Restauração e história da Igreja
28 Até a vinda do Filho do Homem
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Tema

“Até a vinda do Filho do Homem”, capítulo 28 de Santos: A História da Igreja de Jesus Cristo nos Últimos Dias, Volume 2, Nenhuma Mão Ímpia, 1846–1893, 2020

Capítulo 28: “Até a vinda do Filho do Homem”

Capítulo 28

Até a vinda do Filho do Homem

Em 19 de junho de 1875, Brigham Young partiu de Salt Lake City em visita aos assentamentos na região central de Utah.1 Ele tinha acabado de completar 74 anos de idade, de modo que estava sendo cada vez mais difícil viajar. A cada passo que dava, suas juntas doíam por causa da artrite. Apesar disso, a visita aos assentamentos o aproximou dos santos ao mesmo tempo em que o afastou das dificuldades jurídicas que a Igreja vinha enfrentando.

Após a condenação de George Reynolds por bigamia, o promotor dos Estados Unidos, William Carey, quebrou a promessa feita aos líderes da Igreja e acusou George Q. Cannon do mesmo crime. O caso de George Cannon foi posteriormente arquivado, mas Reynolds foi julgado e condenado, pagou 300 dólares de fiança e ainda passou um ano na prisão. Contudo, a suprema corte do território anulou a condenação de Reynolds, pois seus advogados conseguiram provar que ele havia sido julgado por um júri ilegalmente constituído. Com a libertação de Reynolds, os promotores juraram que iriam levá-lo a julgamento novamente.2

Além disso, a ex-esposa plural de Brigham, Ann Eliza Young, havia unido forças com críticos da Igreja e processara o profeta exigindo o divórcio. Contudo, quando ela demandou mais de 200 mil dólares em pensão e outras indenizações, os advogados de Brigham rejeitaram o acordo, acreditando ser excessivo. Eles também alegaram que Ann Eliza não podia se divorciar de Brigham perante um tribunal, pois os Estados Unidos não reconheciam a legalidade do casamento plural. Ainda assim, o juiz James McKean decidiu a favor de Ann Eliza e enviou Brigham para passar uma noite na cadeia, pois a pedido dos advogados ele havia se recusado a efetuar o pagamento até que o caso fosse apelado diante de uma instância superior.

Jornais de todo o país interpretaram as ações do juiz como uma manobra para constranger Brigham, motivo pelo qual criticaram McKean e o ridicularizaram. Poucos dias depois, o presidente dos Estados Unidos colocou outro juiz em seu lugar, e Brigham então pagou 3 mil dólares a Ann Eliza em custas judiciais.3

Dois dias após partir de Salt Lake City, Brigham e seus companheiros de viagem se reuniram com a Sociedade de Socorro em Moroni, um pequeno vilarejo em Sanpete Valley. Eliza Snow e Mary Isabella Horne, que viajavam no grupo, incentivaram as mulheres a continuarem cooperando e a serem autossuficientes em questões econômicas. Mary Isabella as exortou a colocar o reino de Deus em primeiro lugar em sua vida. “Devemos trabalhar”, afirmou ela, “por aquilo que desejamos receber”.

Em seguida, Eliza falou sobre educação religiosa. Algumas famílias em Sanpete Valley estavam enviando seus filhos para uma nova escola administrada por um missionário de outra religião, de modo que os líderes da Igreja tinham receio de que suas lições contradissessem aquilo que as crianças estavam aprendendo com os pais e com a Igreja.

“Sião deve ser o lugar em que os filhos de Sião são educados”, Eliza reiterou às mulheres. “Deixem que seus filhos percebam que sua religião é sua principal preocupação.”4

Em outros assentamentos em Sanpete, Brigham incentivou os santos a adotar um sistema econômico mais cooperativo. Dois anos antes, uma depressão havia assolado a nação e atingido a economia de Utah. No entanto, diversas lojas e indústrias cooperativas do território haviam suportado bem a crise financeira, o que fortaleceu a crença de Brigham na cooperação.

