1990–1999
    Esperança, uma Âncora para a Alma
    Notas de rodapé
    Tema

    Esperança, uma Âncora para a Alma

    Nossa maior esperança resulta de sabermos que o Salvador rompeu as cadeias da morte (... ) Ele expiou nossos pecados, desde que nos arrependamos.

    Meus queridos irmãos, irmãs e amigos, subo a este púlpito grato pela inspiração e dedicação daqueles que construíram este sagrado, santo e histórico Tabernáculo. Presto homenagem ao Presidente Brigham Young, que proporcionou a brilhante liderança na construção deste edifício especial e seu maravilhoso órgão. Ao mesmo tempo, regozijo-me que, sob a inspirada liderança do Presidente Hinckley, estejamos construindo uma magnífica casa de adoração para atender às necessidades desta Igreja sempre em crescimento. O novo edifício é uma expressão de esperança em relação à Igreja no século vindouro.

    Nesta manhã, tal como disse Morôni: “Gostaria de falar-vos sobre a esperança”.1 Existem imensas fontes de esperança que vão bem além de nossas próprias capacidades, conhecimento, força e aptidão. Uma delas é o dom do Espírito Santo. Por meio da maravilhosa bênção desse membro da Trindade, podemos chegar a conhecer a verdade de todas as coisas.2

    A esperança é a âncora de nossa alma. Não conheço ninguém que não precise de esperança: Jovens ou idosos, fortes ou fracos, ricos ou pobres. Conforme exortou o profeta Éter: “Portanto todos os que crêem em Deus podem, com segurança, esperar por um mundo melhor, sim, até mesmo um lugar à mão direita de Deus, esperança essa que vem pela fé e é uma âncora para a alma dos homens, tornando-os seguros e constantes, sempre abundantes em boas obras, sendo levados a glorificar a Deus”.3

    Néfi admoestou aos de sua época: “Deveis, pois, prosseguir com firmeza em Cristo, tendo um perfeito esplendor de esperança e amor a Deus e a todos os homens ( … ) banqueteando-vos com a palavra de Cristo, e perseverardes até o fim, eis que assim diz o Pai: Tereis vida eterna”.4

    Todo mundo tem problemas e dificuldades na vida. Isso faz parte de nossa provação mortal. A razão de algumas dessas provações não são facilmente entendidas, a não ser com base na fé e esperança porque freqüentemente há um propósito maior que não podemos compreender. A esperança nos proporciona paz.

    Poucas atividades são mais seguras do que servir como missionário para A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Os missionários encontram-se literalmente nas mãos de Deus. Desejamos que todos eles possam ficar inteiramente livres de perigo o tempo todo, mas isso não é muito realista. Os missionários, sua família e os líderes confiam plenamente na proteção do Senhor, e quando raramente ocorrem tragédias, eles são consolados pelo Espírito Daquele a quem servem.

    No verão passado, visitei o élder Orin Voorheis na casa de seus pais, em Pleasant Grove, Utah. Ele é um rapaz bem alto, bonito e excelente, que serviu na missão Argentina Buenos Aires Sul. Certa noite, depois de onze meses na missão, o élder Voorheis e seu companheiro foram atacados por ladrões armados. Num ato de violência sem sentido, um deles acertou um tiro na cabeça do élder Voorheis. Durante alguns dias, ele ficou entre a vida e a morte, incapaz de falar, ouvir, mover-se ou mesmo respirar sem auxílio de aparelhos. Por meio da fé e das orações de muitas pessoas, durante um longo período de tempo, ele conseguiu ser tirado do aparelho que o ajudava a respirar e foi trazido de volta para os Estados Unidos.

    Depois de muitos meses de hospitalização e fisioterapia, o élder Voorheis ficou mais forte, mas ainda estava paralisado e incapaz de falar. O progresso foi muito lento. Seus pais decidiram que levariam o filho para casa e cuidariam dele no ambiente carinhoso da própria família. No entanto, seu modesto lar não tinha espaço nem o equipamento necessários para prover-lhe os cuidados de que necessitava. Muitos vizinhos, amigos e benfeitores bondosos reuniram-se para construir um anexo à casa e adquirir o equipamento necessário para a fisioterapia.

