2004
Não Temais
Maio de 2004


“Não Temais”

Os valores morais de que a própria civilização depende estão desmoronando cada vez mais rápido; ainda assim eu não temo o futuro.

Há algumas semanas, nosso filho mais novo veio nos visitar com a esposa e os filhos. O primeiro a sair do carro foi nosso netinho de dois anos. Correu para mim com os braços estendidos e gritando: “Vovô! Vovô! Vovô!”

Ele abraçou minhas pernas e eu olhei para aquele rostinho sorridente e para aqueles grandes olhos inocentes e pensei: “Como será o mundo em que ele vai viver?”

Por um instante fiquei ansioso, com esse medo do futuro de que tantos pais nos falam. Em todos os lugares que vamos, encontramos pais e mães preocupados com o futuro dos filhos neste mundo tão tribulado.

Mas, então, fui tomado por um sentimento de confiança. Meu temor quanto ao futuro desapareceu.

O Espírito que orienta e consola e que nos é tão familiar na Igreja, lembrou-me do que eu já sabia. O medo do futuro desapareceu. A vida daquela criancinha de olhos brilhantes pode ser boa — muito boa — e a vida dos filhos e netos dela também; mesmo que vivam em um mundo em que há tanta iniqüidade.

Eles verão muita coisa acontecer ao longo da vida. Algumas coisas exigirão coragem e aumentarão sua fé; mas se buscarem orientação e ajuda em oração, receberão as forças para vencer as adversidades. Não será permitido que essas provações os impeçam de progredir, ao contrário, elas servirão de degraus para alcançarem maior conhecimento.

Como sou avô e um dos Doze, farei algumas advertências, darei alguns conselhos e muito incentivo. Eu me sairia bem melhor se a avó de nossa família, minha esposa há 57 anos, estivesse aqui ao meu lado. As mães sabem muito mais da vida do que os pais, mas vou fazer o possível.

Não tememos por nosso futuro nem pelo de nossos filhos. Vivemos em uma época cheia de tribulações e perigos. Os valores que davam equilíbrio à humanidade no passado vêm sendo descartados.

Não devemos ignorar as palavras que Morôni proferiu ao ver nossos dias: “[Deveis ficar] conscientes de vossa terrível situação”. (Éter 8:24)

Não podemos tratar com leviandade esta advertência do Livro de Mórmon:

“(…) [O] Senhor, na grandeza de sua infinita bondade, abençoa e faz prosperar os que colocam nele a sua confiança (…), fazendo tudo para o bem e a felicidade de seu povo; sim, então é quando endurecem o coração, esquecendo-se do Senhor seu Deus e pisando o Santíssimo — sim, e isto em virtude de seu conforto e de sua enorme prosperidade.

E assim vemos que se o Senhor não castiga seu povo com numerosas aflições, sim, se não o fere com morte e com terror e com fome e com toda sorte de pestilências, dele não se lembram.” (Helamã 12:1–3; grifo do autor)

Vocês perceberam a palavra terror nessa advertência profética?

Os valores morais de que a própria civilização depende estão desmoronando cada vez mais rápido; mas eu não temo o futuro.

A Primeira Guerra Mundial terminou apenas seis anos antes de eu nascer. Quando éramos crianças, os efeitos da guerra eram visíveis em toda parte. A Segunda Guerra Mundial só começou 15 anos depois, mas as nuvens negras já começavam a surgir.

Sentíamos a mesma ansiedade que muitos de vocês sentem agora. Perguntávamo-nos o que o futuro nos traria naquele mundo incerto.

Quando eu era criança, as doenças infantis eram comuns em todas as comunidades. Quando alguém ficava com catapora, sarampo ou caxumba o agente de saúde ia à casa da pessoa e colocava uma placa de quarentena na varanda ou na janela para avisar a todos que mantivessem distância. Em famílias grandes como a minha, essas doenças se revezavam, passando de um filho para outro; então, a placa podia ficar colocada em casa durante semanas.

Não dava para ficar trancados em casa nem escondidos para evitar essas doenças terríveis. Tínhamos de ir à escola, ao trabalho ou à Igreja: tínhamos que viver!

Duas de minhas irmãs ficaram muito mal com sarampo. No início, parecia que iam se recuperar; poucas semanas depois, ao olhar pela janela minha mãe viu a Adele, a mais nova, encostada no balanço. Estava muito fraca e com febre. Era febre reumática! Foi seqüela do sarampo. Minha outra irmã também teve essa febre.

