A Música do Evangelho
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    A Música do Evangelho

    A música do evangelho é a alegria espiritual que vem do Espírito Santo. Ela traz uma mudança de coração.

    Há alguns anos, ouvi no rádio a entrevista de um jovem médico que trabalhava em um hospital na Nação Navajo, no Arizona. Ele relatou uma experiência que teve quando um índio americano idoso com longos cabelos trançados entrou na sala de emergência. O jovem médico pegou sua prancheta, aproximou-se daquele homem e disse: “Como posso ajudá-lo?” O homem desviou o olhar e não disse nada. O médico, sentindo-se um pouco impaciente, tentou mais uma vez. “Não posso ajudá-lo se não falar comigo”, ele disse. “Diga-me por que veio ao hospital.”

    O homem então olhou para o médico e perguntou: “Você sabe dançar?” Enquanto ponderava aquela pergunta estranha, veio-lhe à mente que talvez o paciente fosse o médico da tribo que, conforme antigos costumes tribais, procurava curar os doentes por meio de música e dança, em vez de lhes administrar medicamentos.

    “Não”, o médico respondeu, “não sei dançar. E o senhor, dança?” O velho índio assentiu com a cabeça. Então, o médico perguntou: “O senhor poderia me ensinar a dançar?”

    A resposta do velho índio há vários anos tem-me feito refletir muito. “Posso ensiná-lo a dançar”, ele respondeu, “mas você precisa ouvir a música”.

    Algumas vezes, em nosso lar, ensinamos com sucesso os passos da dança, mas não temos tanto sucesso ao ajudar os membros de nossa família a ouvir a música. E como o velho curandeiro sabia muito bem, é difícil dançar sem música. Dançar sem música é desajeitado e nada satisfatório — e às vezes até embaraçoso. Já tentaram?

    Na seção 8 de Doutrina e Convênios, o Senhor ensinou a Joseph Smith e Oliver Cowdery: “Sim, eis que eu te falarei em tua mente e em teu coração, pelo Espírito Santo que virá sobre ti e que habitará em teu coração” (versículo 2). Aprendemos os passos da dança com a mente, mas ouvimos a música com o coração. Os passos da dança do evangelho são as coisas que fazemos; a música do evangelho é a alegria espiritual que vem do Espírito Santo. Ela traz uma mudança de coração e é a fonte de todos os desejos justos. Os passos da dança por si só exigem disciplina, mas a alegria da dança será vivenciada só quando conseguirmos ouvir a música.

    Há aqueles que ridicularizam os membros da Igreja por aquilo que fazemos. Isso é compreensível. Frequentemente aqueles que dançam parecem estranhos, desajeitados ou, nas palavras das escrituras, “peculiares” (I Pedro 2:9) àqueles que não conseguem ouvir a música. Já pararam seu carro no sinal ao lado de outro carro cujo motorista estava dançando e cantando com todas as forças, mas vocês não conseguiam ouvi-lo porque suas janelas estavam fechadas? Ele não parecia um pouco estranho? Se seus filhos aprenderem os passos da dança sem aprenderem a ouvir e sentir a bela música do evangelho, com o passar do tempo eles se sentirão desconfortáveis e deixarão de dançar, ou, quase tão ruim quanto isso, continuarão a dançar apenas por causa da pressão que sentem dos outros que estão dançando ao redor deles.

    O desafio para todos nós que procuramos ensinar o evangelho é expandir o currículo para além dos passos da dança. A felicidade de nossos filhos depende da capacidade que eles têm de ouvir e amar a bela música do evangelho. Como fazemos isso?

    Primeiro, devemos manter nossa própria vida sintonizada na frequência espiritual correta. No passado, antes da era digital, encontrávamos nossa rádio favorita girando cuidadosamente o botão do rádio até que ele se alinhasse perfeitamente com a frequência da estação. Antes de chegarmos à frequência correta, ouvíamos apenas estática. Mas, quando finalmente conseguíamos o alinhamento perfeito, podíamos ouvir com clareza nossa música favorita. Em nossa vida, precisamos sintonizar a frequência correta a fim de ouvir a música do Espírito.

