2000–2009
Fazemos uma Grande Obra, de Modo que Não Poderemos Descer
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Fazemos uma Grande Obra, de Modo que Não Poderemos Descer

Não podemos, nem devemos, nos permitir ser distraídos do nosso dever sagrado. Não podemos, nem devemos, perder a essência daquilo que mais importa.

Queridos irmãos, já há alguns meses sei qual a mensagem que quero passar hoje a vocês. Desde essa época, tenho procurado uma história que ilustre o que desejo dizer. Procurei uma história sobre agricultura, procurei uma história sobre animais. Querendo homenagear o Élder Scott, procurei uma história sobre engenharia nuclear e, em homenagem ao Presidente Monson, uma história sobre criação de pombos.

O tempo todo, uma história sempre me ocorria — uma história que está indelével em minha memória há muitos e muitos anos. Não é sobre agricultura, engenharia nuclear nem pombos. É sobre (como já devem ter adivinhado) aviação. Eu a chamo de “A História da Lâmpada”.

A História da Lâmpada ou Como Negligenciar o que É Mais Importante

Numa escura noite de dezembro, há 36 anos, um jato Lockheed 1011 caiu em Everglades, Flórida, matando mais de 100 pessoas. Esse terrível acidente foi um dos que causou o maior número de vítimas na história dos Estados Unidos.

Um detalhe curioso nesse acidente é que todas as peças e os sistemas vitais da aeronave funcionavam perfeitamente — e o avião poderia facilmente ter aterrissado em segurança em seu destino, Miami, a apenas 30 quilômetros dali.

Ao aproximar-se para o pouso, a tripulação notou que uma luz verde não acendera — a luz que indica que o trem de pouso dianteiro está adequadamente fixado. Os pilotos abortaram a aproximação, colocaram a aeronave voando em círculos, no padrão de espera, sobre o escuro Everglades, e dedicaram-se a detectar o problema.

Ficaram tão concentrados nessa inspeção, que não perceberam que o avião estava descendo gradualmente em direção ao escuro pântano abaixo. Quando alguém percebeu o que estava ocorrendo, era tarde demais para evitar o desastre.

Após o acidente, os técnicos procuraram determinar a causa. O trem de pouso, de fato, estava fixado adequadamente. O avião apresentava condições mecânicas perfeitas. Tudo funcionava corretamente — tudo, exceto uma coisa: uma simples lâmpada que se queimara. Aquela lampadazinha — que custa uns 20 centavos — iniciou uma série de eventos que culminou com a trágica morte de mais de 100 pessoas.

É claro que não foi o defeito da lâmpada que causou o acidente; a queda ocorreu porque a tripulação direcionou sua atenção a algo que parecia importante naquele momento — e perdeu de vista o que era de maior importância.

Concentre Sua Atenção Naquilo que É Mais Importante

A tendência de concentrar-se nas insignificâncias em detrimento das coisas importantes não acontece apenas com pilotos, mas com todo mundo. Todos nós corremos esse risco. O motorista que presta atenção à estrada tem muito mais chances de chegar sem acidentes ao destino do que aquele que se concentra no celular para enviar mensagens.

Sabemos o que é mais importante na vida: a Luz de Cristo ensina isso a todos. Nós, os fiéis santos dos últimos dias, temos a “companhia constante” do Espírito Santo para ensinar-nos quanto às coisas de valor eterno. Considero que qualquer portador do sacerdócio que me ouve hoje, se lhe fosse pedido para falar sobre “o que é mais importante”, poderia fazê-lo, e certamente faria muito bem. Nossa fraqueza repousa na ineficácia com que alinhamos nossas ações a nossa consciência.

Pensem por um momento e vejam onde está seu coração e seus pensamentos. Dedicamos a devida atenção ao que é mais importante? Um indício valioso é a maneira como você gasta seus momentos de paz. Para onde voam seus pensamentos quando o clamor de exigências imediatas desaparece? Seu coração e seus pensamentos voltam-se para aquelas coisas efêmeras que importam somente naquele momento, ou naquilo que mais importa?

Que rancores você guarda? Quais são suas desculpas de praxe para deixar de ser o marido, pai, filho e portador do sacerdócio que você sabe que deveria ser? O que distrai sua atenção dos seus deveres ou impede que você magnifique seu chamado com maior diligência?

Às vezes aquilo que desvia nossa atenção não é algo mau em si; costuma até nos fazer sentir bem.

