2002
Andamos pela Fé

Andamos pela Fé

Partimos rumo ao desconhecido, mas a fé ilumina o caminho. Se cultivarmos essa fé, jamais andaremos na escuridão.

É uma linda manhã de abril, do lugar de onde falamos, no Dia do Senhor. Os pés de tulipa estão crescendo, e em breve irromperão flores de grande beleza. No inverno da nossa dúvida havia a esperança da primavera. Sabíamos que ela viria. Essa era nossa fé baseada na experiência de anos anteriores.

Assim também acontece com assuntos que envolvem o espírito e a alma. À medida que cada homem ou mulher segue o caminho da vida, haverá estações obscurecidas pela dúvida, pelo desânimo, pela desilusão. Em tais circunstâncias uns poucos vêem adiante devido ao poder da fé, mas muitos tropeçam na escuridão e chegam a se perder.

Meu chamado a vocês, esta manhã, é um chamado à fé, aquela fé que é “(…) o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.” (Hebreus 11:1), como Paulo descreveu-a.

Durante o processo de conversão, o pesquisador da Igreja aprende um pouco. Ele talvez leia um pouco a respeito da Igreja. Ele não entende, ou melhor, não consegue entender o prodígio que é o evangelho.Se ele, porém, for sincero em sua busca, se estiver disposto a se ajoelhar e orar a respeito disso, o Espírito toca seu coração, talvez de forma muito delicada. Indica-lhe o caminho a seguir. Ele vê um pouco do que jamais vira antes. E com fé, quer a reconheça ou não, ele dá alguns passos cuidadosos. Depois caminha mais um pouco e uma vista mais clara se descortina diante dele.

Há muito tempo, trabalhei para uma de nossas ferrovias cujos trilhos atravessavam as montanhas do oeste. Viajava de trem com freqüência. Era nos tempos das locomotivas a vapor. Aqueles grandes monstros dos trilhos eram gigantes, rápidos e perigosos. Com freqüência eu imaginava como é que o maquinista se arriscava ao fazer a longa viagem noturna; Então cheguei à conclusão de que não era uma única longa jornada, mas sim uma seqüência de pequenas jornadas. A locomotiva tinha um farol que iluminava uma distância de cerca de 350 a 450 metros. O maquinista apenas enxergava essa distância e isso era o bastante, porque era algo constante diante dele, atravessando toda a noite até o amanhecer de um novo dia.

O Senhor falou a respeito desse processo. Ele disse: “E aquilo que não edifica não é de Deus e é trevas.

Aquilo que é de Deus é luz; e aquele que recebe luz e persevera em Deus recebe mais luz; e essa luz se torna mais e mais brilhante, até o dia perfeito.” (D&C 50:23–24)

E isso ocorre com nossa jornada eterna. Damos um passo de cada vez. Ao fazê-lo partimos rumo ao desconhecido, mas a fé ilumina o caminho. Se cultivarmos essa fé, jamais andaremos na escuridão.

Vou contar-lhes a respeito de um conhecido meu. Não vou mencionar seu nome para que ele não fique constrangido. Sua esposa sentia que algo estava faltando na vida deles. Certo dia, conversou com um parente que era membro da Igreja. O parente sugeriu que ligasse para os missionários. Ela o fez. O marido, porém, foi rude com eles e disse-lhes que não voltassem mais.

Meses se passaram. Certo dia, um outro missionário, ao encontrar o registro dessa visita, resolveu que ele e o companheiro tentariam novamente. Ele era um élder alto, da Califórnia, com um largo sorriso estampado no rosto.

Bateram à porta e o homem atendeu. Eles poderiam entrar por alguns minutos? Perguntaram. Ele consentiu.