Desde essa época, ele vinha exortando os santos a viverem como o povo de Enoque vivera antigamente: sendo unos de coração e vontade, e sem que houvesse pobres entre eles.5 Tal sistema, conhecido como a Ordem Unida de Enoque, evocava a revelação do Senhor acerca da lei da consagração. Os membros da ordem deviam cuidar uns dos outros como uma família, contribuindo livremente com seu trabalho e suas posses a fim de promover as indústrias do território e fomentar a economia local.

Muitos santos já haviam organizado a ordem unida em sua comunidade. Ainda que a estrutura das ordens diferisse em cada comunidade, elas compartilhavam valores tais como a cooperação econômica, a autossuficiência e a frugalidade.6

Numa reunião com os santos de Sanpete, o apóstolo Erastus Snow explicou como a Ordem Unida havia abençoado os santos no sul de Utah. “Há uma tendência entre nós de trabalhar de uma maneira egoísta, que geralmente enriquece poucos às custas da pobreza de muitos”, observou ele. “É uma tendência maligna em si mesma.”

Naquele mesmo dia, Brigham complementou: “A Ordem Unida existe para aprendermos a lidar com as propriedades que temos e para devotarmos a nós próprios para a concretização dos desígnios de Deus”.7

Antes de finalizar a viagem por Sanpete, Brigham falou aos líderes locais da Igreja. “Podemos construir templos aqui mais baratos que o de Salt Lake”, ele declarou. “Vocês acham que conseguem se responsabilizar pela construção de um templo aqui?”

Todos os homens no recinto ergueram a mão em sinal de apoio e chegaram ao consenso de que o profeta deveria escolher o local. Brigham havia visitado muitos possíveis locais e, no dia seguinte, anunciou sua decisão.

“Devo-lhes dizer que o Espírito claramente me indica que o lugar para o templo é na colina que se projeta em direção a Manti”, afirmou.8


Quando Brigham retornou da região central de Utah, um homem chamado Meliton Trejo estava em Salt Lake City traduzindo o Livro de Mórmon para o espanhol. Meliton era um soldado espanhol veterano, que viera das Filipinas no fim do verão de 1874. Chegara em Utah trajando seu uniforme militar, de modo que sua aparência logo atraiu olhares curiosos.

Quando viera ao território, ele pouco sabia sobre a Igreja. Ouvira falar sobre os santos nas Montanhas Rochosas e desejava visitá-los um dia. Até que certa noite, ainda nas Filipinas, após orar pedindo orientação, ele foi inspirado em um sonho a empreender a viagem. Assim, deu baixa no exército, costurou em um bolso interno de seu traje todo o dinheiro que tinha e navegou rumo a São Francisco.

Assim que chegou em Salt Lake City, Meliton conheceu um falante de espanhol que o apresentou para Brigham Young e outros líderes da Igreja.9 Pouco antes, Brigham havia pedido a Daniel Jones e a Henry Brizzee que se preparassem para uma missão no México. Brigham acreditava que alguns descendentes dos povos do Livro de Mórmon viviam lá, e há muito desejava lhes enviar o evangelho. Porém, ele sabia que Parley Pratt havia tentado pregar o evangelho na América Latina em 1851, mas seus esforços haviam falhado em parte porque o Livro de Mórmon não estava disponível em espanhol.10

Como parte da preparação de Daniel e Henry, Brigham havia lhes pedido que estudassem o idioma e traduzissem o Livro de Mórmon. Os dois falavam um pouco de espanhol, mas a ideia de traduzir um livro de escrituras era intimidadora. Nenhum deles achava que tinha experiência suficiente com o idioma. Eles precisavam de um falante nativo que pudesse ajudá-los.

Assim, Daniel e Henry consideraram a chegada de Meliton como uma dádiva de Deus. Ensinaram o evangelho a ele, e Meliton aceitou o batismo com sinceridade de coração.11 Em seguida, Daniel convidou Meliton a permanecer com ele durante o inverno para trabalhar na tradução.

