1990–1999
As Mãos dos Pais

As Mãos dos Pais

Certamente, a maior dessas coisas será fazer tudo a seu alcance pela felicidade e segurança espiritual dos filhos colocados sob sua responsabilidade.

Neste fim de semana de Páscoa, gostaria de agradecer não somente ao Senhor Jesus Cristo Ressurreto, mas também a Seu verdadeiro Pai, que é nosso Pai espiritual e Deus que, ao aceitar o sacrifício de Seu Filho Primogênito e Perfeito naqueles momentos da expiação e redenção, abençoou todos os Seus filhos. Na Páscoa, mais do que em qualquer outra ocasião, a declaração de João, o Amado, que louva tanto ao Pai como ao Filho, reveste-se de um significado todo especial: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.1

Sou pai, e certamente um pai falho, e ultrapassa minha compreensão a dor que Deus deve ter sentido ao testemunhar lá do céu da maneira que o fez o profundo sofrimento e a crucificação de Seu Filho Amado. Internamente, Ele deve ter-Se sentido compelido a interromper toda aquela dor e enviar anjos para socorrer o Filho, mas não o fez. Suportou o que viu porque era a única forma de se fazer um pagamento salvador e vicário pelos pecados de todos os Seus filhos desde Adão e Eva até o fim do mundo. Sou eternamente grato pelo Pai perfeito e Seu Filho perfeito, pois nenhum Deles recuou e negou-Se a beber a taça amarga nem nos abandonou, nós que somos imperfeitos, tropeçamos e tantas vezes erramos.

Nesta Páscoa, ao pensar na grande beleza existente na palavra inglesa para expiação, que sugere união, somos lembrados que essa relação entre Cristo e Seu Pai é um dos temas mais belos e comoventes do ministério do Salvador. Jesus empenhava-se de corpo e alma em agradar o Pai e obedecer à Sua vontade, esse era o Seu propósito e nisso deleitava-se. Cristo parecia sempre estar pensando no Pai e orando a Ele. Ao contrário do que fazemos, Ele não precisava de nenhuma crise, nenhuma alteração desanimadora no rumo dos acontecimentos para voltar Suas esperanças para o céu; pois ardente e instintivamente, Seus olhos já estavam fitos nele.

Em todo o Seu ministério mortal, Cristo nunca demonstrou um único momento de vaidade ou egoísmo. Quando um rapaz tentou chamá-Lo de “bom”, Ele esquivou-Se do elogio, afirmando que somente uma pessoa o merecia, Seu Pai.

Nos primeiros dias de Seu ministério, Ele disse humildemente: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma: (…) não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou”.2

Após ministrar Seus ensinamentos com poder e autoridade, o que deixava seus ouvintes atônitos, Ele dizia: “A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. (…) Eu não vim de mim mesmo, mas aquele que me enviou é verdadeiro”.3 Em outra ocasião, afirmou novamente: “Eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar”.4

Aos que queriam ver Seu Pai e ouvir diretamente de Deus que Jesus era quem afirmava ser, Ele respondeu: “Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; (…) quem me vê a mim vê o Pai”.5 Quando Jesus quis preservar a unidade entre Seus discípulos, orou usando o exemplo de Seu próprio relacionamento com Deus. “Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós.”6

Mesmo ao dirigir-Se para a Crucificação, reprimiu Seus apóstolos que queriam intervir, dizendo: “Não beberei eu o cálice que o Pai me deu?”7 Quando essa provação indescritível terminou, Ele proferiu as palavras que provavelmente foram as mais serenas e merecidas de Seu ministério mortal. Ao fim de Sua agonia, sussurrou: “Está consumado. (…) Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.8 Por fim, estava consumado. Finalmente, Ele poderia voltar para casa.

Confesso que já refleti demoradamente sobre esse momento e sobre a ressurreição que viria logo a seguir. Muitas vezes, já me perguntei como deve ter sido esse encontro. O Pai que tanto amava o Filho; o Filho que honrava e reverenciava o Pai em todas as palavras e atos. Para duas pessoas que eram um como Eles, como deve ter sido aquele abraço? Como deve ser ainda hoje o Seu companheirismo divino? Podemos apenas imaginar e admirar-nos; e podemos, neste fim de semana de Páscoa, ansiar por vivermos dignos de desfrutar ao menos em parte esse relacionamento.