O missionário disse, diretamente: “Imagino se o senhor sabe orar”. O homem respondeu que ele conhecia o Pai Nosso. Ao que o missionário replicou: “Isso é bom, mas deixe-me ensiná-lo a fazer uma oração pessoal”. Ele prosseguiu explicando que nos ajoelhamos em sinal de humildade diante do Deus do céu. O homem ajoelhou-se. Então o missionário prosseguiu dizendo: “Nos dirigimos a Ele como nosso Pai no Céu. Agradecemos a Ele pelas muitas bênçãos recebidas, como nossa saúde, nossos amigos, nosso alimento. Pedimos, então Suas bênçãos. Expressamos as esperanças e desejos mais profundos. Pedimos que Ele abençoe as pessoas que passam por necessidades. Fazemos tudo em nome de Seu Filho Amado, o Senhor Jesus Cristo, encerrando com “Amém”.

Foi uma experiência agradável para o homem. Ele recebera uma pequena luz e entendimento, um toque de fé. Ele estava pronto para tentar dar o próximo passo.

Linha sobre linha, os missionários o ensinaram pacientemente. Ele reagia positivamente à medida que sua fé crescia transformando-se em uma luz pálida de entendimento. Pessoas amigas de seu ramo aproximaram-se dele para infundir-lhe confiança e responder as perguntas dele. Os homens jogaram tenis com ele, e ele e a família eram convidados para jantar na casa dessas pessoas.

Ele foi batizado, e esse foi um gigantesco passo de fé.O presidente do ramo pediu-lhe que fosse chefe de escoteiro de quatro garotos. Isso o levou a outras responsabilidades, e a luz da fé fortaleceu-se em sua vida a cada nova oportunidade e experiência.

Isso tem prosseguido. Hoje ele serve como um presidente de estaca hábil e amado, um líder com grande sabedoria e entendimento e, acima de tudo, um homem de grande fé.

O desafio que cada membro desta Igreja enfrenta é o de dar esse próximo passo, de aceitar a responsabilidade para o qual é chamado, muito embora não se sinta qualificado e cumpri-la com fé, com a plena expectativa de que o Senhor iluminará o caminho diante dele.

Deixem-me contar-lhes uma história a respeito de uma jovem em São Paulo, Brasil. Ela trabalhava para ajudar a família e ao mesmo tempo freqüentava a faculdade. Contarei sua história usando suas próprias palavras. Ela diz:

“Minha universidade tinha um regulamento que proibia a realização de provas por alunos que estivessem em atraso nas mensalidades. Por essa razão, ao receber meu salário, primeiramente separava o dinheiro do dízimo e ofertas, e o restante era distribuído para o pagamento da escola e outras despesas.

Lembro-me de um período em que (…) enfrentei sérias dificuldades financeiras. Era uma quinta-feira quando recebi meu salário. Ao calcular o orçamento mensal, notei que não haveria o suficiente para pagar o dízimo e a faculdade. Teria de escolher entre um e outro. As provas bimestrais começariam na semana seguinte e, se não as fizesse, poderia perder o ano escolar. Senti uma forte angústia. (…) [e] o coração aflito. Estava diante de um doloroso impasse e não sabia qual decisão tomar. Ponderava entre as duas escolhas: pagar o dízimo ou arriscar a possibilidade de conseguir os créditos necessários para a aprovação escolar.

Esse sentimento consumiu minha alma e permaneceu comigo até sábado. Foi quando lembrei que, ao aceitar o batismo na Igreja, concordara em viver a lei do dízimo. Eu havia assumido um compromisso, não com os missionários, mas com o Pai Celestial. Naquele momento, a angústia foi desaparecendo, dando lugar a uma agradável sensação de tranqüilidade e determinação. (…)

Naquela noite, ao orar, pedi perdão ao Senhor por minha indecisão. No domingo, antes do início da reunião sacramental, procurei o bispo e, com grande satisfação, paguei o dízimo e ofertas. Aquele foi um dia especial. Simplesmente sentia-me feliz e em paz comigo mesma e com o Pai Celestial.

No dia seguinte, enquanto estava no escritório, tentava descobrir uma saída para conseguir realizar as provas, que se iniciariam na quarta-feira daquela semana. Por mais que pensasse, não achava uma solução. Na época, trabalhava em um escritório de advocacia e meu chefe era a pessoa mais rigorosa e severa que havia conhecido na vida.

