2010–2019
Santos dos Últimos Dias, Continuem Tentando Fazer o Melhor
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Santos dos Últimos Dias, Continuem Tentando Fazer o Melhor

Ao nos esforçarmos, perseverarmos e ajudarmos os outros a fazer o mesmo, seremos verdadeiros santos dos últimos dias.

Queridos irmãos e irmãs, em dezembro de 2013, o mundo lamentou a morte de Nelson Mandela. Após permanecer preso por 27 anos devido ao papel que exerceu na luta contra o apartheid, Mandela foi o primeiro presidente eleito democraticamente na África do Sul. Seu perdão àqueles que o haviam aprisionado foi notável. Ele foi elogiado e aclamado mundialmente.1 Mandela com frequência procurava se esquivar dos elogios, dizendo: “Não sou santo, a menos que você considere santo um pecador que continua se esforçando”.2

Essa frase — “um santo é um pecador que continua se esforçando” — deve fortalecer e encorajar os membros da Igreja. Embora sejamos conhecidos como “santos dos últimos dias”, às vezes, sentimo-nos incomodados com essa referência. O termo santos é normalmente usado para indicar aqueles que alcançaram um estado de santidade mais elevado ou até mesmo a perfeição. Mas sabemos perfeitamente bem que não somos perfeitos.

Entretanto, nossa crença nos ensina que podemos ser aperfeiçoados ao “[confiar] plenamente” na doutrina de Cristo, de maneira constante e progressiva: exercendo fé Nele, arrependendo-nos, tomando o sacramento para renovar os convênios e as bênçãos do batismo e recebendo a presença do Espírito Santo como nosso companheiro constante. Quando agimos dessa forma, tornamo-nos mais semelhantes a Cristo e perseveramos até o fim.3 Isto é, Deus Se importa mais com quem somos e com quem estamos nos tornando do que com quem já fomos.4 Ele quer que continuemos tentando fazer o melhor.

A comédia Como Lhe Aprouver, escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare, retrata uma mudança dramática na vida de um personagem. Um irmão mais velho tenta mandar matar seu irmão mais novo. Mesmo sabendo disso, o irmão mais novo salva seu irmão perverso de ser morto. Quando o irmão mais velho descobre essa compaixão que ele não merecia, ele se transforma completamente e para sempre, vivenciando o que ele chama de “conversão”. Mais tarde, várias mulheres procuram o irmão mais velho e perguntam-lhe: “Foste tu quem tramaste continuamente a morte de teu irmão?”

O irmão mais velho responde: “Fui eu, mas não o sou mais. Não me envergonho em dizer-lhe quem uma vez fui — porquanto minha conversão é para mim doce e faz de mim quem hoje sou”.5

Para nós, graças à misericórdia de Deus e à Expiação de Jesus Cristo, tal mudança não acontece apenas em uma ficção literária. Por meio de Ezequiel, o Senhor declarou:

“E, quanto à impiedade do ímpio, não cairá por ela, no dia em que se converter da sua impiedade. 

(…) Se ele se converter do seu pecado, e praticar juízo e justiça,

(…) restituindo esse ímpio o penhor, indenizando o que furtou, andando nos estatutos da vida, e não praticando iniquidade, certamente viverá. (…)

De todos os seus pecados que cometeu não se terá memória contra ele; juízo e justiça fez”.6

Em Sua misericórdia, Deus promete conceder-nos Seu perdão quando nos arrependemos e afastamo-nos da iniquidade, de tal forma que nossos pecados não serão sequer mencionados a nós. Para nós, por meio da Expiação de Cristo e do nosso arrependimento, podemos olhar para aquilo que fizemos no passado e dizer: “Fui eu, mas não o sou mais”. Não importa o quanto fomos iníquos, podemos afirmar: “Esse fui certa vez. Mas esse ímpio ser do passado já não é mais quem hoje sou”.7

O Presidente Thomas S. Monson ensinou: “Um dos maiores dons que Deus nos deu é a alegria de tentar novamente, pois nenhum fracasso precisa ser o último”.8 Mesmo que tenhamos escolhido cometer pecados, de forma consciente e deliberada, ou tenhamos enfrentado fracassos e desapontamentos, a partir do momento em que decidimos tentar fazer o nosso melhor novamente, a Expiação de Cristo pode nos ajudar. É importante lembrar também que o pensamento: “Se já erramos e fracassamos tanto, o melhor é desistir” não vem do Espírito Santo.

