2004
No Meio Das Montanhas
Fevereiro de 2004


No Meio Das Montanhas

Minha mãe acreditou que a visita dos dois missionários a nossa remota vila na Guatemala foi a resposta a suas orações.

Minha família pertence a uma tribo maia chamada Cakchiquel. No meio das montanhas, próximo a San Juan Comalapa, no sul da Guatemala, a vida não é nada fácil. Os homens vão para o campo e trabalham o dia inteiro nas plantações, cultivando milho e feijão. As mulheres preparam o almoço e o jantar, depois levam as refeições para os maridos nos campos. Depois de um longo dia de trabalho árduo e uma longa caminhada de volta para casa, a maioria dos homens e mulheres tomam bebidas alcoólicas e caem no sono. No dia seguinte, retomam novamente a mesma rotina.

Em minha tribo, a expectativa de vida para um homem é de 48 anos. O árduo trabalho diário, juntamente com a má nutrição e o álcool, consome suas energias físicas. As mulheres dão à luz muitas crianças, porém mais da metade delas morrem ainda na infância. A gestação, o trabalho árduo, a desnutrição e, às vezes, o consumo de bebidas alcoólicas diminuem a expectativa de vida das mulheres de minha tribo.

Por causa das dificuldades que enfrentávamos, minha mãe desejava uma vida melhor para seus filhos e freqüentemente orava pedindo ajuda.

Missionários e Tortilhas

Nossa situação não mudou até que um milagre aconteceu em nossa vida. Eu ainda era menino quando os missionários chegaram à nossa vila, mas lembro-me de tudo. Minha mãe, meu pai, meu irmão e eu estávamos almoçando no campo. Ainda me lembro do aroma das tortilhas no fogo, quando dois homens brancos de cabelos claros vieram caminhando pelo campo. Meus olhos se arregalaram de surpresa, agarrei-me à minha mãe, pronto para chutar os homens, caso fosse necessário defender-nos deles. Contudo, quando eles perguntaram: “Será que podemos esquentar as nossas tortilhas em seu fogo?” senti uma grande paz me envolver. Enchi-me de curiosidade. Por que eles tinham um sotaque tão engraçado? Por que usavam camisa branca e gravata? Por que eram tão altos?

“Claro que vocês podem esquentar suas tortilhas em nossa fogueira”, respondeu meu pai. Não sei como foi que aconteceu, mas quando nos demos conta, os missionários estavam nos mostrando ilustrações do Profeta Joseph Smith e do Bosque Sagrado. Minha mãe ficou admirada! Ela sempre acreditara que o Pai Celestial e Jesus Cristo eram pessoas com quem podíamos conversar e para quem podíamos fazer perguntas, mas nunca tinha ouvido alguém ensinar algo assim. Enquanto ouvíamos a história da Primeira Visão, minha mãe recebeu uma confirmação do Espírito Santo de que aquilo era verdade. A visita daqueles dois missionários foi a resposta a suas orações. Minha mãe convidou os missionários a virem visitar-nos em casa quando quisessem.

Mais tarde, quando os missionários nos visitaram e nos ensinaram a respeito da Palavra de Sabedoria, minha mãe ficou mais feliz do que eu jamais a tinha visto. As coisas foram um pouco diferentes em relação a meu pai. Lembro-me de que ele estava tentando sorrir, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas, sua testa estava pálida e o restante de seu rosto estava vermelho.

Em nossa tribo, as pessoas se apegam às tradições, não importa o que aconteça. Mudar de religião é visto como um ato de deserção. Os amigos se afastam de você e os parentes passam a desprezá-lo, principalmente se você for o primeiro a mudar.

Minha mãe ficou surpresa por levar tanto tempo para os missionários perguntarem: “Gostariam de ser batizados na Igreja?” Ela estava pronta. Meu pai sentiu em seu coração que a mensagem trazida pelos missionários era verdadeira, mas ficou preocupado com as conseqüências para nossa família se renegássemos as tradições de nossa tribo. Ele precisou de mais tempo para tomar uma decisão.

