da família Caruso

Agnese e Sebastiano também serviram missão quando Sebastiano foi chamado como presidente de missão. Quando servi minha segunda missão na Itália, 25 anos depois da primeira, pude ver o que a família Caruso e outros pioneiros haviam feito para expandir o reino de Deus lá. Meus missionários e eu trabalhamos para edificar a Igreja, sonhando que um dia teríamos um templo na Itália. Imaginem a alegria que senti por agora termos o Templo de Roma Itália.

Há poucas alegrias comparáveis à alegria missionária. Que grande bênção é ter nascido numa época em que podemos alegremente participar da Restauração contínua por meio da coligação de Israel.

A alegria missionária, obviamente, não é sentida apenas pelos missionários de tempo integral. Ao trabalhar em conjunto com os missionários de tempo integral, cada um de nós pode ajudar na conversão ou ativação de nossos irmãos. Temos a oportunidade de coligar Israel ao convidar outras pessoas a vir e ver e ao integrar aqueles que estão sendo ensinados.

É pelo trabalho de templo e história da família que ajudamos a coligar Israel do outro lado do véu. Há anos, temos a responsabilidade sagrada de realizar esse trabalho. Antes da morte de Joseph Smith, os santos realizavam batismos pelos mortos, e alguns receberam a própria investidura e o selamento. Com a conclusão do Templo de Nauvoo, a investidura própria começou de fato. A investidura e o selamento em favor de antepassados também tiveram início nos templos de Utah.

Eliza R. Snow, que teve participação fundamental naquele processo restaurativo, entendia a importância daquela parte da Restauração. Ela passou muito tempo na casa de investiduras, auxiliando na realização de ordenanças.8 Durante uma reunião da Sociedade de Socorro em 1869, ela ensinou às irmãs: “Tenho refletido sobre o grande trabalho que temos de realizar, sim, de auxiliar na salvação dos vivos e dos mortos. Queremos ser (…) companheiras adequadas dos Deuses e Santificados”.9

Obviamente, a disponibilidade das ordenanças do templo aumentou sensivelmente com a construção de muitos templos no mundo inteiro, e outros virão.

Com as ferramentas que temos à disposição hoje, o trabalho do templo e história da família pode ser uma parte integrante da nossa participação na Restauração contínua. Tenho me interessado e me envolvido com o trabalho de história da família há anos, mas as ferramentas online expandiram grandemente minha capacidade de levar nomes de familiares ao templo. Tenho memórias sagradas de estar sentado à mesa de nosso apartamento em Gana, procurando o nome de meus antepassados europeus, para que minha esposa e eu pudéssemos levá-los ao Templo de Acra Gana. Tais alegres oportunidades nos acompanharam aos outros lugares para onde fomos enviados.

Por meio do profeta Joseph Smith, Deus começou o processo de “restaurar todas as coisas mencionadas pela boca de todos os santos profetas, desde o princípio do mundo” (Doutrina e Convênios 27:6). Essa restauração continua no presente, à medida que Deus “revela agora” e “ainda revelará muitas coisas grandiosas e importantes relativas ao Reino de Deus” (Regras de Fé 1:9). Sou profundamente grato por podermos participar dessa Restauração contínua.

Notas

  1. Ver Efésios 1:10; Doutrina e Convênios 27:13.

  2. Ver Daniel 2:35–45; Doutrina e Convênios 65.

  3. Russell M. Nelson, em “Latter-day Saint Prophet, Wife and Apostle Share Insights of Global Ministry”, Newsroom, 30 de outubro de 2018, newsroom.ChurchofJesusChrist.org.

  4. Ver “Direção inspirada”, Liahona, maio de 2019, p. 121.

  5. Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith, 2007, p. 144.

  6. Bonnie D. Parkin, “Com santidade de coração”, A Liahona, novembro de 2002, p. 104.

  7. Russell M. Nelson, “Trabalhemos hoje”, Liahona, maio de 2018, p. 118. Ecoando esse pensamento, o presidente Nelson disse na conferência geral um ano depois: “Que dediquemos e redediquemos nossa vida para servirmos a Deus e a Seus filhos — em ambos os lados do véu” (“Considerações finais”, Liahona, maio de 2019, p. 112).

  8. A casa de investiduras foi construída na Praça do Templo, durante a construção do Templo de Salt Lake. Dedicada em 1855, a casa de investiduras foi usada para a realização de ordenanças do templo até 1889.

  9. Eliza R. Snow, discurso para a Sociedade de Socorro da Ala Lehi, 27 de outubro de 1869, Livro de Atas da Sociedade de Socorro, 1868–1879, Biblioteca de História da Igreja, pp. 26–27.