Como pai, fico a perguntar-me se eu e todos os outros pais podemos fazer mais para desenvolver um relacionamento mais terno e sólido com nossos filhos aqui na Terra. Pais, será muita audácia de nossa parte esperar que nossos filhos tenham por nós uma pequena parte do sentimento que o Filho Divino tinha por Seu Pai? Será que ganharíamos mais desse amor se tentássemos ser mais semelhantes ao que Deus foi para Seu Filho? Em todo caso, sabemos com segurança que as crianças começam a formar o conceito de Deus baseadas nas características observadas em seus pais terrenos.9

Por esse motivo e por muitos outros, suponho que nenhum livro lido recentemente tenha-me inquietado mais do que uma obra intitulada Fatherless America (A América Órfã). Nesse estudo, o autor refere-se à ausência do pai como “a tendência demográfica mais nociva desta geração”, a causa principal de malefícios aos filhos. Ele está convencido de que essa é a razão principal de nossos problemas sociais mais prementes, da pobreza ao crime, da gravidez de adolescentes aos maus-tratos às crianças e à violência doméstica. Uma das principais questões sociais de nossos dias é a saída do pai da vida dos filhos.10

Ainda mais preocupante que a ausência física de certos pais é a ausência espiritual e emocional de outros. Esses pecados de omissão paterna são provavelmente mais destrutivos do que os pecados de ação. Por que não nos surpreende que quando se perguntou a 2.000 crianças de todas as idades e classes sociais o que elas mais gostavam em seu pai, elas tenham respondido universalmente: “Ele tem tempo para mim”?11

Uma jovem Laurel que conheci em uma conferência a que fomos designados recentemente escreveu-me após nossa visita e disse: “Queria que meu pai soubesse o quanto preciso dele, espiritual e emocionalmente. Anseio por qualquer palavra gentil, qualquer gesto pessoal. Acho que ele não sabe o quanto significaria para mim o fato de demonstrar maior interesse pelo que está acontecendo em minha vida, oferecer-se para dar-me uma bênção ou apenas passar alguns momentos comigo. Sei que ele teme não saber fazer a coisa certa ou expressar-se bem. Mas a simples tentativa significaria mais do que ele jamais poderia imaginar. Não quero parecer ingrata, pois sei que ele me ama. Certa vez, ele mandou-me um bilhete e assinou ‘Com amor, Seu Pai’. Esse bilhete tem um imenso valor para mim. Considero-o um de meus bens mais preciosos”.12

Como no caso dessa jovem, não quero que pareça que estou sendo ingrato neste discurso e nem que ele tenha o objetivo de fazer com que os pais se sintam fracassados. Na maior parte das vezes, os pais são maravilhosos, excelentes. Não sei quem é o autor dos versos a seguir, mas me recordo deles desde minha infância e dizem algo assim:

Apenas um pai, de expressão cansada,

Retornando ao lar após dura jornada.

Trabalha sem trégua desde o alvorecer,

Enfrenta as agruras com afã de vencer.

E como se alegra quando a família

Faz festa ao revê-lo ao final do dia.

Apenas um pai, mas que não mede esforços

Por seus pequeninos, seus dons mais preciosos.

Com bravura e desvelo faz mês após mês,

O que antes por ele seu próprio pai fez.

Para ele estes versos recito de cor,

Apenas um pai — mas dos homens, o melhor.

Irmãos, ainda que não sejamos “dos homens, o melhor”, mesmo com nossas limitações e imperfeições, podemos continuar a seguir na direção certa devido aos animadores ensinamentos dados por um Pai Divino e demonstrados por um Filho Divino. Com a ajuda do Pai Celestial, podemos deixar um legado paterno maior do que poderíamos imaginar.

Um homem que recentemente se tornou pai escreveu: “Muitas vezes, quando vejo que estou sendo observado por meu filho, é como se estivesse revivendo momentos que tive com meu próprio pai, quando o que eu mais queria era ser como ele. Lembro que eu tinha um aparelho de barbear de plástico e meu próprio tubo de creme de barbear e todos os dias de manhã eu fazia a barba junto com ele. Lembro-me de seguir seus passos de um lado para outro na grama quando ele a aparava no verão.