Meliton trabalhou por vários meses na tradução do texto sagrado. Quando o dinheiro acabou, Daniel recebeu permissão de Brigham Young para solicitar doações aos santos. Mais de 400 doadores arrecadaram fundos para apoiar Meliton e custear a impressão.

Após revisar a tradução, Daniel providenciou que cem páginas com trechos selecionados da tradução fossem impressas com o título Trozos selectos del Libro de Mormon.12 No entanto, Brigham queria ter certeza de que a tradução estava correta, então Daniel se programou para reler o texto com Meliton. Conforme liam, Daniel rogava a Deus que o ajudasse a encontrar erros na obra. Sempre que encontrava um trecho que não parecia bom, ele pedia ajuda a Meliton. Ele então estudava a tradução minuciosamente e apontava o que precisava ser corrigido. Daniel sentiu que o Senhor o estava guiando naquele trabalho.

Pouco depois, Trozos selectos foi impresso, e Daniel e outros missionários foram chamados para ir ao México. Meliton não foi designado para acompanhá-los, mas esperava que os esforços dos missionários dessem frutos.13

Os missionários partiram no outono de 1875. Antes de irem, Daniel e seus companheiros carregaram 500 cópias de Trozos selectos no lombo de algumas mulas. Em seguida, começaram sua jornada por estradas de chão batido, ansiosos para apresentar o Livro de Mórmon ao povo do México.14


Nessa época, Salt Lake City fervilhava com as notícias sobre a iminente visita do presidente Ulysses Grant. Nenhum presidente anterior dos Estados Unidos havia visitado o território, e não tardou até que se formasse uma delegação com funcionários territoriais, dignitários municipais e cidadãos encarregados de recebê-lo. Brigham Young foi convidado para participar da delegação, assim como John Taylor e Joseph F. Smith.15

Grant chegou no território em outubro, e Brigham o encontrou, com sua esposa Julia, em um trem na cidade de Ogden. Brigham só pôde cumprimentar brevemente a comitiva, pois o presidente logo pediu licença para ir visitar o vagão de observação do trem.

“Estou ansioso para conhecer a região”, explicou Grant.

Quando o presidente Grant os deixou, Julia comentou: “Não sei exatamente como devo tratá-lo, senhor Young”.

Brigham respondeu: “Às vezes me chamam de governador, outras vezes, presidente, ou mesmo general Young”. Ele havia recebido este último título anos antes, quando atuou como oficial da Legião de Nauvoo.

Julia então declarou: “Como estou acostumada com o jargão militar, vou chamá-lo de general”. O marido dela, herói da Guerra Civil Norte-Americana, havia sido oficial do exército durante a maior parte de sua vida.

“Bem, madame”, respondeu Brigham, “agora você terá a oportunidade de conhecer este povo desprezado, odiado e pobre”.

“Claro que não, general Young”, objetou Julia. “Pelo contrário, seu povo deve ser respeitado e admirado pela persistência, perseverança e fé.” Ela então acrescentou: “Só há uma objeção a seu povo, ou melhor, a você, general”.

Não era preciso que Julia declarasse sua objeção. Seu marido era um opositor ferrenho ao casamento plural. “Na verdade”, Brigham replicou, “sem isso, não teríamos a população que temos”.

“Isso é proibido pelas leis do país”, argumentou Julia, “e já teria sido erradicado há muito tempo pelo forte braço do governo não fosse pela caridade em relação às crianças e aos inocentes que certamente sofreriam”.

Antes que Brigham pudesse responder, um oficial do gabinete o convidou a se juntar ao presidente no vagão de observação, e Brigham se despediu da primeira-dama.

Posteriormente, ao chegarem em Salt Lake City, Brigham se despediu do casal Grant desejando que desfrutassem a visita. Saindo da estação de trem, o casal Grant saiu para um passeio pela cidade, acompanhado de George Emery, o governador do território. Quando se aproximaram da quadra do templo, viram fileiras de crianças vestidas de branco, alinhadas nas ruas em companhia de seus professores da escola dominical. Conforme a carruagem com o casal Grant passava, as crianças jogavam flores na rua e cantavam para os visitantes.