    Quando recebemos o dom do Espírito Santo depois do batismo, somos preenchidos com a música celestial que acompanha a conversão. Experimentamos uma mudança de coração e “não temos mais disposição para praticar o mal, mas, sim, de fazer o bem continuamente” (Mosias 5:2). Mas o Espírito não vai suportar a aspereza nem o orgulho ou a inveja. Se perdermos essa delicada influência em nossa vida, a rica harmonia do evangelho pode rapidamente se tornar dissonante e, por fim, silenciar-se. Alma apresentou esta pungente pergunta: “Se haveis sentido o desejo de cantar o cântico do amor que redime, eu perguntaria: Podeis agora sentir isso?” (Alma 5:26).

    Pais, se nossa vida está fora de sintonia com a música do evangelho, precisamos sintonizá-la. Conforme nos ensinou o Presidente Thomas S. Monson em outubro passado, devemos ponderar a vereda de nossos pés (ver “Pondera a Vereda de Teus Pés”, A Liahona, novembro de 2014, pp. 86–88). Sabemos fazê-lo. Devemos andar pelo mesmo caminho que trilhamos quando ouvimos pela primeira vez as notas celestiais da música do evangelho. Ao exercitarmos fé em Cristo, arrependermo-nos e tomarmos o sacramento, sentimos mais fortemente a influência do Espírito Santo, e a música do evangelho começa a tocar novamente em nossa vida.

    Segundo, quando conseguimos ouvir a música por nós mesmos, devemos dar o máximo de nós para tocá-la em nosso lar. Não é algo que possa ser forçado ou compelido. “Nenhum poder ou influência pode ou deve ser mantido em virtude do sacerdócio” — ou em virtude de ser o pai, ou a mãe, ou o maior, ou o que fala mais alto — “a não ser com persuasão, com longanimidade, com brandura e mansidão (…) com amor não fingido; [e] com bondade” (D&C 121:41–42).

    Por que esses atributos levam a um poder e uma influência maiores no lar? Porque são os atributos que convidam o Espírito Santo. São os atributos que sintonizam nosso coração com a música do evangelho. Quando esses atributos estão presentes, os passos da dança serão feitos com maior naturalidade e mais alegria por todos os dançarinos da família sem a necessidade de ameaças, intimidação nem compulsão.

    Quando nossos filhos são pequenos, podemos cantar a canção de ninar do amor não fingido; e, quando forem teimosos e se recusarem a dormir à noite, talvez seja necessário cantar a canção da longanimidade. Quando são adolescentes, podemos remover a cacofonia das discussões e ameaças, substituindo-as pela bela música da persuasão; e, talvez, cantar a segunda estrofe da canção da longanimidade. Os pais podem apresentar em harmonia o dueto gentileza e mansidão. Podemos convidar nossos filhos para cantarem conosco em uníssono ao praticarmos a gentileza a um vizinho com alguma necessidade.

    Não virá tudo ao mesmo tempo. Como todo músico de sucesso sabe, é preciso praticar com diligência para se tocar boa música. Se os esforços iniciais para se compor a música soarem dissonantes e desafinados, lembrem-se de que a dissonância não pode ser corrigida por meio da crítica. A discórdia no lar é como a escuridão de um quarto. Repreender a escuridão não traz muito sucesso. Devemos remover a escuridão introduzindo a luz.

    Portanto, se os baixos do coro de sua família estiverem muito altos e dominadores, ou se o naipe de cordas da orquestra de sua família estiver muito estridente ou um pouco agudo, ou se os flautins impetuosos estiverem fora do tom ou fora de controle, sejam pacientes. Se vocês não estão ouvindo a música do evangelho em seu lar, por favor, lembrem-se destas duas palavras: continuem praticando. Com a ajuda de Deus, dia virá em que a música do evangelho preencherá seu lar com alegria inexprimível.

    Mesmo quando bem executada, a música não solucionará todos os problemas. Haverá crescendos e diminuendos em nossa vida, além de staccatos e ligaduras. Essa é a natureza da vida no planeta Terra.

    No entanto, quando acrescentamos música aos passos de dança, os ritmos às vezes complexos da vida matrimonial e familiar tendem a se mover em direção ao equilíbrio harmonioso. Até mesmo nossos desafios mais difíceis acrescentarão ricos tons de lamento e entoações comoventes. As doutrinas do sacerdócio começarão a destilar-se sobre sua alma como o orvalho do céu. O Espírito Santo será nosso companheiro constante e nosso cetro — uma clara referência ao poder e à influência — será um cetro imutável de retidão e verdade. E nosso domínio será um domínio eterno. E sem ser compelido, fluirá para nós eternamente (ver D&C 121:45–46).

    Que assim seja em nossa vida e em nosso lar, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.