    O élder Voorheis continua quase completamente paralisado e incapaz de falar, mas tem um maravilhoso espírito e pode responder a perguntas por meio de movimentos da mão. Ele ainda usa sua plaqueta de missionário. Seus pais não perguntam: “Por que isso aconteceu com nosso nobre filho, que estava servindo a um chamado do Mestre?” Ninguém sabe a resposta certa, a não ser, talvez, que se trate de circunstâncias nas quais um propósito mais elevado seja evidente. Precisamos andar pela fé. Lembramos a resposta do Salvador à pergunta: “Quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” O Salvador respondeu que não era culpa de ninguém, mas para que as obras de Deus se manifestassem nele.5 Em vez de cultivarem um sentimento de amargura, os membros da família Voorheis inclinam a cabeça e dizem ao Senhor: “Seja feita a Tua vontade. Somos gratos por ele todos os dias de sua vida e, com a ajuda de outros, conseguiremos vencer o desafio de cuidar dele”.

    Meu propósito ao visitar o élder Voorheis foi juntar-me a seu pai, seu bispo, seu mestre familiar e outros para dar-lhe uma bênção de esperança. Alguns podem perguntar: “Há esperança para o élder Voorheis nesta vida?” Creio que há muita esperança para todos! Às vezes, pedimos milagres a Deus, e eles freqüentemente acontecem, mas nem sempre da maneira que esperamos. A qualidade de vida do élder Voorheis não é a mais desejável, mas a influência de sua vida em outras pessoas é incalculável e eterna, tanto aqui quanto na Argentina. De fato, depois do acidente, o Ramo do Quilômetro 26, onde ele servia na Argentina, cresceu rapidamente e logo qualificou-se para a construção de uma capela.

    A esperança é a confiança nas promessas de Deus, a fé que se agirmos agora, as bênçãos desejadas serão cumpridas no futuro. Abraão “creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações”. Ao contrário da razão humana, ele confiou em Deus, estando “certíssimo” de que Deus cumprira Suas promessas, concedendo a Abraão e à Sara um filho em sua velhice.6

    Há poucos anos, a irmã Joyce Audrey Evans, uma jovem mãe de Belfast, Irlanda do Norte, estava tendo problemas em sua gravidez. Ela foi ao hospital, onde uma das enfermeiras disse-lhe que provavelmente perderia o bebê. A irmã Evans replicou: “Mas não posso desistir ( … ). Você precisa dar-me alguma esperança”. A irmã Evans relembra, mais tarde: “Eu não podia abandonar a esperança até que não houvesse mais nenhum motivo para tê-la. Era algo que eu devia a meu filho ainda por nascer”.

    Três dias depois, ela perdeu a criança. Ela escreveu: “Por um longo instante, não senti nada. Então uma profunda sensação de paz fluiu por mim. Com a paz, veio a compreensão. Eu sei agora por que não podia abandonar as esperanças, a despeito da situação toda: Ou se tem esperança ou se vive em desespero. Sem esperança, não conseguimos perseverar até o fim. Procurei uma resposta a minhas orações e não foi em vão. Fui curada no corpo e recompensada com paz de espírito. Nunca antes me tinha sentido tão próxima de meu Pai Celestial nem sentido tamanha paz. ( … )

    O milagre da paz não foi a única bênção resultante dessa experiência. Algumas semanas depois, comecei a pensar na criança que tinha perdido. O Espírito trouxe-me à lembrança as palavras de Gênesis 4:25: ‘E ela deu à luz um filho, e chamou o seu nome Sete; porque, disse ela, Deus me deu outro filho ( … )’.

    Poucos meses depois, fiquei grávida de novo. Quando meu filho nasceu, viram que era ‘perfeito’.” Ele recebeu o nome de Evan Seth.7

    A paz na vida é baseada na fé e no testemunho. Podemos encontrar esperança por meio de nossas orações pessoais e receber consolo por meio das escrituras. As bênçãos do sacerdócio nos inspiram e consolam. A esperança também pode advir de revelação pessoal, que toda pessoa digna tem direito de receber. Também temos a segurança de viver em uma época em que temos um profeta que possui e exerce todas as chaves do reino de Deus na Terra.

