“‘Tínhamos que buscar a Deus’”, Histórias do mundo: Haiti, 2019
“‘Tínhamos que buscar a Deus’”, Histórias do mundo: Haiti
“Tínhamos que buscar a Deus”
No domingo, 6 de dezembro de 2009, Guesno e Majorie Mardy, membros da Ala Fontamara, subúrbio de Porto Príncipe, levaram os seis filhos para a igreja como de costume. No entanto, naquele dia, o filho mais novo, Gardy, de 2 anos, recusou-se a sair de perto de Guesno. “Eu tinha que dar aulas e participar de reuniões”, lembrou Guesno mais tarde, “e ele acabou se pendurando no meu pescoço e me segurando o mais forte que conseguia”.
Depois das reuniões, Guesno pediu que Gardy fosse encontrar sua mãe enquanto ele cuidava de outro assunto. Foi a última vez que alguém da família Mardy viu Gardy. Em poucos minutos, Gardy foi raptado por uma gangue de tráfico humano. Nas semanas que se seguiram, Guesno não dormiu e andava pelas ruas de Porto Príncipe, esperando ouvir os gritos de Gardy chamando por ele.
Depois de apenas cinco semanas em que Gardy havia sido raptado, um terremoto de magnitude 7 destruiu a região. Mais de 200 mil foram mortos e milhares de crianças ficaram órfãs. O orfanato onde Guesno e Majorie trabalhavam sobreviveu ao terremoto, mas o prédio que abrigava os escritórios administrativos desmoronou. Após isso, a investigação sobre o rapto de Gardy foi interrompida e todas as pistas sumiram. Conforme ajudavam a limpar os escombros, enterrar os entes queridos, e tomar conta de crianças que haviam acabado de se tornar órfãs, Guesno e Majorie, no entanto, não perdiam a esperança de encontrar Gardy. “Orávamos todos os dias. Foi um dos momentos em que tivemos que buscar a Deus”, disse Guesno. “Li as escrituras e compreendi que… os discípulos de Deus passaram por provações. Eles sofreram.”
Por fim, Guesno descobriu informações sobre um orfanato que trabalhava como fachada para o tráfico de seres humanos e sentiu que Gardy poderia estar lá. Ele passou essas informações para a Operation Underground Railroad (OUR), uma organização sem fins lucrativos dedicada a libertar crianças do tráfico de seres humanos, que se comprometeu a ajudar a encontrar Gardy. Depois de trabalhar em conjunto com autoridades haitianas, a organização se infiltrou no orfanato, prendeu os operadores e libertou 28 crianças dos traficantes.
Durante a operação, Guesno esperou no lobby de um hotel próximo aguardando notícias. “Eu estava orando muito por um final feliz”, disse Guesno. Naquela noite, quando o fundador da OUR, Timothy Ballard, chegou ao hotel sozinho, Guesno soube que Gardy não tinha sido encontrado. Guesno chorou. Depois de um momento, ele bateu a mesa.
“Mas você resgatou as 28 crianças, não foi?”, ele perguntou.
“Sim, claro”, Ballard respondeu.
“Não entende o que aconteceu?”, perguntou Guesno. “Se eu tiver que desistir do meu filho para que essas 28 crianças sejam libertadas, farei esse sacrifício”, explicou ele.
Embora Gardy continue desaparecido, Guesno e Majorie ainda o procuram e trabalham para erradicar a escravidão infantil no Haiti. “Acho que é meu dever resgatá-lo”, disse Guesno. “Vou encontrá-lo. Um dia vai acontecer algo, e eu vou encontrá-lo.”