Não havia muito o que fazer. Apesar de todas as orações de meus pais, Adele morreu. Ela estava com 8 anos.

É verdade que Nona, dois anos mais velha, recuperou-se, mas sua saúde ficou debilitada durante a maior parte da vida.

Quando eu estava na sétima série, em uma aula sobre saúde, a professora leu um artigo para nós. Certa mãe ficou sabendo que os filhos do vizinho estavam com catapora. Ela viu que era provável que os próprios filhos pegassem a doença, talvez um de cada vez e decidiu resolver tudo de uma vez.

Então, mandou os filhos irem brincar com as crianças do vizinho para que fossem logo expostos à doença e acabar logo com essa história. Imaginem como ela ficou horrorizada quando o médico chegou e avisou que o que as crianças tinham não era catapora e sim varíola.

A melhor coisa a fazer naquela época e ainda hoje é evitar os lugares em que há perigo de contágio de males físicos ou espirituais.

Quase não nos preocupa a idéia de nossos netos pegarem sarampo. Eles foram vacinados e podem andar por aí sem medo da doença.

O sarampo já foi erradicado na maior parte do mundo, mas, entre as doenças para as quais existe vacina, ela ainda é a maior causa da mortalidade infantil.

Com o dinheiro que os membros da Igreja doaram generosamente, a Igreja doou, recentemente, um milhão de dólares como parte de um trabalho conjunto para vacinar as crianças da África contra o sarampo. Com um dólar é possível imunizar uma criança.

Hoje, os pais preocupam-se com as doenças morais e espirituais. Elas podem ter seqüelas terríveis se abandonarmos os padrões e os valores. Todos nós temos de tomar medidas preventivas.

A vacina certa proteje o corpo das doenças. Também podemos proteger nossos filhos das doenças morais e espirituais.

A palavra inocular tem duas partes: In — estar dentro — e ocular, que significa “olhar”.

Quando as crianças são batizadas e confirmadas, colocamos um olho dentro delas: o dom indescritível do Espírito Santo. Com a Restauração do evangelho, veio a autoridade para se conceder esse dom.

O Livro de Mórmon nos dá essa chave:

“Os anjos falam pelo poder do Espírito Santo; falam, portanto, as palavras de Cristo. (…) Banqueteai-vos com as palavras de Cristo; pois eis que as palavras de Cristo (…) dirão [a vós e a vossos filhos] todas as coisas que deveis fazer.” (2 Néfi 32:3)

Se vocês aceitarem mentalmente e apegarem-se emocionalmente a essa idéia, o conhecimento do evangelho restaurado e o testemunho de Jesus Cristo poderá imunizar seus filhos espiritualmente.

Uma coisa está muito clara: o lugar mais seguro e a melhor medida de prevenção contra os males morais e espirituais é um lar e uma família estáveis. Essa sempre foi e há de ser sempre a verdade. Temos de ter isso sempre claro em nossa mente.

As escrituras falam do “escudo da fé com o qual”, disse o Senhor, “podereis apagar todos os dardos inflamados dos iníquos”. (D&C 27:17)

O melhor fabricante desse escudo da fé é a indústria familiar. É verdade que se pode polir o escudo nas aulas da Igreja e nas atividades, mas ele deve ser manufaturado em casa, sob medida para cada pessoa.

O Senhor disse: “(…) tomai sobre vós toda a minha armadura, para que possais resistir no dia mau, havendo feito tudo, a fim de subsistirdes”. (D&C 27:15)

Há muitos aspectos em que nossos jovens são mais fortes e melhores do que nós éramos. Nem eles nem nós devemos ter medo do que vem pela frente.

Incentivem os jovens. Eles não precisam viver com medo. (Ver D&C 6:36.) O medo é o oposto da fé.

Apesar de não podermos eliminar a iniqüidade, podemos produzir jovens santos dos últimos dias espiritualmente bem nutridos, vacinados contra as más influências.

Eu sou um avô que já viveu muito e aconselho vocês a terem fé. De um jeito ou de outro, as coisas dão certo. Fiquem na Igreja, mantenham seus filhos na Igreja.

Na época de Alma, “a pregação da palavra exercia uma grande influência sobre o povo, levando-o a praticar o que era justo — sim, surtia um efeito mais poderoso sobre a mente do povo do que a espada ou qualquer outra coisa que lhe houvesse acontecido—Alma, portanto, pensou que seria aconselhável pôr à prova a virtude da palavra de Deus”. (Alma 31:5)

A verdadeira doutrina, quando compreendida, modifica atitudes e comportamento. O estudo das doutrinas do evangelho melhora o comportamento com mais rapidez do que um estudo sobre comportamento.