Impressionado, o presidente Grant questionou: “De quem são essas crianças?”

“São crianças mórmons”, respondeu o governador.

O presidente ficou mudo por alguns segundos. Tudo o que havia ouvido falar sobre os santos o fizera acreditar que eram um povo degenerado. Contudo, a aparência e o comportamento daquelas crianças sugeriam o contrário.

“Fui enganado”, ele por fim murmurou.16


Naquele inverno, Samuel Chambers se ergueu para prestar testemunho na reunião do quórum de diáconos da Estaca Salt Lake. Assim como os demais homens naquele grupo, ele já estava na meia-idade. “Vim para cá por causa da minha religião”, Samuel relatou. “Deixei para trás tudo o que tinha e vim para cá a fim de ajudar a edificar o reino de Deus.”

Samuel era membro da Igreja havia mais de 30 anos. Nascido em escravidão no sul dos Estados Unidos, ele havia sido batizado aos 13 anos por um missionário que lhe ensinara o evangelho. Porém, por ser escravo, Samuel não pôde se unir aos santos em Nauvoo. Nos anos seguintes, ele teve pouco contato com a Igreja, mas guardou sua fé por meio da influência do Santo Espírito.

Quando a Guerra Civil chegou ao fim, aqueles que viviam em escravidão nos Estados Unidos foram libertados, mas Samuel e sua esposa, Amanda, não tinham dinheiro para ir para Utah. Assim, trabalharam por cinco anos, poupando todos os centavos que podiam, até terem o suficiente para empreender a viagem. Eles foram para Utah em abril de 1870 com o filho de Samuel, Peter. Edward e Susan Leggroan, o irmão e a cunhada de Amanda, também se mudaram para Utah com seus três filhos.17

As famílias Chambers e Leggroan se estabeleceram na Ala I de Salt Lake City e moravam uma ao lado da outra. Naquela ala também vivia um casal de mestiços que viera da África do Sul, Richard e Johanna Provis. A família Leggroan se uniu à Igreja em 1873 e pouco depois se mudou, com a família Chambers, para a Ala XIII, que era frequentada por Jane Manning James, seu marido, Frank Perkins, e alguns outros santos negros.18

Naquelas alas, os santos adoravam lado a lado, fossem negros ou brancos. Apesar de a Igreja não conferir o sacerdócio aos negros naquela época, Samuel servia como assistente não ordenado no quórum de diáconos e prestava testemunho todos os meses na reunião do quórum. Amanda e Jane frequentavam a Sociedade de Socorro. Eles pagavam o dízimo e as ofertas, e frequentavam as reuniões da Igreja regularmente. Quando foram solicitadas doações para o Templo de St. George, Samuel ofertou cinco dólares, e Jane e Frank doaram 50 centavos cada um.

Samuel e Amanda, assim como outros santos negros, também já haviam participado de batismos pelos mortos na casa de investiduras. Os dois já haviam sido batizados em favor de mais de 20 amigos e parentes falecidos. Edward Leggroan fora batizado em favor do primeiro marido de sua esposa. Jane Manning James fora batizada em favor de uma amiga de infância.19

Samuel estimava sua condição como membro da Igreja e a oportunidade de prestar testemunho ao quórum de diáconos. “Se eu não prestar testemunho”, afirmou, “como vocês vão saber o que sinto, ou o que vocês sentem? Porém, se me ergo e falo, sei que tenho um amigo, e se os ouço falarem o mesmo que eu, então sei que somos um”.20


No fim da tarde de 5 de abril de 1876, uma explosão ensurdecedora se fez ouvir em Salt Lake City. Uma bola de fogo gigantesca ascendeu ao céu acima da colina ao norte da cidade, onde pólvora era armazenada em casamatas de pedra. Algo havia acendido os explosivos, de forma que o arsenal foi destruído.