Já era final do expediente, quando meu chefe se aproximou e transmitiu as últimas ordens do dia. Feito isso, com sua pasta na mão, despediu-se e deixou a sala. Repentinamente parou, e voltando-se em minha direção, perguntou: ‘Como vai sua faculdade?’ Surpresa, não acreditava no que estava ouvindo. A única coisa que consegui falar com voz trêmula, foi: ‘Tudo bem!’ Ele me olhou pensativo e despediu-se novamente. (…)

Logo em seguida, a secretária entrou na sala, dizendo que eu era uma pessoa afortunada! Quando lhe perguntei o motivo de tal afirmação, ela simplesmente respondeu: ‘O chefe acabou de comunicar que, a partir de hoje, o escritório vai pagar integralmente sua faculdade e seus livros. Antes de sair, passe por minha mesa e informe os valores, pois amanhã mesmo lhe darei o cheque.’

Dito isso, ela retirou-se e, eu, chorando muito e sentindo-me humilde, ajoelhei-me ali mesmo e agradeci ao Senhor por Sua generosidade. [Disse] ao Pai Celestial que não precisava abençoar-me tanto. Eu necessitava somente do valor de uma mensalidade, e o dízimo que havia pago no domingo era tão pequeno em comparação à quantia que estava recebendo! Durante aquela oração, as palavras registradas em Malaquias vieram-me à mente: ‘(…) fazei prova de mim (…) se Eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes’. (Mal. 3:10) Até aquele momento, nunca havia sentido a grandeza da promessa contida nessa escritura, e que esse mandamento é, na verdade, uma grande prova de amor que o Pai Celestial dá a Seus filhos aqui na Terra.”

A fé é a fibra básica que dá força a esta obra. Isso é evidente onde quer que esta Igreja esteja estabelecida no mundo. Ela não se limita a um país, a uma nação, a um idioma ou a um povo. É encontrada em todas as partes. Somos um povo que tem fé. Andamos pela fé. Prosseguimos em nossa jornada eterna, um passo de cada vez.

É grande a promessa do Senhor aos fiéis de todas as partes. Ele disse:

“(…) Eu, o Senhor, sou misericordioso e benigno para com aqueles que me temem e deleito-me em honrar aqueles que me servem em retidão e em verdade até o fim.

Grande será sua recompensa e eterna sua glória.

E a eles revelarei todos os mistérios, sim, todos os mistérios ocultos de meu reino desde a antigüidade; e por eras futuras (…).

Sim, até as maravilhas da eternidade conhecerão (…).

E sua sabedoria será grande e seu entendimento alcançará os céus; e diante deles a sabedoria dos sábios perecerá e o entendimento dos prudentes se desvanecerá.

Porque pelo meu Espírito os iluminarei e pelo meu poder dar-lhes-ei a conhecer os segredos de minha vontade; sim, até as coisas que o olho não viu nem o ouvido ouviu e ainda não entraram no coração do homem”. (D&C 76:5–10)

Como alguém pode pedir mais: Quão gloriosa é esta obra com que estamos comprometidos. Quão maravilhosos são os caminhos do Todo-Poderoso quando caminhamos pela fé diante Dele.

A fé de um pesquisador é como um pedaço de madeira verde atirado na fogueira. Aquecido pelas chamas, ele seca e começa a queimar. Mas se for tirado do fogo, não consegue mais queimar sozinho.Sua chama vacilante se apaga. Contudo, se for deixado na fogueira, gradualmente começará a queimar e soltar labaredas. Em pouco tempo se tornará parte das chamas da fogueira e acenderá outro pedaço de madeira mais verde.

A assim prossegue, meus irmãos e irmãs, este grande trabalho de fé, edificando as pessoas por toda esta imensa Terra para que alcancem um conhecimento maior dos caminhos do Senhor e sejam mais felizes seguindo seu padrão.

Que Deus, nosso Pai Eterno, continue a sorrir sobre esta grande obra e faça com que ela prospere é minha humilde oração em nome de Jesus Cristo. Amém.