No final, meu pai deixou de lado tudo que tinha aprendido e escolheu o evangelho. Seus amigos o deixaram. Nossos parentes disseram que ele estava louco e perguntaram quanto os missionários lhe tinham pago para que fosse batizado. Ninguém mais nos convidou a festas. A vida social de minha família ficou reduzida a zero por algum tempo. Essas mudanças foram algumas das coisas mais difíceis que minha família teve que enfrentar.

A Vida como Santos dos Últimos Dias

O evangelho de Jesus Cristo trouxe uma grande mudança em minha família, pela qual sou muito grato. Meu pai passou a dedicar mais tempo à nossa família. Minha mãe passou a cozinhar melhor. Meus pais passaram a utilizar nossas rendas de modo mais sábio. Tivemos até a oportunidade de freqüentar a escola. Meu pai disse-nos algo que jamais esquecerei: “A partir de agora, vocês nunca mais vão desistir de estudar até conseguirem um diploma na escola”.

Éramos uma família diferente. A reunião de noite familiar tornou-se a ocasião em que estabelecíamos metas pessoais e familiares. Meu pai preparava as aulas sobre o evangelho e contava experiências de sua vida, algo que nunca tinha feito antes. Nós, os filhos, sentimos que nossos pais nos amavam. As bebidas alcoólicas nunca mais entraram em nossa casa. As brigas entre meu pai e minha mãe transformaram-se em conversas nas quais cada um procurava entender o ponto de vista do outro. De alguma forma, parecíamos estar materialmente ricos, embora na verdade fôssemos muito pobres. Éramos uma família feliz, e por fim meu pai acabou sendo muito respeitado por seu novo estilo de vida. As pessoas confiavam nele porque ele não bebia mais. Seus amigos começaram a procurá-lo para pedir conselhos e, por algum motivo, todos que se associavam a meu pai começavam a prosperar na vida. O estilo de vida do evangelho era contagioso. Meu pai até organizou um grupo de fazendeiros para aprender novos e melhores métodos de agricultura.

Amor pelo Livro de Mórmon

Quando eu era criança, comecei minha leitura das escrituras pela Bíblia, mas o Velho Testamento era muito difícil para alguém da minha idade ler e compreender. Minha próxima tentativa foi o Livro de Mórmon. Depois de ler algumas páginas, não consegui mais largar o livro. Néfi tornou-se meu novo herói. Todos os dias, depois de algumas horas na escola e muitas horas trabalhando na fazenda, eu voltava para casa para ler o Livro de Mórmon. Enquanto lia, senti haver um elo de ligação especial entre o povo do Livro de Mórmon e a minha tribo. Senti que o Livro de Mórmon explicava de onde a nossa tribo Cakchiquel tinha vindo e quem eram nossos antepassados.

Em minha leitura do Livro de Mórmon e meu aprendizado acerca do verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, senti que eu fazia parte do cumprimento das promessas que Deus havia feito a Leí, Néfi e outros profetas do Livro de Mórmon de que seus filhos seriam preservados. Sou eternamente grato por aquelas pessoas fiéis do Livro de Mórmon e pelos missionários que nos apresentaram o livro que mudou o rumo de nossa vida.

Minha família acabou mudando-se para a Cidade da Guatemala. Meus pais serviram em nossa ala naquela cidade por muitos anos. Meus dois irmãos, minhas duas irmãs e eu somos todos santos dos últimos dias fiéis. Meus irmãos e eu servimos em uma missão de tempo integral. Meu irmão, minha irmã e eu estamos cursando a universidade.

A história da conversão de minha família demonstra o amor e a misericórdia de Deus por Seus filhos. Sou muito grato pelo amor que Ele tem por seus filhos de toda parte, até mesmo do meio das montanhas da Guatemala.

Hugo Miza é membro da Ala 33 de Provo (de língua espanhola), Estaca Provo Utah Leste.