Na escola da Ala XX, onde Karl Maeser dava aula, a explosão fez desabar parte do forro de estuque. Naquela noite, Karl daria uma palestra no local, então decidiu ir falar imediatamente com o bispo sobre as avarias.21

Karl encontrou o bispo em uma reunião com Brigham Young no escritório do profeta. Karl relatou os sérios prejuízos sofridos pela escola e disse que as aulas não poderiam ser retomadas até que os reparos fossem feitos.

“Está certo, irmão Maeser”, respondeu Brigham. “Mas tenho outra missão para você.”22

Karl se sentiu desanimado. Apenas poucos anos antes ele havia retornado de uma missão na Alemanha e na Suíça. Seu emprego estável na escola da Ala XX era uma bênção para ele e sua família. Eles haviam se estabelecido com certo conforto em Salt Lake City e estavam muito bem.23

Porém, Brigham não queria enviá-lo para muito longe. Assim como Eliza Snow, Brigham e outros líderes da Igreja estavam preocupados com a educação da nova geração, cuja fé não havia sido testada pelas perseguições do início da Igreja nem se havia solidificado por meio de experiências como a conversão e a imigração.24

Brigham não se opunha ao conhecimento secular ou às universidades; alguns de seus filhos até mesmo tinham frequentado a faculdade no leste dos Estados Unidos. Porém, sua preocupação era que os jovens santos em Utah estavam sendo ensinados por pessoas que eram críticas ferrenhas do evangelho restaurado. A Universidade de Deseret, fundada em 1850, admitia alunos de outras igrejas e não ensinava as crenças dos santos dos últimos dias como parte de seu currículo. Brigham queria que os jovens da Igreja tivessem oportunidades educacionais que fortalecessem sua fé e os ajudassem a estabelecer uma sociedade como Sião.25

Para alcançar esses propósitos, ele havia recentemente fundado uma escola em Provo, chamada Academia Brigham Young. O primeiro semestre da escola havia sido concluído, e agora Brigham convidava Karl para assumir a responsabilidade pela escola.

Karl não aceitou o convite de Brigham prontamente. Porém, duas semanas depois, após já ter aceitado a designação, Karl foi procurar o profeta. “Estou prestes a partir para Provo, irmão Young, para dar início ao meu trabalho na academia”, comentou ele. “Tem alguma instrução para mim?”

“Irmão Maeser”, respondeu Brigham, “quero que se lembre de que não deve ensinar nem mesmo o alfabeto ou a tabuada sem o Espírito de Deus”.26


Até o fim daquele ano, todas as alas de Salt Lake City haviam organizado bailes para arrecadar fundos para a construção do Templo de St. George. O bispo da Ala XIII, Edwin Woolley, confiando no jovem Heber Grant, que tinha apenas 20 anos, mas muitos amigos, pediu-lhe que organizasse o baile em sua unidade. “Quero que você faça com que o baile seja um sucesso”, disse a Heber.

No ano anterior, Heber havia sido chamado como conselheiro na presidência da Associação de Melhoramentos Mútuos dos Rapazes em sua ala (A.M.M.R.), uma nova organização iniciada em 1875, quando Brigham Young pediu às alas que organizassem os rapazes da mesma forma que haviam organizado as moças. Como líder da A.M.M.R., Heber tinha a responsabilidade de ajudar os rapazes a desenvolver seus talentos e fortalecer seu testemunho do evangelho.27

Heber não colocou muita fé no pedido do bispo Woolley. “Vou fazer meu melhor”, comentou, “mas preciso da garantia de que, se os custos não forem cobertos, você vai colocar a diferença”.

Ele explicou que os jovens queriam um baile em que pudessem dançar valsa, um estilo de dança popular na época, em que os parceiros bailavam próximos um ao outro, fazendo movimentos circulares no salão. Embora algumas pessoas considerassem a valsa menos apropriada do que a quadrilha tradicional, Brigham Young permitia que fossem tocadas três valsas por baile. Já o bispo Woolley não aprovava a dança, tanto que era proibida nos bailes da Ala XIII.28

“Bem”, respondeu o bispo Woolley, “você pode tocar três valsas”.