A vontade de Deus em ver os santos dos últimos dias continuarem tentando fazer o melhor abrange vencer o pecado e vai além. Sejam os nossos sofrimentos por causa de relacionamentos atribulados, de desafios econômicos, de doenças ou devido às consequências dos pecados cometidos por outros, a Expiação infinita do Salvador pode inclusive, e talvez principalmente, curar aqueles que sofrem sem ter cometido mal algum. Ele compreende perfeitamente o que é sofrer inocentemente devido às consequências da transgressão de outros. Conforme foi profetizado, o Salvador vai “restaurar os contritos de coração, (…) [dar] glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, [e] vestes de louvor em vez de espírito angustiado”.9 Não importa o que aconteça, Deus espera que os santos dos últimos dias continuem tentando fazer o melhor.

Assim como Deus Se alegra ao perseverarmos, Ele fica decepcionado quando não reconhecemos que outras pessoas também estejam tentando fazer o melhor. Nossa querida amiga, Esther, contou como aprendeu essa lição com sua mãe, Julia. Julia e Esther estavam entre os primeiros membros negros conversos na África do Sul. Após o término do regime do apartheid, foi permitido que os membros da Igreja, brancos ou negros, frequentassem a Igreja juntos. Para muitas pessoas, a igualdade nas interações sociais entre diferentes raças era muito recente e desafiadora. Certa vez, ao irem à Igreja, Julia e Esther sentiram que não estavam sendo tratadas com gentileza por alguns dos membros brancos. Ao saírem, Esther queixou-se amargamente da situação com sua mãe. Julia ouviu calmamente até que Esther houvesse expressado por completo sua frustração. Então falou: “Ah, Esther, a Igreja é como um grande hospital e todos nós estamos doentes de uma forma ou de outra. Vamos à Igreja para ser ajudados”.

O comentário de Julia revela uma perspectiva valiosa. Devemos ser não somente tolerantes com os outros ao lidarem com suas próprias doenças, mas também bondosos, pacientes, compreensivos e oferecer-lhes nosso apoio. Ao nos encorajar a continuar tentando fazer o melhor, Deus espera que também proporcionemos a oportunidade aos outros de fazer o mesmo, cada pessoa a seu tempo. A Expiação fará parte de nossa vida de maneira ainda mais grandiosa. Reconheceremos que, apesar de nossas supostas diferenças, todos nós precisamos da mesma Expiação infinita.

Há alguns anos, um excelente jovem que se chama Curtis foi chamado para servir missão. Ele era o tipo de missionário pelo qual todo presidente de missão ora para ter em sua área. Ele era centrado e trabalhava arduamente. Em determinado momento de sua missão, ele foi designado para ser companheiro de um missionário imaturo, com dificuldades de interagir socialmente e que não demonstrava muito entusiasmo ao trabalhar.

Um dia, enquanto andavam de bicicleta, Curtis olhou para trás e viu que seu companheiro tinha inexplicavelmente descido da bicicleta e estava caminhando. Silenciosamente, Curtis expressou a Deus sua frustração, pois que tarefa árdua era a de carregar o fardo de ter um companheiro que precisava ser arrastado para realizar qualquer coisa. Pouco tempo depois, Curtis teve um sentimento profundo, como se Deus dissesse a ele: “Sabe, Curtis, comparados a mim, vocês dois não são tão diferentes assim”. Curtis aprendeu que precisava ser paciente com um companheiro imperfeito que, apesar de tudo, tentava fazer o melhor que podia naquele momento.