É possível até que boas coisas venham em excesso. Um exemplo pode ser o do pai ou avô que passa horas pesquisando seus antepassados ou criando um blog, mas que negligencia ou evita passar momentos bons ou significativos com os próprios filhos e netos. Outro é o do jardineiro que gasta vários dias arrancando ervas daninhas dos canteiros, mas ignora as ervas daninhas espirituais que ameaçam sufocar sua alma.

Até alguns programas da Igreja podem tornar-se uma distração, se os levarmos a extremos e permitirmos que ocupem nosso tempo e atenção à custa daquilo que mais importa. Precisamos ter equilíbrio na vida.

Quando amamos de verdade nosso Pai Celestial e Seus filhos, demonstramos esse amor por meio das nossas ações. Perdoamo-nos mutuamente e procuramos fazer o bem, pois o nosso “velho [eu] foi com [Cristo] crucificado”.1 “[Visitamos] os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” e nos guardamos “da corrupção do mundo”.2

Meus queridos irmãos do sacerdócio, vivemos nos últimos dias. O evangelho de Jesus Cristo foi restaurado à Terra. As chaves do sacerdócio de Deus foram dadas novamente ao homem. Vivemos uma era de expectativa e de preparação, que Deus nos confiou para preparar a nós, nossa família e nosso mundo para a alvorada que se aproxima — o dia em que o Filho de Deus “descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus”3 e estabelecerá o Seu reino milenar.

Foi-nos confiado o santo sacerdócio e nos foi dada a responsabilidade, o poder e o direito de agirmos como representantes do Rei Celestial.

Essas são as coisas que mais importam. Essas são as coisas de valor eterno que merecem nossa atenção.

Não podemos, nem devemos, nos permitir ser distraídos do nosso dever sagrado. Não podemos, nem devemos, perder a essência daquilo que mais importa.

Neemias

No Velho Testamento, Neemias é um grande exemplo de compromisso e enfoque em uma tarefa importante. Ele era um israelita que vivia exilado na Babilônia e servia como copeiro do rei. Certo dia, o rei perguntou a Neemias porque ele estava tão triste. Neemias respondeu: “Como não estaria triste o meu rosto, estando a cidade, o lugar dos [túmulos] de meus pais, assolada, e tendo sido consumidas as suas portas a fogo?”4

Ao ouvir isso, o coração do rei se enterneceu e ele autorizou Neemias a voltar a Jerusalém e reconstruir a cidade. Todavia, nem todos ficaram felizes com essa ideia. De fato, vários governantes vizinhos de Jerusalém desagradaram-se “extremamente que alguém viesse a procurar o bem dos filhos de Israel”.5 Esses homens “arderam em ira; e escarneceram dos judeus”.6

Com destemor, Neemias não deixou que a resistência o distraísse. Em vez disso, ele organizou seus recursos e mão-de-obra e prosseguiu reconstruindo a cidade, “porque o coração do povo se inclinava a trabalhar”.7

Porém, quanto mais as muralhas subiam, mais se intensificava a resistência. Os inimigos de Neemias ameaçaram, conspiraram e escarneceram. As ameaças eram reais e se tornaram tão assustadoras que Neemias confessou: “Todos eles procuravam atemorizar-nos”.8 Apesar do perigo e da persistente ameaça de invasão, a obra progredia. Foi uma época de apreensão, de modo que todo trabalhador “trazia a sua espada cingida aos lombos, e [edificava]”.9

Quanto mais progredia a obra, mais os inimigos de Neemias se desesperavam. Quatro vezes imploraram a ele que saísse da segurança da cidade para encontrá-los, sob o pretexto de resolverem o conflito, mas Neemias sabia que seu intento era causar-lhe dano. Todas as vezes que se aproximavam dele, sua resposta era a mesma: “Faço uma grande obra, de modo que não poderei descer”.10

Que resposta notável! Com tal propósito claro e imutável e com essa firme resolução, os muros de Jerusalém subiram o foram espantosamente reconstruídos em apenas 52 dias.11

Neemias recusava-se a permitir que distrações o desviassem daquilo que o Senhor queria que ele fizesse.

Não Desceremos

Motivam-me e inspiram-me os muitos fiéis portadores do sacerdócio de hoje que têm semelhante firmeza de propósito. Assim como Neemias, vocês amam o Senhor e procuram magnificar o sacerdócio que possuem. O Senhor os ama e atenta para a pureza de seu coração e para a constância de sua resolução. Ele os abençoa por sua fidelidade, dirige seus passos e usa seus dons e talentos na edificação de Seu reino aqui na Terra.