“Há outra coisa”, comentou Heber. Se não contassem com uma boa banda no baile, seria difícil vender entradas. “Você não permite que a Olsen’s Quadrille Band toque na ala, porque o flautista ficou bêbado uma vez”, disse ele ao bispo. “A questão é que a Olsen’s é a melhor banda de cordas que há.”

Com relutância, o bispo concordou e permitiu que Heber contratasse a banda. “Deixei que aquele menino fizesse tudo o que ele queria”, pensou ele ao se despedirem. “Eu vou fritá-lo em público se esse baile não der certo.”

Heber chamou o filho do bispo, Eddie, para ajudar na venda dos ingressos e preparar o prédio da ala para o baile. Eles retiraram as mesas do salão, colocaram tapetes no chão e penduraram fotos de Brigham Young e de outros líderes da Igreja nas paredes. Depois, chamaram vários rapazes para divulgar o baile nos lugares onde trabalhavam.

No dia do baile, Heber ficou à porta com uma listagem em ordem alfabética de todos os que haviam comprado entradas. Ninguém seria admitido a menos que tivesse pago 1 dólar e 50 centavos pelo ingresso. Porém, Brigham Young apareceu lá — sem ingresso.

“Pelo que sei, o baile é em benefício do Templo de St. George”, Brigham comentou. Então, tirou 10 dólares do bolso. “Isto é suficiente para pagar minha entrada?”

“Certamente”, respondeu Heber, sem saber se deveria dar o troco ao profeta.

Naquela noite, enquanto Brigham contava o número de valsas, Heber contava o dinheiro. A ala coletou mais de 80 dólares, uma quantia maior do que qualquer outra ala havia coletado para o templo. E os jovens haviam dançado suas três valsas.

Porém, antes do fim do baile, Heber pediu ao líder da banda que tocasse uma valsa-quadrilha, basicamente uma valsa com elementos de uma quadrilha clássica.

Quando a banda começou a tocar, Heber se sentou ao lado de Brigham para ouvir o que ele diria sobre a quarta valsa da noite. Assim que os jovens começaram a dançar, Brigham disse enfaticamente: “Isto é uma valsa”.

Heber então explicou: “Não é. A valsa é dançada em círculos, ao redor de todo o salão. Isto é uma quadrilha”.

Brigham olhou para Heber e sorriu. “Ah, esses rapazes”, respondeu ele.29


Pouco depois do baile na Ala XIII, Brigham partiu para o sul com Wilford Woodruff a fim de dedicar algumas partes do Templo de St. George. Embora o templo não fosse finalizado antes da primavera, algumas salas de ordenanças já estavam prontas para serem usadas.30 No Templo de Nauvoo e na casa de investiduras, os santos haviam realizado investiduras em favor dos vivos. Quando o Templo de St. George fosse dedicado, seriam realizadas pela primeira vez as investiduras em favor dos mortos.31

Conforme se aproximava do assentamento, Brigham viu o templo de longe. À distância, lembrava o Templo de Nauvoo, mas de perto ficava claro que a parte externa era mais simples. O edifício possuía fileiras de janelas altas e de contrafortes sem adornos, que sustentavam as altas paredes brancas. Uma torre com cúpula se erguia acima das ameias em estilo típico de fortalezas enfileiradas no telhado.32

No dia de Ano Novo de 1877, mais de 1.200 pessoas se aglomeraram no porão do templo para a dedicação do batistério.33 Após se posicionar no degrau mais alto da fonte batismal, Wilford Woodruff chamou a atenção dos santos. “Percebo que não é possível que esta congregação se ajoelhe, dada a multidão aqui presente”, comentou, “mas podemos curvar nossa cabeça e nosso coração a Deus”.