    Samuel Smiles escreveu que “a esperança é como o sol, que quando caminhamos em sua direção, faz as sombras de nossos fardos ficarem para trás de nós’ ( … ). A esperança torna ainda mais doce a lembrança de momentos que gostamos de recordar. Ela ameniza nossos problemas para nosso crescimento e força. Ela nos apóia nos momentos de tristeza e nos estimula nos momentos alegres. Ela proporciona promessas para o futuro e propósito para o passado. Ela transforma o desânimo em determinação”.8

    A infalível fonte de nossa esperança está no fato de que somos filhos e filhas de Deus e que Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo, nos salvou da morte. Em termos humanos, Sua realidade é quase indefinível, mas Sua presença pode ser sentida sem qualquer sombra de dúvida pelo Espírito, se buscarmos continuamente ⌦viver sob Sua influência. No Livro de Mórmon lemos o relato de Aarão explicando o evangelho ao pai de Lamôni. Ele disse: “Se ( … ) te ⌦curvares diante de Deus e invocares o seu nome com fé, acreditando que receberás, então obterás a esperança que desejas”.9 O velho rei seguiu literalmente esse conselho e recebeu testemunho da veracidade do ⌦que Aarão lhe explicara. Como ⌦resultado disso, ele e toda a sua casa foram convertidos e conheceram o Senhor.

    Nossa maior esperança resulta de sabermos que o Salvador rompeu as cadeias da morte. Sua vitória foi alcançada por meio de excruciante dor, sofrimento e agonia. Ele expiou nossos pecados, desde que nos arrependamos. No Jardim do Getsêmani, Ele proferiu este angustiado clamor: “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia não seja como eu quero, mas como tu queres”.10 Lucas descreveu a intensidade da agonia: “E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão”.11

    Todos nós podemos encontrar esperança na experiência de Pedro durante os acontecimentos que antecederam a Crucificação. Talvez o Senhor estivesse falando a todos nós quando disse a Pedro: “Eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo;

    Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos”.

    E Pedro respondeu: “Senhor, estou pronto a ir contigo até à prisão e à morte”. Então o Salvador lhe disse: “Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo antes que três vezes negues que me conheces”.12

    Enquanto Pedro observava o desenrolar dos acontecimentos, ele foi identificado como discípulo de Cristo. Uma criada disse: “Este também estava com ele”. E Pedro respondeu que não O conhecia. Dois outros identificaram Pedro como Seu discípulo. Pedro novamente negou conhecer o Salvador. Enquanto estava falando, o galo cantou.

    “E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes.

    E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente.”13

    Essa experiência fortaleceu Pedro a ponto de fazer com que jamais falhasse novamente, passando a ser conhecido como a rocha. Sua esperança tornou-se firmemente ancorada na Rocha eterna, ou seja, nosso Redentor Jesus Cristo.14 Como chefe dos Apóstolos, ele levou a obra adiante com fidelidade e coragem.

    Tal como Pedro adquiriu esperança depois de um momento de fraqueza, vocês, eu e todas as pessoas podem desfrutar a esperança resultante de sabermos que Deus realmente vive. Essa esperança emana da crença de que se tivermos fé, Ele irá ajudar-nos de algum modo em meio a nossas dificuldades. Se não nesta vida, certamente na vida futura. Como Paulo disse aos coríntios: “Se esperarmos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”.15 No plano eterno das coisas, os erros serão corrigidos. Na perfeita justiça do Senhor, todos que viverem dignamente serão compensados pelas bênçãos que não desfrutaram nesta vida.

    Em minha opinião, nunca houve na história desta Igreja motivo para tamanha esperança no futuro da Igreja e nos seus membros em todo o mundo. Creio e testifico que estamos indo para um nível mais alto de fé e atividade do que jamais aconteceu antes. Oro para que cada um de nós seja encontrado fazendo sua parte nesse grande exército de retidão. Cada um de nós irá apresentar-se perante o Santo de Israel para prestar contas de nossa retidão pessoal. Foi-nos dito que “Ele ali não usa servo algum”.16

    Juntamente com meu chamado apostólico recebi um testemunho seguro da vida e ministério do Salvador. Declaro tal como Jó: “Eu sei que o meu Redentor vive”.17 Meu testemunho disso “está no céu”.18 Jesus é o Cristo, o Salvador de toda a humanidade. Joseph Smith foi o Profeta inspirado que restaurou as chaves de salvação, a autoridade e a organização delegadas a ele sob a direção de Deus, o Pai, e Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo. Disso testifico no santo nome de Jesus Cristo. Amém. 9