Meu convite a todos nós é que avaliemos nossa vida, que nos arrependamos e continuemos tentando fazer o melhor. Se não tentarmos, seremos apenas pecadores dos últimos dias. Se não perseverarmos, seremos desistentes dos últimos dias; e se não permitirmos que as outras pessoas continuem tentando fazer o melhor, seremos apenas hipócritas dos últimos dias.10 Mas, ao nos esforçarmos, perseverarmos e ajudarmos os outros a fazer o mesmo, seremos verdadeiros santos dos últimos dias. Ao mudarmos a nós mesmos, descobriremos que Deus realmente Se importa muito mais com quem somos e com quem estamos nos tornando do que com quem fomos no passado.11

Sou profundamente grato pelo Salvador, por Sua Expiação infinita e pelos profetas dos últimos dias que nos incentivam a ser santos dos últimos dias e a continuar nos esforçando.12 Testifico sobre a realidade da existência do Salvador. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Notas

  1. Ver Nelson Rolihlahla Mandela, Long Walk to Freedom [O Longo Caminho para a Liberdade], 1994; “Biography of Nelson Mandela” [Biografia de Nelson Mandela], nelsonmandela.org/content/page/biography; e President Barack Obama’s Dec. 10, 2013, eulogy for Nelson Mandela [Tributo do Presidente Barack Obama a Nelson Mandela, 10 de dezembro de 2013], em whitehouse.gov/the-press-office/2013/12/10/remarks-president-obama-memorial-service-former-south-african-president-. A diversidade das premiações é indicada pelo fato de Mandela ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, a Medalha Presidencial da Liberdade dos Estados Unidos e a Ordem Soviética de Lenin.

  2. Ver, por exemplo, o discurso de Nelson Mandela no Baker Institute da Rice University, 26 de outubro de 1999, bakerinstitute.org/events/1221. Ele estava provavelmente parafraseando uma famosa declaração atribuída a Robert Louis Stevenson: “Os santos são os pecadores que continuam se esforçando”. No decorrer dos anos, muitas pessoas se expressaram de forma similar à citada. Por exemplo, acredita-se que Confúcio tenha afirmado: “Nossa maior glória não está em nunca cairmos, mas, sim, em levantarmo-nos após cada queda”.

  3. Ver, por exemplo, 2 Néfi 31:2–21; 3 Néfi 11:23–31; 27:13–21; Morôni 6:6; Doutrina e Convênios 20:77, 79; 59:8–9; Manual 2: Administração da Igreja, 2010, 2.1.2.

  4. Dizer que “Deus Se importa muito mais com quem somos e com quem estamos nos tornando do que com quem já fomos” não significa que o Salvador seja indiferente às consequências do pecado de uma pessoa sobre as outras. De fato, o Salvador Se importa imensamente com aqueles que sofrem por causa de dores e mágoas geradas devido às transgressões cometidas por outros. O Salvador “tomará sobre si (…) as (…) enfermidades [do Seu povo], para que se lhe encham de misericórdia as entranhas, (…) para que saiba, segundo a carne, como socorrer seu povo, de acordo com suas enfermidades” (Alma 7:12).

  5. William Shakespeare, As You Like It [Como Lhe Aprouver], ato 4, cena 3, linhas 134–137.

  6. Ezequiel 33:12, 14–16.

  7. O uso de tempos verbais no presente é notável em muitas escrituras relacionadas ao Juízo Final. Ver, por exemplo, 2 Néfi 9:16; Mórmon 9:14; Doutrina e Convênios 58:42–43.

  8. Thomas S. Monson, “A Força Interior”, A Liahona, julho de 1987, p. 68.

  9. Isaías 61:1–3; ver também Lucas 4:16–21.

  10. A palavra hipócrita, conforme usada no Novo Testamento, pode ser traduzida do grego como “fingidor”; a palavra grega significa “ator” ou “alguém que finge, representa, ou exagera” (ver Mateus 6:2, nota de rodapé a na Bíblia SUD em inglês). Se não dermos às pessoas a oportunidade de mudarem a seu próprio ritmo, estaremos simplesmente fingindo ser santos dos últimos dias.

  11. Ver nota 4, anterior.

  12. O número de vezes que essa mensagem aparece nos discursos da Primeira Presidência e do Quórum dos Doze Apóstolos é impressionante. O Presidente Dieter F. Uchtdorf transmitiu essa mensagem ao afirmar: “De todos os princípios ensinados pelos profetas ao longo dos séculos, um que foi enfatizado muitas e muitas vezes é a esperançosa e consoladora mensagem de que a humanidade pode se arrepender, mudar de rumo e voltar ao verdadeiro caminho do discipulado” (“Você Pode Fazer Isso Agora!”, A Liahona, novembro de 2013, p. 56).