Depois que Wilford ofereceu a oração dedicatória, a congregação foi para o salão de reuniões no andar superior. Brigham praticamente já não caminhava mais por causa da artrite, de modo que foi carregado por três homens até lá. Erastus Snow então dedicou o salão, e Brigham foi novamente carregado para a sala de selamento no andar superior.

Em seguida, retornaram para o salão de reuniões, e Brigham lutou para ficar em pé ao púlpito. Apoiando-se numa bengala de nogueira, ele falou: “Sinto que não devo sair desta casa sem exercer minha força — a força dos meus pulmões, do meu estômago e das minhas cordas vocais”.

Brigham queria que os santos se devotassem à redenção dos mortos. “Quando penso nisso, desejo ter a voz de sete trovões para poder despertar as pessoas”, declarou. “Nossos pais poderão ser salvos sem nós? Não. Poderemos nós ser salvos sem eles? Não. Mas, se não despertarmos e não pararmos de perseguir as coisas deste mundo, descobriremos que, como indivíduos, desceremos para o inferno.”

Brigham lamentou o fato de que muitos santos estavam buscando coisas mundanas. “Se despertássemos para este dever, a saber, a salvação da família humana”, comentou ele, “esta casa ficaria lotada, como esperamos que fique, de segunda de manhã até sábado à noite”.

No fim do sermão, Brigham ergueu sua bengala no ar. “Não sei se vocês estão satisfeitos ou não com os serviços de dedicação do templo”, declarou. “Estou muito satisfeito, e eu achava que só ficaria satisfeito quando o diabo fosse derrotado e expulso da face desta Terra.”

Enquanto falava, Brigham bateu com a bengala no púlpito, deixando marcas na madeira.

“Se estraguei o púlpito”, comentou ele, “sei que um de nossos bons marceneiros poderá consertá-lo depois”.34


Em 9 de janeiro, Wilford Woodruff entrou na fonte batismal do templo com a filha de Brigham, Susie, uma jovem de 18 anos, que era casada com um rapaz chamado Alma Dunford. Com o apoio de uma muleta e de uma bengala, Brigham serviu de testemunha enquanto Wilford batizava Susie em favor de uma amiga falecida. Aquele foi o primeiro batismo pelos mortos realizado no Templo de St. George. Em seguida, Wilford e Brigham impuseram as mãos sobre a cabeça de Susie e a confirmaram em favor da falecida.

Dois dias depois, Wilford e Brigham supervisionaram as primeiras investiduras para os mortos realizadas em um templo. Wilford passou praticamente todos os dias seguintes servindo no templo. Ele começou a usar roupas brancas em vez de roupas normais, sendo a primeira pessoa a usá-las como parte das cerimônias do templo. A mãe de Susie, chamada Lucy, que também se dedicava ao trabalho do templo, passou a usar um vestido branco a fim de servir de exemplo para as mulheres.35

Enquanto Wilford trabalhava no templo, Brigham pediu a ele e a outros líderes da Igreja que escrevessem a cerimônia da investidura e as demais ordenanças do templo. Desde a época de Joseph Smith, as palavras das ordenanças haviam sido preservadas apenas oralmente. Agora, já que as ordenanças seriam realizadas a certa distância da sede da Igreja, Brigham queria que as cerimônias fossem escritas a fim de garantir que fossem as mesmas em todos os templos.36

Ao padronizar as ordenanças, Brigham cumpriu um encargo recebido de Joseph Smith após as primeiras investiduras em Nauvoo. “Isso ainda não está organizado da maneira certa, mas fizemos o melhor que podíamos diante das circunstâncias”, foi o que Joseph lhe dissera na ocasião. “Quero que assuma a responsabilidade por essa questão e organize e sistematize todas essas cerimônias.”37

Wilford e outros líderes trabalharam durante semanas naquela designação. Após escreverem as cerimônias, leram-nas para Brigham, que as aceitou e fez revisões conforme a orientação do Espírito. Quando terminaram, Brigham comentou com Wilford: “Agora você tem diante de si um exemplo de como realizar as investiduras em todos os templos, até a vinda do Filho do Homem”.38