No entanto, nem todos são como Neemias. Ainda há muito que melhorar.

Imagino, meus queridos irmãos do sacerdócio, o que poderíamos realizar se todos nós, como o povo de Neemias, “[nos inclinássemos] a trabalhar”. Imagino o que poderíamos realizar se “[acabássemos] com as coisas de menino”12 e nos entregássemos de corpo e alma a nos tornarmos dignos portadores do sacerdócio e verdadeiros representantes do Senhor Jesus Cristo.

Pensem só no que poderia ser concretizado em nossa vida pessoal e profissional, em nossa família e em nossa ala ou ramo. Imaginem como o reino de Deus cresceria em toda a Terra. Pensem em como o mundo se transformaria para melhor se cada portador do sacerdócio de Deus cingisse seus lombos e vivesse de acordo com seu verdadeiro potencial, e se convertesse profundamente em um verdadeiro e fiel homem do sacerdócio, comprometido com a edificação do reino de Deus.

É fácil nos distrairmos e ficarmos concentrados em uma lâmpada queimada ou nas ações grosseiras de pessoas, sejam quais forem seus motivos. Entretanto, considerem o poder que teríamos como indivíduos e como portadores do sacerdócio se, em resposta a cada tentativa de desviar nosso foco ou baixar nossos padrões, os padrões de Deus, respondêssemos: “Faço uma grande obra, de modo que não poderei descer”.

Esta é uma época de grandes desafios e de grandes oportunidades. O Senhor procura homens como Neemias: irmãos fiéis que cumpram o juramento e o convênio do sacerdócio. Ele busca almas resolutas que diligentemente realizem a obra de edificação do reino de Deus; que, ao se defrontarem com a oposição e a tentação, digam em seu coração: “Faço uma grande obra, de modo que não poderei descer”.

Que diante da provação e do sofrimento, respondam: “Faço uma grande obra, de modo que não poderei descer”.

E afrontados pelo escárnio e a reprovação, proclamem: “Faço uma grande obra, de modo que não poderei descer.”

Nosso Pai Celestial procura os que se recusam a permitir que as trivialidades impeçam sua busca pelo que é eterno. Ele deseja aqueles que não permitam que o fascínio do conforto ou as armadilhas do adversário os distraiam da obra que Ele lhes deu para executar. Ele quer os que sejam fiéis às próprias palavras — que digam com convicção: “Faço uma grande obra, de modo que não poderei descer”.

Presto solene testemunho de que Deus vive e zela por todos nós individualmente. Ele estenderá a mão e susterá os que se erguerem e portarem o sacerdócio com honra, pois nestes últimos dias Ele tem uma grande obra para executarmos.

Este evangelho não provém do homem. A doutrina da Igreja não é a melhor interpretação possível que alguém tem das escrituras antigas. É a verdade dos céus revelada pelo próprio Deus. Testifico-lhes que Joseph Smith viu o que disse que viu. Verdadeiramente ele contemplou os céus e comungou com Deus, o Pai, com o Filho e com anjos.

Presto testemunho de que o Pai Celestial fala àqueles que O buscam em espírito e em verdade. Sou testemunha ocular e alegremente testifico que, em nossos dias, Deus fala por meio de Seu profeta, vidente e revelador, sim, Thomas S. Monson.

Meus queridos irmãos, como Neemias, temos uma grande obra para realizar. Podemos contemplar o horizonte de nossa própria época. Minha fervorosa oração é que, apesar das tentações, sejam quais forem suas origens, nunca baixemos o nível de nossos padrões; que apesar das distrações, não percamos o foco do que mais importa; que resolutamente estejamos juntos, ombro a ombro, ao portarmos com valentia o estandarte do Senhor Jesus Cristo.

Oro para que sejamos dignos do santo sacerdócio do Deus Todo-Poderoso e, como homens, ergamos a cabeça e elevemos com firmeza nossa voz, proclamando ao mundo: “Fazemos uma grande obra, de modo que não poderemos descer”. No nome sagrado de Jesus Cristo. Amém.

  1. Romanos 6:6.

  2. Tiago 1:27

  3. I Tessalonicenses 4:16.

  4. Neemias 2:3.

  5. Neemias 2:10.

  6. Ver Neemias 4:1.

  7. Neemias 4:6.

  8. Neemias 6:9.

  9. Neemias 4:18.

  10. Neemias 6:3.

  11. Ver Neemias 6:15.

  12. I Coríntios 13:11.