Encontrem a felicidade nas coisas comuns e mantenham o bom humor.

Nona recuperou-se do sarampo e da febre reumática. Ela viveu o suficiente para beneficiar-se com os efeitos de uma cirurgia cardíaca e viveu anos com mais saúde. As pessoas falavam de como ela ficou bem-disposta. Ela dizia: “Estou com um motor de Cadillac em uma carroçaria de calhambeque”.

Mantenham o bom humor!

Não tenham medo de trazer filhos ao mundo. Fizemos o convênio de proporcionar o corpo físico para que os espíritos passem à mortalidade. (Ver Gênesis 1:28; Moisés 2:28.) As crianças são o futuro da Igreja restaurada.

Coloquem sua casa em ordem. Se a mãe trabalha fora, vejam se dá para mudar a situação, ainda que só um pouquinho. Talvez seja difícil mudar agora. Mas analisem o caso e orem. (Ver D&C 9:8–9.) Depois, esperem a inspiração, que é a revelação. (Ver D&C 8:2–.) Esperem a intervenção do poder que está além do véu, que os ajudará a mudar no momento certo, para o que for melhor para sua família.

Alma chamou o plano de salvação de “grande plano de felicidade”. (Alma 42:8; ver também 2 Néfi 11:5; Alma 12:25; 17:16; 34:9; 41:2; 42:5, 11–13, 15, 31; Moisés 6:62.)

Cada um de nós veio à mortalidade para receber um corpo mortal e ser provado. (Ver Abraão 3:24–26.)

A vida não será isenta de dificuldades, algumas delas serão dolorosas e duras de suportar. Talvez tenhamos vontade de ser poupados de todas as provas da vida, mas isso seria contrário ao grande plano de felicidade, “porque é necessário que haja uma oposição em todas as coisas”. (2 Néfi 2:11) Essa prova é a fonte de nossa força.

A vida de minha irmã Adele, uma criança inocente, foi cruelmente ceifada pela doença e o sofrimento. Ela e todas as outras que morreram dessa forma continuam a trabalhar para o Senhor além do véu. Não lhe será negado nada essencial ao seu progresso eterno.

Perdemos também uma netinha quando ainda era um bebê. Chamava-se Emma, o nome de minha mãe. Nós encontramos consolo nas escrituras.

“[As] criancinhas não necessitam de arrependimento nem de batismo. (…)

As criancinhas, porém, estão vivas em Cristo.” (Morôni 8:11–12)

Lembrem-se da Expiação de Cristo. Não se desesperem nem dêem como perdidas para sempre as pessoas que caíram nas tentações de Satanás. Depois que pagarem o que devem até “o último ceitil” (Mateus 5:26) e depois da cura que acompanha o total arrependimento, receberão uma salvação.

Sigam os líderes que foram chamados para dirigir e orientar vocês, pois foi feita a promessa: “E se meu povo der ouvidos a minha voz e à voz de meus servos que designei para guiar meu povo, eis que em verdade vos digo que não serão removidos de seu lugar.” (D&C 124:45)

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias irá avante “ até encher toda a Terra” (D&C 65:2) e até que o grande Jeová anuncie que Sua obra está consumada. (Ver History of the Church, vol. 4, p. 540.) A Igreja é um porto seguro. Seremos protegidos pela justiça e consolados pela misericórdia. (Ver Alma 34:15–16.) Não há mão impura capaz de deter esta obra. (Ver D&C 76:3.)

Não ignoramos a situação do mundo.

O Apóstolo Paulo profetizou sobre “tempos trabalhosos” nos últimos dias, (II Timóteo 3:1) e preveniu: “(…) [Não] temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. (Efésios 6:12)

Isaías prometeu: “Com justiça serás estabelecida; estarás longe da opressão, porque já não temerás; e também do terror, porque não chegará a ti”. (Isaías 54:14)

O próprio Senhor incentivou-nos: “Portanto tende bom ânimo e não temais, porque eu, o Senhor, estou convosco e ficarei ao vosso lado; e testificareis de mim, Jesus Cristo, que eu sou o Filho do Deus vivo, que eu fui, que eu sou e que eu virei”. (D&C 68:6) Em nome de Jesus Cristo. Amém.