Agora quero que meu filho siga meu exemplo; no entanto, apavora-me a idéia de que ele provavelmente o fará. Ao segurar esse menino nos braços, sinto um forte desejo de ser mais semelhante à Deidade, uma ânsia de amar como Deus ama, consolar como Ele consola, proteger como Ele protege. A resposta a todos os temores de minha juventude era sempre: ‘O que meu pai faria?’ Agora que tenho um filho para criar, espero contar com a ajuda do Pai Celestial para dizer-me exatamente isso: como agir”.13

Um amigo meu do tempo da faculdade, escreveu-me recentemente, dizendo: “Muitas coisas na minha infância caótica eram incertas, mas há algo que nunca questionei: o amor de meu pai por mim. Essa certeza foi a âncora de minha vida naqueles primeiros anos. Vim a conhecer e amar ao Senhor porque meu pai O amava. Nunca chamei ninguém de tolo ou tomei o nome do Senhor em vão porque ele me disse que a Bíblia nos advertia contra tais atitudes. Sempre paguei o dízimo porque ele me ensinou que era um privilégio fazê-lo. Sempre tentei assumir a responsabilidade por meus erros e falhas porque era assim que meu pai agia. Embora tenha permanecido menos ativo na Igreja durante certo período, no fim de sua vida ele serviu como missionário e trabalhou diligentemente no templo. Em seu testamento, determinou que todo o dinheiro que não fosse necessário para cuidar da família deveria ser doado à Igreja. Ele amava a Igreja de todo o coração. E por causa dele, também a amo”.14

Certamente, essa deve ser a aplicação espiritual dos seguintes versos de Byron: “Mas em minhas feições se vêem com primor / Traços do rosto de meu genitor”.15

Em um momento vulnerável da vida do jovem Néfi, ele determinou seu futuro como profeta, ao dizer: “Acreditei em todas as palavras que meu pai me dissera”16. No momento decisivo da vida do profeta Enos, ele disse que foram “as palavras que fre-qüentemente ouvira de [seu] pai”17 que levaram a uma das grandiosas revelações registradas no Livro de Mórmon, e com grande pesar, Alma, o Filho, ao deparar-se com a excru-ciante lembrança de seus pecados, “[lembrou-se] também de ter ouvido [seu] pai profetizar (…) sobre a vinda de (…) Jesus Cristo, um Filho de Deus, para expiar os pecados do mundo”.18 Essa curta lembrança, esse testemunho pessoal prestado por seu pai em um momento em que talvez achasse que nada que dissesse tocaria o filho, não apenas salvou a vida espiritual desse seu filho, mas mudou para sempre a história do povo do Livro de Mórmon.

Referindo-se a Abraão, o grande patriarca, Deus disse: “Eu o tenho conhecido, (…) ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor”.19

Presto meu testemunho neste fim de semana de Páscoa de que “grandes coisas [serão] requeridas das mãos [dos] pais”, como o Senhor declarou ao Profeta Joseph Smith.20 Certamente, a maior dessas coisas será fazer tudo a seu alcance pela felicidade e segurança espiritual dos filhos colocados sob sua responsabilidade.

Naquele que foi o momento mais pungente da história da humanidade, com sangue jorrando de todos os poros e uma súplica angustiada nos lábios, Cristo procurou a Quem sempre recorria, Seu Pai. “Aba”, exclamou Ele. “Pai”, ou como chamaria uma criança, “Papai”.21

Esse momento é tão pessoal que quase parece um sacrilégio mencioná-lo. Um Filho tomado por uma dor infinita, um Pai que era Sua única fonte de força, ambos perseverando, juntos atravessando a tempestade.

Pais, que nesta Páscoa nos sintamos renovados em nossa responsabilidade paterna, fortalecidos pela imagem desse Pai e desse Filho ao abraçarmos nossos filhos e permanecermos com eles para sempre, é a minha oração em nome de Jesus Cristo. Amém.